Por Marcos Jank
O Brasil é um dos raros países do mundo com capacidade de oferecer segurança global em commodities agropecuárias, energéticas, minerais e climáticas.
Num mundo onde a geopolítica voltou a ser o principal fator de risco para o abastecimento global, ter commodities é poder.
Commodities são produtos homogêneos e não diferenciados, cujos preços normalmente se formam pela interação direta da oferta e da demanda em mercados globais de mercadorias, onde compradores e vendedores são tomadores de preço. Dividem-se em três grandes categorias: energéticas, minerais e do agronegócio.
Durante as décadas de ouro da globalização, o acesso fácil a esses produtos nos mercados criou a ilusão de que eram infinitamente disponíveis e irrelevantes do ponto de vista estratégico. Produção e logística ampla e eficiente, preços baixos, oferta garantida. As commodities chegaram a ser consideradas produtos ultrapassados e indesejáveis, que deveriam ser substituídos por itens de maior valor adicionado nas pautas de exportação dos países.
Mesmo aqui no Brasil, um país riquíssimo em recursos naturais e reservas de recursos naturais, o debate foi dominado pela crítica de que a dependência por commodities estaria produzindo a reprimarização e a desindustrialização da nossa economia, ao responderem por mais de 70% das nossas exportações.
Essa visão era não apenas simplista, mas falsa e perigosa. E o mundo está pagando um preço alto por desmerecê-las. Exportações de commodities são concentradas em pouquíssimos países e para produzi-las é preciso muito mais do que apenas reservas de recursos naturais. Elas demandam também muita tecnologia, indústria e serviços. O problema nunca foi ter commodities – foi não saber transformá-las em poder estratégico.
A realidade mudou drasticamente e o epicentro da nova geopolítica está nas commodities. O mote central dos conflitos na Venezuela e no Irã tem sido o controle do petróleo e do gás natural. A rivalidade tecnológica e energética entre EUA e China tornou esses países obcecados pelo controle dos minerais críticos – lítio, cobalto e terras raras são hoje tão disputados quanto o petróleo foi no século XX. A guerra da Ucrânia transformou grãos e fertilizantes em armas geopolíticas.
O fechamento do Estreito de Ormuz revelou como um gargalo geográfico de 39 km pode paralisar simultaneamente as cadeias globais de energia, alimentos e insumos.
O Brasil ocupa posição estratégica privilegiada neste cenário. Temos casos notavelmente bem-sucedidos nas commodities do agro, onde lideramos o ranking global nas exportações. Diversificamos também a nossa matriz energética: enquanto o mundo opera com 85% de energia fóssil e apenas 15% renovável, o Brasil tem metade fóssil e metade renovável, graças à hidroeletricidade, ao etanol, à biomassa e ao crescimento das energias solar e eólica, estrutura construída desde os anos 1970.
Já na mineração ainda estamos patinando, com exemplos de sucesso como o petróleo, o minério de ferro e o cobre, mas uma letargia preocupante na exploração de minerais críticos como lítio, grafite, manganês e terras raras, cujas reservas existem no subsolo brasileiro e permanecem em grande parte inexploradas por ausência de política mineral de Estado.
E carregamos uma imensa vulnerabilidade na produção nacional de fertilizantes: ocupamos o primeiro lugar no ranking global de importação, comprando no exterior 85% do que a nossa agricultura consome. Somos a maior potência agrícola tropical do planeta, mas não controlamos a fertilidade do nosso próprio solo.
A situação global evidentemente traz riscos e vulnerabilidades. Mas traz também enormes oportunidades para o Brasil, desde que saibamos aproveitá-las de forma urgente, estratégica e coordenada (Marcos Jank é professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia; Estadão)







