Por Paulo Gonçalves, produtor de cacau e fundador da Espírito Cacau
Depois de dois anos marcados por forte volatilidade no mercado internacional, o setor cacaueiro entra em um novo ciclo. A expectativa para a próxima safra brasileira é positiva, impulsionada pela recuperação gradual da oferta mundial, pela adoção de tecnologias no campo, pelo crescimento do cultivo em novas regiões produtoras e, principalmente, pela valorização crescente do cacau de qualidade.
Embora os preços internacionais tenham perdido parte dos recordes registrados em 2024 e 2025, o mercado continua operando em patamares elevados quando comparados à média dos últimos anos. Isso demonstra que o cacau deixou de ser apenas uma commodity agrícola para assumir um papel estratégico dentro da indústria de alimentos, impulsionado por consumidores cada vez mais atentos à origem, à qualidade e à sustentabilidade dos produtos.
Segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO), o mercado global caminha para um cenário de maior equilíbrio entre oferta e demanda em 2026, após os déficits provocados por problemas climáticos nas principais regiões produtoras da África Ocidental. A previsão é de um pequeno superávit mundial, resultado da recuperação das lavouras e do aumento da produção em diversos países.
Para o Brasil, esse cenário representa uma excelente oportunidade, pois temos diversidade de terroirs, crescimento da produção na Bahia, Pará e Espírito Santo, investimentos em pesquisa, sistemas agroflorestais e uma cadeia produtiva que vem se profissionalizando rapidamente.
Mais do que aumentar volume, nosso grande desafio é ampliar a produtividade e qualidade. O mercado internacional está disposto a pagar mais por amêndoas especiais, produzidas com rastreabilidade, fermentação adequada e práticas sustentáveis e é nesse segmento que o Brasil pode se diferenciar dos grandes produtores mundiais.
Outro movimento que merece atenção é o crescimento da indústria nacional de chocolates premium e do modelo tree to bar, no qual o controle da qualidade acontece desde o cultivo até o produto final. Essa aproximação entre produtor e indústria fortalece toda a cadeia, gera maior valor agregado e cria oportunidades para pequenos e médios produtores.
Além das perspectivas da safra, 2026 ficará marcado por uma transformação histórica para o mercado brasileiro: a entrada em vigor da nova Lei do Chocolate (Lei nº 15.404/2026) que, pela primeira vez, estabelece critérios claros para definir o que pode ser comercializado como chocolate no país. A legislação determina que o produto deverá conter, no mínimo, 35% de sólidos totais de cacau, limita o uso de outras gorduras vegetais e torna obrigatória a informação do percentual de cacau nos rótulos, oferecendo mais transparência ao consumidor.
Essa mudança representa muito mais do que uma alteração regulatória. Trata-se de um avanço estrutural para toda a cadeia produtiva, pois a nova legislação cria parâmetros objetivos, valoriza quem investe em matéria-prima de qualidade e reduz distorções de mercado, aproximando o Brasil dos padrões internacionais.
Na prática, essa transformação tende a estimular uma demanda maior por cacau de qualidade, incentivando investimentos nas propriedades rurais, na indústria processadora e nas marcas que apostam em chocolates com maior teor de cacau.
Assim como aconteceu com cafés especiais, azeites e vinhos, o chocolate passa a entrar em uma nova etapa de consumo consciente. Informações como percentual de cacau, origem das amêndoas e métodos de produção deixam de ser diferenciais para se tornar critérios relevantes na decisão de compra.
Essa adaptação exigirá investimentos por parte da indústria. Reformulações de produtos, adequação de rótulos e revisão de processos produtivos serão necessárias. Porém, no médio e longo prazo, os ganhos de credibilidade, transparência e valorização do mercado tendem a superar esses desafios.
Somos um dos poucos países que conseguem integrar produção agrícola, processamento industrial e fabricação de chocolates de alta qualidade dentro de uma mesma cadeia produtiva. Se conseguirmos combinar produtividade, sustentabilidade, inovação e qualidade, a próxima safra poderá representar muito mais do que bons resultados no campo. Poderá consolidar um novo posicionamento do cacau brasileiro no cenário internacional, fortalecendo nossa competitividade e criando uma indústria mais transparente, sofisticada e preparada para atender um consumidor cada vez mais exigente.
Paulo Gonçalves é produtor de cacau em Linhares no Espírito Santo e fundador da Espírito Cacau, indústria brasileira especializada na produção de chocolates premium com cacau de origem.






