O Brasil tem uma arma secreta contra choques petrolíferos

Os biocombustíveis ajudarão o País a se defender dos efeitos do conflito no Oriente Médio.

Poucos países estavam preparados para o choque do petróleo causado por Israel e pela guerra dos Estados Unidos com o Irã. O Brasil estava. Durante o último meio século, o gigante agrícola construiu a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo. É o segundo maior produtor de etanol, um álcool que pode ser usado para abastecer carros, e o terceiro maior de biodiesel, que abastece veículos pesados.

Eles são misturados à gasolina e ao diesel, com misturas obrigatórias por lei de 30% e 15%, respectivamente, entre as mais altas do mundo. Três quartos dos veículos leves brasileiros têm tecnologia que lhes permite queimar desde gasolina pura até o etanol 100% fornecido pelas onipresentes bombas de álcool nos postos.

Isso reduz a dependência do Brasil em relação aos combustíveis fósseis estrangeiros e protege contra mercados inflacionados. O preço da gasolina nos postos de combustível brasileiros subiu 10% desde o início da guerra, e o do diesel, 20%, segundo dados divulgados em 20 de março pela agência reguladora de energia.

É um aumento considerável, mas bem menor do que os impressionantes 30% a 40% registrados nos Estados Unidos. As tarifas sobre combustíveis no Brasil são relativamente baixas, mais próximas das dos Estados Unidos do que das altas taxas europeias.

Isso significa que grandes aumentos no preço do petróleo deveriam levar a grandes aumentos nos custos para os consumidores. Um dos motivos pelos quais isso não aconteceu é a cautela da Petrobras, a estatal petrolífera que refina a maior parte do combustível brasileiro e tem tentado absorver os custos adicionais. Mas a competitividade da bioenergia brasileira também está contribuindo para isso, afirma Lucas Boacnin, da Argus Media, agência especializada em preços de commodities.

Os dados da Argus mostram que o custo médio do biodiesel caiu abaixo do preço do diesel importado pela primeira vez desde 2023. Os preços do etanol no varejo subiram apenas 2%. O governo estaria considerando aumentar a participação do etanol na gasolina para 32% e conceder isenção fiscal ao biodiesel.

Também foi lançado um estudo de três anos para avaliar a viabilidade técnica de aumentar permanentemente as proporções da mistura para 35% de etanol e 25% de biodiesel. A cidade de Passo Fundo, na região Sul do País, está realizando testes com um novo biocombustível para substituir o diesel em seus veículos municipais.

Esta não é a primeira vez que o biocombustível protege o Brasil, afirma Evandro Gussi, da Unica, associação comercial do setor de etanol de cana-de-açúcar. A ideia original era proteger a independência energética. A ditadura militar criou o primeiro programa, o Proálcool, após a crise do petróleo de 1973. Naquela época, o Brasil importava 80% do seu combustível; o embargo árabe estava prejudicando a economia. Processar o excedente de caldo de cana para produzir etanol era uma solução óbvia.

Uma década depois, 96% dos carros novos vendidos funcionavam com etanol. Com o lançamento dos primeiros carros “flex” em 2003, o governo criou um plano paralelo para promover o biodiesel derivado de sementes, principalmente de soja.

Ambos os programas se beneficiaram de um sólido apoio presidencial. Mas poucos abraçaram os biocombustíveis com tanta veemência quanto Luiz Inácio Lula da Silva, o atual presidente do Brasil. Lula, como é conhecido, vê os biocombustíveis como a solução para dois problemas.

Primeiro, eles fortalecem a soberania de um país que, apesar de ser um dos maiores exportadores mundiais de petróleo bruto, ainda importa 10% da sua gasolina e 25% do seu diesel. Segundo, os biocombustíveis permitem que o Brasil reduza suas emissões de gases de efeito estufa sem alienar seus agricultores, que cultivam as matérias-primas para a produção de biocombustíveis.

Os biocombustíveis não conseguem eliminar os custos impostos pela alta dos preços do petróleo. Se o etanol ficar mais barato que a gasolina e os brasileiros começarem a consumi-lo mais, o preço do etanol poderá subir. Os altos preços do gás natural levam a altos preços dos fertilizantes, o que também pode prejudicar os biocombustíveis.

Mas os produtores de biocombustíveis têm muito a ganhar com o caos no Oriente Médio, afirma Mário Campos, da associação Bioenergia Brasil. A sazonalidade inerente ao setor está a seu favor. A colheita da soja começa em janeiro, enquanto a da cana-de-açúcar e do milho começa em abril e maio. Isso significa que a oferta de biodiesel e etanol em breve se expandirá drasticamente, reduzindo os preços. Espera-se que as colheitas produzam safras recordes, aliviando os preços.

Outros países já perceberam isso. A Índia e o Japão estão trabalhando para equipar os tanques de combustível de seus cidadãos com a expertise brasileira (The Economist)

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