Na região de Poconé, a Fazenda Ipiranga mostra como tradição, inovação e proteção da onça-pintada podem caminhar juntas, gerando renda e preservando o bioma.
No coração do Pantanal mato-grossense, uma fazenda centenária tem demonstrado que é possível conciliar produção, conservação e geração de renda de forma estratégica. Localizada em Poconé, a Fazenda Ipiranga se consolidou como um exemplo concreto de integração entre pecuária tradicional, turismo sustentável e proteção da biodiversidade.
Com mais de 150 anos de atividade pecuária, a propriedade mantém o gado como base econômica, mas ampliou seu modelo de negócios ao investir no turismo. A iniciativa deu origem à Pousada Piuval, criada a partir da própria fazenda e que hoje recebe milhares de visitantes ao longo do ano — muitos deles estrangeiros interessados em vivenciar o cotidiano pantaneiro e observar a fauna local, especialmente a onça-pintada.

Mais do que um atrativo turístico, a experiência oferecida preserva e valoriza tradições culturais. Os visitantes acompanham a lida com o gado, participam de cavalgadas e se inserem na rotina do homem pantaneiro, em uma vivência que fortalece a identidade regional e agrega valor à atividade.
Atualmente, o turismo representa a principal fonte de receita da propriedade, sem que a pecuária perca sua relevância. Além de seu papel econômico, o manejo do gado contribui para o equilíbrio ambiental, ajudando a controlar a vegetação e favorecendo a biodiversidade local.
Um dos principais desafios da região é a convivência com a onça-pintada. Na Fazenda Ipiranga, a estratégia adotada foi investir em soluções de coexistência. A implantação de um sistema de proteção para bezerros, com cercas adaptadas e monitoramento contínuo, eliminou perdas sem a necessidade de afastar o predador de seu habitat natural. A iniciativa reduz conflitos e reforça um modelo de produção alinhado à conservação da espécie.
Paralelamente, a fazenda também investe em inovação por meio do programa Fazenda Pantaneira Sustentável, que introduz tecnologias, aprimora a gestão e amplia a eficiência produtiva. A proposta é demonstrar, na prática, que desempenho econômico e preservação ambiental podem caminhar juntos, valorizando o Pantanal como patrimônio natural.
Sustentabilidade que se traduz em prática
Instalada a cerca de 110 km de Cuiabá e a 10 km de Poconé, a Pousada Piuval se tornou uma referência em sustentabilidade no turismo pantaneiro. O empreendimento acumula reconhecimentos importantes no setor e foi certificado por normas nacionais de sustentabilidade em meios de hospedagem.
Entre as práticas adotadas estão a coleta seletiva e destinação adequada de resíduos, captação de água da chuva para uso na jardinagem e reaproveitamento de águas cinzas — provenientes de chuveiros, pias e aparelhos de ar-condicionado — que passam por tratamento e são reutilizadas. A pousada também investe em eficiência energética, com placas solares, lâmpadas de LED e sistemas de controle de consumo nos quartos.
Dos 30 apartamentos, a maior parte segue princípios de arquitetura sustentável, com uso de madeira de reflorestamento. Na cozinha, a adoção de boas práticas reduz o desperdício e reforça a segurança alimentar dos hóspedes.
Outro diferencial está no impacto social. Todos os funcionários são da comunidade local, e a pousada desenvolve ações socioculturais e parcerias para formação profissional.
“Nosso modelo envolve não apenas preservar o meio ambiente, mas também incluir a comunidade no desenvolvimento do negócio. Trabalhamos para que a sustentabilidade seja vivida no dia a dia, desde a operação até a formação de novos profissionais do turismo na região”, afirma Eduardo Eubank, diretor da Pousada Piuval.
Com gestão profissionalizada e equipe de mais de 30 colaboradores, o empreendimento evoluiu de uma iniciativa familiar para uma empresa estruturada, mantendo, no entanto, suas raízes e valores.
O resultado dessa integração é um modelo que ultrapassa os limites da propriedade e se posiciona como referência para o setor. No Pantanal, a sustentabilidade deixa de ser conceito e se torna prática — mostrando que desenvolvimento e preservação não precisam seguir caminhos opostos, mas podem, juntos, garantir o futuro do bioma.




