Agro: Por que o Brasil produz tanto, mas captura tão pouco valor?

Por Fernanda Pressinott

O Brasil se tornou potência agrícola global, mas ainda enfrenta o desafio de transformar produção em valor, marca e influência internacional.

O Brasil se tornou uma potência agrícola global. Alimenta centenas de milhões de pessoas, lidera exportações em diversos segmentos e transformou o agronegócio em um dos pilares da economia nacional. Ainda assim, existe uma pergunta que continua sem resposta definitiva: por que um país com tanto potencial ainda captura tão pouco valor internacional daquilo que produz?

A resposta passa por uma contradição que define o agro brasileiro. O mundo reconhece a força produtiva do Brasil, mas ainda não enxerga o país como referência em valor agregado, inovação sofisticada ou marcas globais.

O Brasil vende muito. Mas vende barato

Os números impressionam. Em poucas décadas, o país saiu da condição de importador de alimentos para ocupar posição estratégica no abastecimento global. O avanço tecnológico liderado pela Embrapa transformou o Cerrado em uma das regiões agrícolas mais produtivas do planeta. A produtividade cresceu de forma acelerada, as exportações bateram recordes e o agro passou a responder por uma parcela significativa do PIB brasileiro.

Mas existe um detalhe importante: boa parte dessa riqueza continua sendo gerada a partir de commodities.

Soja, milho, algodão, carne e café deixam o país em grandes volumes, porém com baixo nível de industrialização e diferenciação. Enquanto isso, outros mercados capturam as etapas mais lucrativas da cadeia: processamento, branding, distribuição e posicionamento premium.

Na prática, o Brasil exporta matéria-prima e importa valor agregado.

O caso do café talvez seja o mais simbólico. O país é líder mundial em produção, mas durante décadas permitiu que marcas estrangeiras transformassem o café brasileiro em produto premium global. O consumidor final muitas vezes reconhece a marca internacional, mas não associa aquele produto ao Brasil.

O problema não é produção. É posicionamento

Existe uma visão equivocada de que o Brasil ainda precisa provar sua capacidade produtiva. Não precisa mais.

O agro brasileiro já demonstrou eficiência, escala e competitividade. O problema atual é outro: transformar produção em reputação sofisticada.

Países europeus entenderam isso há muito tempo. Eles vendem origem, tradição, cultura e identidade territorial. Um vinho francês, um queijo italiano ou um azeite português carregam mais do que qualidade: carregam narrativa.

O consumidor paga mais porque compra percepção de valor. O Brasil ainda está aprendendo a fazer isso.

Quando produtos brasileiros conseguem conectar origem e identidade cultural, o resultado aparece. Cafés especiais, vinhos nacionais, cacau premium e produtos com indicação geográfica têm desempenho internacional muito superior às commodities tradicionais.

O queijo da Serra da Canastra é um exemplo claro de como procedência e identidade podem transformar um produto regional em ativo global. Mas esses casos ainda são exceções.

O Brasil comunica mal sua própria potência

Outro problema estrutural é a comunicação. Apesar dos avanços em agricultura sustentável, biotecnologia, rastreabilidade e insumos biológicos, a imagem internacional do agro brasileiro continua frequentemente associada ao desmatamento e às crises ambientais.

Isso não significa que os desafios ambientais não existam. Eles existem e são relevantes. Mas especialistas apontam que o Brasil falhou em construir uma narrativa internacional equilibrada sobre sua capacidade científica e tecnológica no campo.

Enquanto outros países exportam inovação como estratégia de reputação, o Brasil muitas vezes comunica apenas escala produtiva.

O resultado é uma distorção: o país desenvolveu uma das agriculturas tropicais mais avançadas do mundo, mas ainda não consolidou a imagem de potência tecnológica agrícola.

O “celeiro do mundo” virou um limite

Durante anos, o título de “celeiro do mundo” foi tratado como símbolo de orgulho nacional. Mas ele também revela uma armadilha. Celeiros abastecem. Potências globais capturam valor.

Quando um país fica excessivamente associado apenas à produção de commodities, corre o risco de ocupar uma posição subordinada dentro das cadeias globais. Produz muito, exporta muito, mas depende das etapas de maior valor agregado realizadas fora de suas fronteiras.

O país já domina produção, escala e competitividade. Precisa agra fortalecer marcas, ampliar industrialização, investir em diferenciação e expandir indicações geográficas.

Pesquisa Marca Brasil na CNN

As entrevistas internacionais da pesquisa foram feitas com cidadãos do México, Argentina, EUA, Canadá, China, Japão, Índia, Emirados Árabes, África do Sul, Angola, Moçambique, Rússia, Reino Unido, Suíça, Alemanha, França, Itália, Espanha, Polônia, Holanda, Grécia, Bélgica, Portugal, Suécia, Áustria e Dinamarca.

Fundada em 2009 e sediada em Lisboa, a OnStrategy é uma consultora multidisciplinar de brand value management, focada na criação, construção e otimização do valor econômico e financeiro de negócios e marcas.

A partir deste segunda-feira (11) e ao longo desta semana, o portal da CNN Brasil e seus perfis nas redes sociais irão divulgar uma série de conteúdos com detalhes da pesquisa. Na TV, a CNN Brasil dá largada na cobertura no CNN Prime Time, a partir das 20 horas. O jornal exibe uma série de quatro episódios temáticos que trazem os dados inéditos e os desdobramentos do estudo global.

A cobertura especial da CNN Brasil se encerra no domingo, 17 de maio, com um programa ao vivo, de uma hora, apresentado por Iuri Pitta e Elisa Veeck. Dividida em blocos temáticos, a atração debaterá com especialistas os impactos desses achados para a economia, política, agronegócio e segurança pública (CNN)

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