Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos:
Os mercados começaram esta terça-feira, 28 de julho, divididos entre o alívio provisório vindo do Oriente Médio e uma correção brutal no setor de tecnologia. A suspensão dos ataques entre Estados Unidos e Irã abriu espaço para negociações mediadas por Omã sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde historicamente circula cerca de um quinto do petróleo mundial. O Brent recuava aproximadamente 2,9%, para US$ 85,83, enquanto o WTI caía 2,4%, para US$ 80,63. A guerra ainda não terminou, mas o barril já entendeu que diplomacia também altera fluxo de caixa.
A queda do petróleo reduz a pressão imediata sobre a inflação global, derruba parte do prêmio de risco embutido nos juros e favorece ativos sensíveis ao custo de energia. Os rendimentos dos títulos americanos recuaram pela terceira sessão consecutiva, com a Treasury de dez anos orbitando 4,61%, enquanto o mercado se prepara para a decisão do Federal Reserve e tenta calcular se a trégua será suficiente para impedir uma nova elevação dos juros. Petróleo mais barato ajuda o Fed, mas uma pausa militar não é ainda uma âncora monetária.
Nos Estados Unidos, o início da reunião do Federal Reserve divide espaço com o índice de confiança do consumidor e uma bateria de balanços corporativos. O mercado ainda atribui probabilidade relevante a uma alta de juros em setembro, especialmente porque inflação, petróleo e política fiscal continuam produzindo sinais contraditórios. Ao mesmo tempo, Donald Trump pressiona publicamente por juros menores, enquanto o banco central tenta preservar a independência necessária para eventualmente elevá-los. Quando o presidente pede desconto e o Fed apresenta a conta, Wall Street chama de volatilidade o que qualquer família chamaria de discussão doméstica.
O grande choque do dia, entretanto, veio da Ásia. O Kospi despencou 10,84%, com Samsung Electronics e SK Hynix caindo cerca de 14%, em uma liquidação provocada pelo avanço tecnológico da China e pelo receio de que a euforia em torno da inteligência artificial tenha cobrado antecipadamente lucros que ainda levarão anos para chegar. A estreia da chinesa CXMT, com valorização de 466% no primeiro pregão, e os relatos de progressos chineses na produção de equipamentos de litografia abalaram a tese de supremacia permanente das fabricantes ocidentais. Quando um excelente resultado deixa de sustentar uma ação, o problema raramente está no balanço; costuma estar no preço pago pela fantasia.
A correção dos semicondutores mostra por que concentração temática pode parecer inteligência durante a alta e imprudência assim que o mercado muda de assunto. Samsung e SK Hynix representam mais da metade do peso do índice sul-coreano, transformando a queda de duas companhias em um evento de mercado nacional. O Kospi acumula perda próxima de 29% em julho, enquanto investidores estrangeiros retiraram cerca de 5 trilhões de won em uma única sessão. Diversificação não serve para impedir perdas; serve para evitar que uma única convicção se transforme em inventário de arrependimentos.
No Brasil, o centro das atenções é o IPCA-15 de julho, para o qual o consenso projetava alta próxima de 0,22%, enquanto a XP estimava 0,26%. A diferença estava concentrada principalmente nas passagens aéreas, que poderiam subir cerca de 18%, enquanto alimentação no domicílio deveria recuar 0,87%, beneficiada pela queda de produtos in natura e carnes. Mais importante que o índice cheio será a leitura dos núcleos e dos serviços subjacentes, pois é ali que o Banco Central procura saber se a inflação apenas descansou ou realmente começou a obedecer.
Uma leitura mais benigna do IPCA-15 fortaleceria a expectativa de corte de 0,25 ponto percentual na Selic, mas o mercado ainda precisa separar desinflação estrutural de alívio provocado por alimentos e petróleo. O IPCA oficial de junho avançou apenas 0,16%, reduzindo a inflação acumulada em doze meses para 4,64%, embora o Focus ainda projete 5,12% para o encerramento de 2026. A inflação brasileira melhorou na fotografia, mas continua chegando atrasada ao compromisso com a meta.
As contas externas trouxeram uma leitura mais construtiva. O Investimento Direto no País somou US$ 9,075 bilhões em junho e alcançou US$ 89,319 bilhões em doze meses, equivalentes a 3,58% do PIB. No mesmo período, o déficit em transações correntes ficou em US$ 61,350 bilhões, ou 2,46% do PIB, indicando que o ingresso de capital produtivo permanece suficiente para financiar o desequilíbrio externo. O estrangeiro pode retirar R$ 1,233 bilhão da B3 em um dia e ainda manter entrada líquida de R$ 36,249 bilhões no ano, porque capital financeiro muda de ideia; investimento direto precisa primeiro construir a fábrica.






