Por Celso Moretti
Mais do que superar os EUA nas exportações, o Brasil precisa transformar escala produtiva em inovação, valor agregado e influência geopolítica.
O Brasil poderá encerrar 2026 como o maior exportador agrícola do mundo, superando os Estados Unidos. A possibilidade, destacada recentemente pelo Financial Times, merece ser celebrada. Mas o País cometerá um erro se tratar a liderança como simples troféu estatístico. Chegar ao topo é importante; permanecer nele e converter escala produtiva em desenvolvimento, inovação e influência internacional é o verdadeiro desafio.
Em 2025, os Estados Unidos exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas, ante US$ 169,2 bilhões do Brasil. A diferença, que alcançava US$ 56 bilhões em 2021, caiu para cerca de US$ 2 bilhões — apenas 1,2%. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras do setor cresceram 6% e atingiram o recorde de US$ 87 bilhões. Mantida essa trajetória, a ultrapassagem poderá ocorrer ainda este ano.
Comparações internacionais exigem cautela. Os resultados variam conforme a classificação dos produtos agrícolas e agroindustriais, a metodologia adotada e o período analisado. Além disso, o cenário comercial tornou-se mais volátil. Duas medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos, ambas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, atingem 23,1% das exportações brasileiras para aquele mercado. Em 16,5% dos embarques, as sobretaxas acumuladas chegam a 37,5%.
O impacto, porém, não é uniforme. O açúcar está sujeito à tarifa adicional de 25%, enquanto produtos importantes da pauta do agro, como café, carnes, suco de laranja, frutas e a maior parte da celulose, foram excluídos das novas sobretaxas. Ainda assim, a escalada protecionista acrescenta incerteza às relações comerciais e reforça a necessidade de diversificação. Não altera, contudo, a tendência estrutural: a vantagem histórica dos Estados Unidos está desaparecendo, enquanto o Brasil amplia sua participação no abastecimento mundial.
Essa transformação não decorre apenas da disponibilidade de terra, água e clima. A explicação baseada nas vantagens naturais é insuficiente e desconsidera o esforço realizado nas últimas cinco décadas. O País construiu sua competitividade com ciência, inovação e empreendedorismo. A correção dos solos do Cerrado, a genética adaptada aos trópicos, o plantio direto, a fixação biológica de nitrogênio, a intensificação sustentável e a possibilidade de colher duas ou até três safras por ano mudaram a geografia mundial da produção de alimentos.
A pesquisa agropecuária, liderada pela Embrapa e complementada por universidades, organizações estaduais, fundações e empresas privadas, forneceu a base tecnológica dessa revolução. O produtor rural incorporou as inovações, assumiu riscos e desenvolveu sistemas produtivos altamente eficientes. A competitividade brasileira não foi recebida da natureza. Foi construída.
A geopolítica acelerou esse processo. A guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos contra a China, em 2018, levou Pequim a reduzir as compras de produtos agrícolas americanos e a ampliar sua relação com o Brasil. Em 2016, os chineses importavam volumes semelhantes de soja dos dois países. Em 2025, adquiriram mais de 80 milhões de toneladas do Brasil, enquanto os embarques dos Estados Unidos permaneceram abaixo de 10 milhões.
Seria equivocado, entretanto, atribuir a ascensão brasileira apenas aos erros de Washington. As tarifas aceleraram uma mudança estrutural que já estava em curso. O Brasil consolidou a liderança nas exportações de soja, açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e carne de frango. Também ultrapassou os Estados Unidos no algodão e reduziu a distância em outros mercados relevantes.
Entre as principais commodities, o milho ainda é uma exceção. Os Estados Unidos permanecem à frente do Brasil, mas sua participação no comércio mundial do cereal caiu de 68% para cerca de 30% nas últimas duas décadas. A perda de espaço não é episódica. Reflete o avanço de novos competidores e a reconfiguração dos fluxos globais de alimentos.
A provável liderança brasileira, porém, não deve encobrir fragilidades. Os custos de produção continuam comprimindo as margens, sobretudo diante da alta dos fertilizantes provocada pelas tensões no Oriente Médio. O crédito permanece caro, a cobertura do seguro rural é insuficiente e persistem déficits de armazenagem, gargalos logísticos e insegurança regulatória. O endividamento de parte dos produtores já atingiu níveis preocupantes.
A dependência externa de fertilizantes agrava o quadro. Em um ambiente marcado por conflitos, sanções econômicas e instabilidade nas rotas marítimas, importar a maior parte dos nutrientes utilizados nas lavouras representa uma vulnerabilidade produtiva, econômica e geopolítica.
Há também excessiva concentração em poucos produtos e destinos. A China foi decisiva para a expansão das exportações, mas dependência comercial não é estratégia. O País precisa ampliar sua presença na Ásia, na África, no Oriente Médio e na Europa, remover barreiras sanitárias e transformar acordos internacionais em acesso efetivo aos mercados.
O próximo salto terá de ocorrer do volume para o valor. Não basta exportar quantidades crescentes de soja, milho, algodão e carnes. É necessário processar uma parcela maior da produção e ampliar as vendas de ingredientes, alimentos diferenciados, biocombustíveis, biomateriais e produtos da bioeconomia. O Brasil também precisa exportar genética, máquinas, tecnologias digitais e conhecimento em agricultura tropical. Uma liderança baseada apenas em toneladas será sempre mais vulnerável do que aquela sustentada por tecnologia e valor agregado.
A sustentabilidade ocupará posição central nessa disputa. Rastreabilidade, comprovação de origem e redução de emissões estão deixando de ser atributos voluntários para se tornar requisitos comerciais. Combater o desmatamento ilegal e demonstrar, com dados confiáveis, a sustentabilidade da produção são condições para preservar mercados, reduzir riscos reputacionais e agregar valor. O Brasil dispõe de tecnologias de agricultura de baixo carbono, respaldadas por políticas públicas como o Plano ABC+, e de milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser recuperadas. Precisa converter essas vantagens em competitividade e reputação.
Superar os Estados Unidos será um marco histórico. Permanecer na liderança exigirá uma estratégia de Estado, com investimentos contínuos em ciência, infraestrutura, defesa agropecuária, segurança de insumos, diplomacia comercial e estabilidade regulatória.
O Brasil já provou que sabe produzir com eficiência nos trópicos. Agora precisa demonstrar que é capaz de transformar protagonismo agrícola em inovação, renda e influência geopolítica. Mais importante do que liderar o ranking mundial será usar essa posição para construir um projeto de país (Celso Moretti é engenheiro agrônomo e ex-presidente da Embrapa; Estadão)




