A manutenção das tensões no Oriente Médio e as restrições às exportações por grandes players globais estabeleceram um novo paradigma de incerteza para o agronegócio mundial em 2026. O bloqueio parcial e as dificuldades logísticas no Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 40% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados, provocaram um avanço imediato nos preços das commodities minerais e colocam em xeque a segurança alimentar global.
Com a continuidade do conflito, para além da escalada dos preços e consequente inflação do custo de produção, há risco concreto de desabastecimento, apontam analistas de mercado e indústrias.
O fluxo de fertilizantes que passa pelo Estreito de Ormuz justifica a preocupação global com o tema. O estreito concentra o tráfego de cerca de 30% da ureia mundial e quase metade do enxofre, insumo essencial para os fosfatados. Com a Rússia também fora do mercado de enxofre — por conta da suspensão das exportações do produto até o fim de junho de 2026 —, mais da metade da oferta global deste produto enfrenta restrições.
Para o analista do Rabobank, Samuel Taylor, a combinação de perda de oferta e demanda represada deve manter o mercado apertado e pressionar os custos agrícolas ao menos até 2027. “Não vamos voltar aos preços pré-conflito tão cedo”, adverte Taylor em relatório.
A leitura é compartilhada por pesquisadores do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares (IFPRI). Eles reforçam que o agravamento do conflito no Irã e o fechamento deste corredor estratégico ameaçam diretamente a rentabilidade dos produtores, transformando o cenário para este ano em um desafio de sobrevivência para as margens do campo.
Especialistas destacam que uma eventual reabertura do canal não traria alívio imediato. “Diferentemente da crise de 2022, os produtores enfrentam agora preços de commodities muito mais baixos, o que reduz drasticamente as margens de lucro esperadas”, diz o Instituto.
A indústria, por sua vez, enxerga além da pressão dos custos com aumento dos preços dos fertilizantes, afetando a disponibilidade desses insumos. Para a CEO da International Fertilizer Association (IFA, associação global que representa a indústria de fertilizantes), Alzbeta Klein, há fragilidade nesse sistema. Klein avalia que, embora os estoques globais ajudem a absorver choques de curto prazo, eles são incapazes de substituir as importações contínuas necessárias para a produção.
“Rotas ou origens alternativas podem oferecer alguma flexibilidade, mas é improvável que compensem totalmente uma interrupção prolongada”, afirmou em entrevista exclusiva ao Broadcast Agro.
A IFA estima que o bloqueio em Ormuz já causou um salto imediato de 28,2% nos preços da ureia no Golfo, e o impacto severo deve ser sentido especialmente em países emergentes de baixa renda na África e no Sul da Ásia, onde o repasse dos custos deve elevar a inflação de alimentos.
A pressão global é intensificada por grandes compradores como a Índia, que lançou nova licitação para 2,5 milhões de toneladas de ureia e deve importar até 10 milhões de toneladas no ano. Enquanto isso, a China opera suas plantas de fosfato com margens negativas e taxa de utilização de apenas 44%, e o grupo OCP, no Norte da África, reduziu sua produção em 30%.
O impacto final do conflito nos preços e no custo de produção dependerá sobretudo da duração e da intensidade das tensões, mas a pressão inflacionária já é um efeito observado pelo mercado nesta temporada. O consenso recai sobre a incerteza quanto ao nível de adubação: nos Estados Unidos, 70% dos produtores afirmam não ter condições financeiras para a compra integral de insumos nesta safra.
A perda de acessibilidade e o risco inédito de desabastecimento de fosfatados, impulsionado pela escassez global de enxofre e preços recordes do ácido sulfúrico, desenham um cenário de margens apertadas que deve exercer pressão persistente sobre o setor até 2027.
Volatilidade no mercado de adubos afeta Brasil e acende alerta para próxima safra
Maior importador mundial de fertilizantes, internalizando 85% de tudo que aplica nas lavouras, o Brasil é um dos mercados mais atingidos pela volatilidade atual no cenário global de adubos. Os efeitos decorrem do conflito no Oriente Médio e do bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, que concentra 40% do fluxo mundial desses insumos. Por aqui, as consequências já são sentidas desde o primeiro dia do conflito no Irã, em 28 de fevereiro passado, alertam analistas de mercado e indústria.
