Especialista explica como o drone agrícola responde ao apagão de mão de obra no campo brasileiro

O setor primário perdeu quase dois milhões de trabalhadores em uma década. A aplicação de insumos por drone emerge como alternativa técnica concreta em um agronegócio que bate recordes de produção sem aumentar o contingente humano

O Brasil projeta uma safra de 356 milhões de toneladas em 2025/26, conforme estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mas o número de trabalhadores no setor primário segue em queda. Entre 2012 e 2023, o campo perdeu quase dois milhões de pessoas, uma retração de 19,35% segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Hoje, menos de 15% da população brasileira vive em áreas rurais, e a maior parte dos que ficaram tem mais de 50 anos, segundo o Censo do IBGE de 2022. Produzir mais com menos gente não é mais tendência: é a realidade do agronegócio brasileiro.

Nesse cenário, a aplicação de insumos por drone ganhou tração como resposta operacional. A frota de drones agrícolas no país passou de 3 mil equipamentos em 2021 para 35 mil em 2025, crescimento superior a 1.000% em quatro anos, conforme dados do Ministério da Agricultura. A projeção do setor é chegar a 50 mil unidades até o final de 2026. O Brasil já ocupa a segunda posição no ranking mundial de aviação agrícola, atrás apenas dos Estados Unidos, e o setor movimentou cerca de US$ 77,4 milhões em 2024, com crescimento médio anual projetado acima de 25% até o fim da década, segundo a consultoria Grand View Research.

A tecnologia não resolve só o problema da mão de obra. Levantamento técnico da Embrapa aponta que drones apresentam desempenho equivalente aos métodos tradicionais de pulverização com volume menor de calda e maior alcance em áreas de difícil acesso. Estimativas do setor indicam redução de até 65% no volume de defensivos aplicados em lavouras onde o drone substituiu métodos convencionais, além de queda de até 90% no amassamento das plantas em relação à pulverização terrestre.

Para Victor Gomes Silva, engenheiro agrônomo e supervisor de pós-venda da Fotus Agro, a mudança de perfil do produtor reflete esse contexto. “O produtor chegava até nós com uma dúvida genuína sobre se o drone funcionava. Hoje, ele chega com uma dúvida técnica muito mais específica: qual modelo serve melhor para a sua cultura, qual é a capacidade do tanque ideal, como programar a rota de voo para uma área irregular. A curva de aprendizado do mercado foi rápida”, observa o agrônomo.

A demanda por suporte técnico acompanhou o crescimento da frota. Com dezenas de milhares de equipamentos em campo, operadores com diferentes níveis de qualificação e culturas que exigem parâmetros distintos de aplicação, a assistência pós-venda passou a ser um fator determinante na escolha do fornecedor. “O drone aplicando na dosagem errada, na altura inadequada ou com bico desgastado compromete o resultado agronômico da operação inteira. O produtor que entende isso sabe que o suporte técnico não é acessório: é parte do investimento”, afirma Victor Gomes Silva.

A regulamentação do setor também avançou. A Portaria nº 298 do Ministério da Agricultura exige capacitação específica e cadastro junto ao Mapa para operadores de drones de pulverização. Além disso, a ANAC publicou o RBAC nº 100, regulamento que estabelece a realização de exame de conhecimentos teóricos para pilotos de drones. O número de autorizações de voo solicitadas por meio do sistema SARPAS, do DECEA, cresceu mais de 25% entre 2024 e 2025, indicando que o avanço da regularização vem sendo acompanhado pelo aumento efetivo das operações no campo.

“O drone agrícola continua sendo uma tecnologia em expansão no campo, mas já não há espaço para amadorismo. O produtor precisa de operações eficientes, profissionais capacitados e resultados consistentes. Nesse cenário, o drone se destaca por otimizar diferentes manejos agrícolas, como pulverização e dispersão de sólidos, permitindo que equipes reduzidas realizem operações com mais agilidade e eficiência. Em um momento em que a falta de mão de obra é um dos grandes desafios do agronegócio, a tecnologia ajuda o produtor a produzir mais com menos recursos, sem abrir mão da qualidade e do momento correto das aplicações”, afirma Victor Gomes Silva.

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