Por Daniel Miquelluti, especialista em seguros agrícolas e gestão de riscos climáticos e cofundador e Head de Novos Mercados da Picsel, deeptech em inteligência de riscos no agronegócio*
Por muito tempo, o risco climático no agronegócio foi tratado como um problema de regionalizado e ligado apenas a produtividade. Chuva em excesso, seca prolongada ou geada fora de época eram vistas como questões da lavoura, resolvidas com manejo agronômico e seguro contra perdas. Essa visão está ultrapassada. O clima se tornou uma variável financeira que afeta diretamente o fluxo de caixa dos produtores, o acesso ao crédito rural, o preço do seguro e a capacidade de investimento de toda a cadeia do agronegócio, da cooperativa ao banco, da trading à seguradora. Continuar tratando o tema apenas sob a ótica produtiva significa ignorar uma parte crescente dos riscos que influenciam o setor.
Os números mais recentes confirmam essa mudança de patamar. Segundo a análise do Agro Score, desenvolvido pela Serasa Experian, a pontuação média dos produtores rurais recuou de 616 para 600 pontos entre o último trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025. A inadimplência da população rural chegou a 8,2% no período, com produtores enfrentando margens mais apertadas e fluxo de caixa pressionado diante de custos elevados, preços voláteis e crédito mais seletivo. Esse cenário reforça que a discussão sobre risco climático ultrapassa a produção agrícola.
O caso do Rio Grande do Sul ajuda a ilustrar essa dinâmica. O estado teve a menor taxa de inadimplência do país, 5,3%, mesmo depois de enfrentar perdas climáticas relevantes nos últimos anos. Esse resultado não é coincidência. Ele está relacionado à forte presença de cooperativas e sistemas integrados na região, além do uso mais expressivo do seguro agrícola/proagro e de linhas de crédito voltadas à renegociação de dívidas. Em outras palavras, onde existe estrutura de proteção financeira bem construída, o impacto do clima sobre a saúde financeira do produtor é menor, mesmo quando o evento climático é severo.
Esse exemplo revela algo importante: a proteção financeira eficaz contra o risco climático acontece antes da perda, não depois dela. O produtor que conhece, com razoável precisão, sua exposição ao clima e gerencia esse risco tem mais poder de negociação no crédito, mais segurança para investimentos e menos chance de transformar uma safra ruim em uma dívida que se arrasta por anos. Mais do que uma ferramenta de proteção, a previsibilidade é um ativo financeiro para o agronegócio.
Em momentos de crise muitas das soluções existentes precisam evoluir para atender novas demandas e necessidades. Na gestão do risco climático não é diferente. Hoje, modelos mais avançados de análise permitem simular cenários, antecipar impactos financeiros e oferecer instrumentos de proteção mais ajustados à realidade de cada produtor e empresas. Isso beneficia diretamente quem está na ponta e, também, fortalece todo o sistema financeiro e segurador que apoia o agronegócio, já que aumenta a transparência e eficácia desses instrumentos, além de reduzir assimetrias de informação.
O problema é que grande parte do setor ainda mede esse risco de forma genérica, sem considerar particularidades de solo, histórico climático local, tipo de cultura e momento do ciclo produtivo. Essa imprecisão tem custo. Ela aparece em prêmios de seguro mal calibrados, em linhas de crédito que não consideram a real exposição do produtor e em decisões de investimento tomadas sem informação suficiente. Quando o risco é mal compreendido, ele deixa de ser um problema isolado e passa a se espalhar pela cadeia, afetando seguradoras, resseguradoras, bancos e cooperativas que dependem da saúde financeira do produtor rural. Na prática, isso aumenta ineficiências em toda a cadeia.
O agronegócio brasileiro continuará exposto a eventos climáticos cada vez mais frequentes e menos previsíveis. Diante desse contexto, ampliar a capacidade de mensurar, monitorar e proteger exposições climáticas deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade estratégica. O que pode e deve mudar é a forma como o setor se prepara para essa exposição. Tratar o risco climático como parte da estratégia financeira, e não apenas como um detalhe operacional da lavoura, é o que vai diferenciar produtores, cooperativas e instituições que conseguem crescer com solidez daqueles que ficam vulneráveis a cada nova safra incerta. Mais do que indenizar perdas, a agenda de gestão de risco climático deve criar condições para que toda a cadeia opere com mais previsibilidade, resiliência e capacidade de planejamento.