A dependência externa provocou uma elevação nos preços dos insumos. Desde o início do conflito, os preços CFR da ureia saltaram 63% no País, enquanto o sulfato de amônio (SAM) e o nitrato de amônio (NAM) apontam altas de 30% e 60%, respectivamente, calcula a consultoria StoneX. Embora se observe um movimento de ajuste e desaceleração nas últimas semanas, os valores permanecem superiores aos níveis pré-conflito.
Analistas da consultoria atribuem essa perda de fôlego a “níveis insustentáveis para a demanda”, onde o peso da menor procura global passou a sobrepor a tensão na oferta. “O recuo pontual nos preços da ureia no início de maio pode oferecer um respiro momentâneo, mas a postura dos compradores permanece cautelosa”, afirmou o analista de Inteligência de Mercado da consultoria, Tomás Pernías.
Projeções da Universidade Estadual de Dakota do Norte, dos Estados Unidos, sugerem que, se o bloqueio persistir até o fim do ano, as importações brasileiras de ureia podem cair 27,3%, superando o recuo de 9% visto no início da guerra na Ucrânia. Diferentemente daquele período, os produtores enfrentam agora preços de commodities muito mais baixos, o que reduz as margens de lucro esperadas.
Atualmente, a StoneX estima que são necessárias 60 sacas de milho para adquirir 1 tonelada de ureia. Com a rentabilidade em risco, agricultores podem ser forçados a reduzir as taxas de aplicação de nutrientes na safra de soja em setembro ou migrar para culturas menos intensivas em insumos. “Estamos diante de uma deterioração das relações de troca, o que pressiona as margens do produtor e torna as decisões de compra mais complexas neste momento”, afirmou Pernías, em nota.
A previsão para esta safra de 2026 é de que as entregas de fertilizantes ao consumidor final no Brasil caiam para 47,2 milhões de toneladas, segundo o relatório Rabobank Agroinfo. O volume representa uma redução de quase 2 milhões de toneladas frente ao recorde de 49 milhões registrado na temporada de 2025. Isso se deve ao encarecimento dos adubos, que tende a levar a ajustes no comportamento de compra, num contexto em que a ureia e o MAP acumulam altas expressivas.
Segundo relatório da XP Investimentos, o peso dos fertilizantes no custo total deve subir de 30% para cerca de 35% na próxima safra 2026/27. Somado a isso, o Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares (IFPRI) alerta para a alta probabilidade de um evento El Niño no último trimestre de 2026, elevando o risco de que o choque de custos se transforme em uma crise de oferta agrícola generalizada.
A indústria local ainda lida com a escassez global de enxofre e o retorno da cobrança de PIS e Cofins, criando um efeito acumulativo em um momento de diesel e fretes elevados. Em entrevista exclusiva ao Broadcast Agro, o vice-presidente comercial da Mosaic, Felipe Pecci, descreve um mercado mais tenso e imprevisível, destacando que os “lineups” nos portos estão entre 15% e 20% menores do que em igual momento na safra 2024/25.
Diante dos riscos, o governo federal estruturou uma “sala de crise” liderada pela Casa Civil. Segundo o assessor do Ministério da Agricultura, José Carlos Polidoro, o objetivo é reduzir a dependência externa e garantir que tecnologias como biofertilizantes ofereçam resiliência ao setor no futuro.
O impacto final do conflito nos preços dos fertilizantes e, consequentemente, no custo de produção dependerá sobretudo da duração da guerra, mas a pressão inflacionária já é um efeito observado pelo mercado nesta temporada 2025/26. As dúvidas persistem sobre qual será o reflexo dessas cotações elevadas sobre a decisão de plantio e o nível de adubação.
No Brasil, o risco mais claro e imediato em 2026 recai sobre os fosfatados, em virtude da escassez global de enxofre e preços recordes do ácido sulfúrico, o que já leva à paralisação de plantas. O Rabobank projeta que esse aperto deve atingir as decisões de adubação de forma persistente até 2027 (Estadão)





