Pedro Henrique Pontes*
A escalada das tensões no Oriente Médio e a possibilidade de interrupções no tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz voltaram a acender um alerta nos mercados internacionais. Por esse estreito passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo, o que faz com que qualquer ameaça à sua operação repercuta imediatamente nos preços da energia. A continuidade das tensões no Oriente Médio, a incerteza em torno do Estreito de Ormuz e a volatilidade do mercado internacional de petróleo mostram que o problema não é apenas a oferta física da commodity, mas também o risco, a expectativa do mercado e a instabilidade produzida pelo contexto geopolítico.
Em tese, o óleo continua disponível, mas o mercado reage muito antes de uma eventual escassez. A simples percepção de risco é capaz de elevar os custos de transporte, dos seguros e as expectativas inflacionárias. É justamente por isso que conflitos internacionais continuam produzindo efeitos sobre a inflação e os custos de energia mesmo a milhares de quilômetros dos locais onde ocorrem.
Esse cenário recolocou a segurança energética no centro das discussões econômicas a segurança energética. Durante décadas, o Brasil construiu uma trajetória singular nesse campo, ora sob a égide do projeto Brasil Potência, ora sob uma política de stop and go. Desenvolveu uma indústria de etanol, consolidou a tecnologia flex fuel, ampliou o uso do biodiesel e firmou-se como detentor de uma das matrizes energéticas mais diversificadas e limpas do mundo. Ao mesmo tempo, tornou-se um importante produtor de petróleo. Ainda assim, o país não está completamente imune aos choques internacionais, pois permanece dependente da importação de alguns derivados, especialmente o diesel.
É nesse contexto que a mistura de etanol na gasolina ganha relevância. A recente adoção da gasolina com 30% de etanol anidro na mistura reforça essa estratégia de ampliar a participação dos biocombustíveis e reduzir a dependência de derivados fósseis. A discussão não deve ser reduzida à eventual queda ou alta de preços. Tampouco apenas ao prisma ambiental. O ponto central é que, em momentos de estresse global, o etanol deixa de ser apenas mais uma opção de combustível e desempenha papel estratégico na redução da vulnerabilidade externa do país. Foi assim durante o primeiro choque do petróleo. E pode voltar a ser agora.
Isso não significa que o etanol seja uma solução perfeita ou que garanta, por si só, combustível mais barato na bomba. Os preços seguem influenciados por fatores como a cotação do petróleo, o câmbio, as condições climáticas, a logística e a dinâmica de mercado. O que muda é a capacidade de o biocombustível amortecer parte dos choques externos.
Por isso, o debate sobre combustíveis no Brasil não deveria ser reduzido à escolha entre controlar preços ou deixar o mercado agir sozinho em períodos eleitorais. A verdadeira discussão é como construir um ambiente com mais concorrência, previsibilidade e diversificação energética, capaz de reduzir a exposição da economia brasileira às turbulências internacionais. Segurança energética não é apenas uma questão de abastecimento. É também uma questão de estabilidade econômica. Em um cenário de petróleo volátil e de tensões geopolíticas, a pergunta mais relevante não é quanto custará o combustível amanhã, mas qual matriz energética tornará o Brasil menos vulnerável depois de amanhã.
*Pedro Henrique Pontes é economista e professor do Centro Universitário Internacional – Uninter.





