Por Pedro Côrtes
Negociadores precisam mostrar onde a tarifa prejudica interesses dos próprios Estados Unidos e quais concessões recíprocas podem reduzir esses danos.
Retórica eleitoral dominará debate, mas eventuais concessões dependerão de negociações técnicas e articulações entre setores dos dois países.
A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos alcançará cerca de US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O valor corresponde a 18% das vendas ao mercado norte-americano, tomando 2024 como referência. Madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar estão entre os grupos mais atingidos. O impacto ameaça empresas, empregos e regiões dependentes daquele mercado.
O conflito será conduzido em duas arenas.
A primeira é ideológica e já foi incorporada à campanha presidencial. Governo e oposição disputam a responsabilidade pela crise e utilizam o episódio para discutir soberania, alinhamento internacional e interferência externa.
Nos Estados Unidos, a agenda America First também dá conteúdo político às críticas dirigidas ao Pix, às plataformas digitais, às decisões judiciais e às políticas ambientais brasileiras.
Para os integrantes do governo federal, será necessário impedir que a linguagem eleitoral determine o tom da negociação. Pronunciamentos destinados ao público interno podem reduzir a margem de manobra de diplomatas e técnicos.
A negociação comercial precisa buscar outro resultado: retirar produtos da lista tarifária, preservar contratos e reduzir prejuízos.
A via técnica parece ser a única realmente disponível. E o aviso final do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) mostra como essa estratégia pode funcionar.
O órgão recebeu mais de 360 manifestações escritas e ouviu 77 testemunhas. Parte delas demonstrou que determinadas tarifas provocariam falta de insumos, elevação de custos ou desorganização de cadeias produtivas nos próprios Estados Unidos.
O processo ajudou a preservar mais de 1.600 códigos tarifários. As exceções decorreram da constatação de que a cobrança também prejudicaria empresas e consumidores norte-americanos.
Essa é a principal abertura disponível.
O Brasil precisa organizar a negociação por setores e produtos. Cada cadeia deverá identificar seus importadores, demonstrar a dificuldade de substituir a oferta brasileira e calcular os efeitos da tarifa sobre custos, preços, contratos e empregos nos Estados Unidos.
A pressão mais eficaz poderá vir de fabricantes, distribuidores e associações empresariais norte-americanas. São esses agentes que conseguem mostrar a Washington como a tarifa transfere custos para sua própria economia.
Há espaço para compromissos específicos.
No setor sucroenergético, o interesse dos Estados Unidos em ampliar as vendas de etanol ao Brasil pode ser associado à abertura de seu mercado ao açúcar brasileiro.
No comércio digital, é possível discutir transparência e previsibilidade regulatória sem enfraquecer o Pix.
Na pauta ambiental, rastreabilidade e comprovação de origem legal podem proteger exportadores regulares.
Porém, existem limites institucionais. Decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) não podem ser oferecidas como contrapartidas comerciais.
A reciprocidade, entendida como resposta de força equivalente, não constitui uma alternativa realista. A diferença de tamanho, poder econômico e capacidade de retaliação entre Brasil e Estados Unidos torna uma escalada comercial muito mais onerosa para o lado brasileiro.
Em vez de buscar uma simetria inexistente, o país deve concentrar sua estratégia na negociação técnica, na mobilização das empresas norte-americanas afetadas e na construção de concessões setoriais capazes de produzir resultados concretos.
Há posições ideológicas no governo norte-americano que dificilmente serão alteradas por argumentos brasileiros. Entrar nessa seara seria inócuo.
Os negociadores precisam mostrar onde a tarifa prejudica interesses dos próprios Estados Unidos e quais concessões recíprocas podem reduzir esses danos.
O palanque continuará procurando culpados. A mesa técnica deverá identificar interesses comuns e prejuízos compartilhados.
É nesse terreno menos ruidoso que o Brasil poderá ampliar as exceções e começar a desmontar o tarifaço (Pedro Côrtes é
professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país)






