Por José Roberto Mendonça de Barros
A questão fundamental é que a crise está mudando de natureza – para algo muito pior
Nesta semana, o conflito no Oriente Médio completou dois meses, ainda sem qualquer perspectiva de acordo entre as partes. Existe um amplo consenso entre os analistas de que a própria discussão dos termos do cessar-fogo demandará tempo por envolver muitos pontos complexos, como a questão nuclear.
Além disso, o presidente Trump não tem uma visão estratégica clara, alternando diferentes objetivos com a campanha militar. É o que vemos agora, com a determinação de um bloqueio a todos os navios egressos de portos iranianos. A própria agenda das discussões vai se alterando com o passar do tempo, prolongando o impasse. O fato de os negociadores americanos serem amadores complica a situação.
Mas agora não se trata apenas de mais algum tempo para termos um alívio no cenário. A questão fundamental é que a crise está mudando de natureza – para algo muito pior.
Explico-me. Nas semanas iniciais do conflito, o bloqueio do Estreito de Ormuz produziu uma interrupção do fluxo de petróleo e derivados e uma forte alta de preços da energia. Isso elevou a inflação no mundo todo, mas ainda sem interrupção dos fluxos produtivos e comerciais.
Mas isso foi possível graças à utilização do óleo nos estoques nos países consumidores, incluindo o produto que estava nos navios a caminho de seus destinos.
Agora, o nível do petróleo disponível começa a escassear de forma perigosa. Vários países estão travando as exportações de muitos produtos para defender o mercado interno, como já fizeram a China e a Rússia com refinados e fertilizantes.
Pior que isso, em muitos países consumidores, com o fim dos estoques de petróleo disponíveis no horizonte, os governos serão obrigados a racionar seu uso, como já apontou, por exemplo, a Suécia.
A sinalização será de escassez física e redução na produção de muitos bens, apontando para um horizonte recessivo à frente.
Nesse caso, o preço do petróleo dará um novo salto, indo para a faixa de US$ 120-150 por barril, com significativas pressões inflacionárias adicionais.
Teremos ainda uma redução na produção agrícola, pela restrição ao uso de fertilizantes e de combustíveis para mover as máquinas.
O choque energético em curso mudaria de qualidade e seria completo: combustíveis, petroquímicos, fertilizantes e alimentos, que são, também, uma forma de energia.
Suas consequências seriam enormes, empurrando o mundo para um cenário de inflação elevada e provável recessão. Vai ficando a cada dia mais difícil evitar um desfecho dramático da crise produzida por Trump (José Roberto Mendonça de Barros é economista e sócio da MB Associados; Estadão)







