Recuperação judicial no agro cresceu 66% em um ano no país

Segundo Monitor RGF-Bizdoc, que inclui agora microprodutores, eram 1.263 processos ao fim do primeiro semestre de 2026.

O quadro de endividamento de produtores e empresas do agronegócio continua piorando no Brasil e tudo indica que vai se agravar em 2027. A conclusão é do mais recente “Monitor RGF-Bizdoc”, levantamento feito pelas consultorias RGF e Bizdoc, de reestruturação organizacional, que acompanha a evolução das recuperações judiciais no país.

De acordo com o documento, o agronegócio é “o epicentro do ciclo de insolvência” no Brasil, com 1.263 CNPJs de agricultores em recuperação judicial ao fim do primeiro semestre deste ano. O número é 21,4% maior que o registrado no encerramento de 2025 e 66% superior ao “estoque” de recuperações judiciais no setor no fim do primeiro semestre do ano passado. Também é muito superior ao estoque de 539 recuperações reportadas no levantamento do primeiro trimestre, pois passou a incluir os microempreendedores rurais.

Na chamada “porteira para dentro”, ou seja, das fazendas, a cadeia da soja é a que registra mais casos. Eram 589 produtores em recuperação judicial ao fim do primeiro semestre, pouco menos da metade do total, 26,7% acima do fim de 2025 e quase o dobro de um ano antes. Só no primeiro semestre, 124 sojicultores entraram em recuperação, após duas safras vendidas abaixo do custo, dívidas acumuladas e ausência de lucro no ciclo 2025/26 para amortizar débitos, segundo Damasceno.

Mas o levantamento identificou acréscimos em praticamente todas as cadeias produtivas. Foram 19 recuperações judiciais no semestre na pecuária de corte, segunda cadeia do ranking do setor. Entre as que registraram maior crescimento de recuperações judiciais no primeiro semestre, destacam-se a de arroz (+53,8% em relação a dezembro de 2025), milho (+45,2%) e café (+44,4%). No período, as recuperações judiciais de produtores de leite aumentou 257%, para 50.

“As causas [das dificuldades] são diferentes para cada cultura, mas há uma regra padrão: o que estamos colhendo resulta de algo que aconteceu seis meses, um ano ou até dois anos antes”, diz o coordenador do Monitor.

As recuperações judiciais dos produtores já contagiam os três elos da “porteira para fora”, ou seja, os segmentos que giram em torno da produção, como os de insumos, agroindústria e comercialização. Com exceção da indústria de suínos e aves e de moagem de trigo, houve aumento de casos em todos os segmentos — atacado de insumos, rações, máquinas agrícolas, usinas, laticínios, frigoríficos de bovinos, comercialização de grãos e café. No topo estão as revendas de fertilizantes e defensivos, com 48 processos, seguidas por fábricas de rações (24) e concessionárias de máquinas agrícolas (17).

No recorte regional, Sul, puxado pelo Rio Grande do Sul, e Centro-Oeste, com impulso de Mato Grosso, contabilizam mais recuperações, 392 e 391, respectivamente. Mato Grosso é o Estado com mais produtores na situação no país, 196 CNPJs, seguido do Rio Grande do Sul com 194.

Recorte

O levantamento traz outro dado preocupante para o agro nacional: o crescimento mais acentuado das recuperações judiciais entre produtores de micro e pequeno porte — que atuam com CNPJ ou como pessoa física. De 874 em recuperação judicial ativa, 54% são microempresários, 26% pequenos e 20% médios. Desde o primeiro trimestre de 2023, o estoque de recuperações de microempresas do setor cresceu dez vezes e de pequenas, quase nove vezes.

Damasceno avalia que houve uma popularização da recuperação judicial. “O pequeno e médio produtor que antes tentava pagar a dívida passou a ser estimulado a buscar recuperação judicial, porque ela protege o patrimônio”.

Olhando para o futuro, o especialista diz que “o pior dos pedidos de recuperação judicial ainda está por vir”, no segundo semestre de 2026 e em 2027, refletindo margens de lucro apertadas nas safras 2024/25 e 2025/26.

A navegação comprometida no Estreito de Ormuz, com o conflito no Oriente Médio, região de onde sai boa parte dos fertilizantes, é mais um complicador, ao elevar os custos para produzir a safra. Fatores de alívio, como o esperado recuo gradual da Selic, a exclusão de setores estressados, como carne bovina, café e açúcar, das tarifas dos Estados Unidos, só devem se refletir entre 2027 e 2028.

Há ainda perspectiva de contínua transferência do risco dos produtores para as revendas de insumos, comercializadoras de grãos e o mercado de capitais, tendo em vista que, com crédito bancário mais restritivo, agricultores buscam financiar a safra com esses agentes. “Há várias nuances possíveis, nenhuma na direção da paz”, afirma Cláudio Damasceno (Globo Rural)

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