Feira quer repetir performance de 2025, mas cenário é desfavorável a novos investimentos.
Está será a mais desafiadora Agrishow dos últimos anos. A definição é de Fernando Capra, CEO da Baldan, uma das empresas fundadoras da maior feira de tecnologia da América Latina, junto com Marchesan, Jacto e Jumil, e resume a expectativa das grandes indústrias de equipamentos em relação à feira de Ribeirão Preto (SP), que chega à sua 31ª edição neste ano.
Com cenário de juros altos, câmbio desfavorável, aumento de insumos – especialmente fertilizantes, energia e combustíveis – e incertezas geradas pela guerra no Oriente Médio, o produtor tem cada vez mais segurado investimentos. A expectativa é de queda na venda de máquinas agrícolas pelo quinto ano consecutivo.
“Aspirar crescimento em um mercado como esse é um pouco audacioso demais. Nossa meta é repetir a performance de vendas do ano passado”, diz Capra, acrescentando que a empresa vai levar lançamentos como o pulverizador Avola de 3.000 litros, desenvolvido para o setor canavieiro, e um pacote de opções financeiras para o produtor.
Nem mesmo o presidente de honra da Agrishow, o empresário do setor sucroalcooleiro Maurílio Biagi, arriscou uma previsão para a feira que começa nesta segunda-feira (27) e segue até sexta (1o). No ano passado, a Agrishow fechou com R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios, alta de 7%, repetindo a trajetória de crescimento anual. Mas a última grande feira do setor deste ano, a Tecnoshow Comigo, que ocorreu de 6 a 10 de abril em Rio Verde (GO), terminou com queda de 30% nas vendas.
João Carlos Marchesan, presidente da Agrishow e diretor da Tatu Marchesan, de máquinas agrícolas, diz que, embora a inadimplência dos produtores e as recuperações judiciais tenham aumentado, a preocupação principal é a Selic. “Temos uma supersafra com produtividade alta, o clima ajudou, mas a taxa de juros é totalmente desfavorável a investimentos”, afirma. Mesmo assim, Marchesan diz estar otimista e vai levar à feira lançamentos e soluções financeiras. “Mas, com esse cenário, não dá para estimar que haverá aumento de negócios. Como é uma feira de tecnologias, a venda é uma consequência.”
Kellen Bormann, diretora de vendas da Massey Ferguson, empresa do grupo AGCO junto com Valtra e Fendt, avalia que o cenário traz desafios macroeconômicos, mas afirma que a expectativa é positiva, baseada na busca do produtor por mais produtividade com redução de custos.
Avaliação semelhante em relação à feira tem a CNH, dona das marcas Case IH e New Holland, que teve queda de 9% nas vendas globais em 2025 e projeta redução de cerca de 5% neste ano. Paulo Arabian, vice-presidente de vendas para América Latina, diz que a Agrishow é a maior vitrine da América Latina e uma ótima oportunidade para apresentar o portfólio e soluções das marcas CNH.
Ele destaca que a indústria trabalha, por exemplo, com soluções em combustíveis alternativos, o que inclui máquinas movidas a biometano, etanol e eletricidade. “Não se trata mais de uma visão futura, mas de tecnologias reais, em diferentes estágios de maturidade e adoção”, afirma, destacando um motor a etanol em fase de testes desenvolvido em parceria com a FPT Industrial.
A Jacto vai iniciar a venda do JAV 4000, pulverizador autônomo que parte de R$ 1,7 milhão, desenvolvido junto com a Citrosuco. A máquina percorre sozinha a lavoura e faz aplicação no pomar. Outra novidade será a comercialização de sua primeira colhedora de cana de duas linhas.
Quem espera resultados melhores é o setor de irrigação. Michele Silva, diretora de marketing e estratégia de mercado da Netafim, líder nacional em irrigação por gotejamento, diz que, mesmo diante de um cenário de crédito mais restrito, o produtor está mais estratégico e consciente do papel da irrigação na proteção da produtividade.
O Santander, que gerou R$ 1,4 bilhão em negócios na edição 2025 da Agrishow, espera um aumento na demanda por crédito, segundo Carlos Aguiar, diretor de agronegócios do banco. Com uma carteira total de agronegócios de cerca de R$ 100 bilhões, a instituição vai oferecer linhas com prazos e condições ajustados ao ciclo produtivo.
Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar do Banco do Brasil, diz que espera acolher R$ 3 bilhões em propostas de financiamento. “O produtor está mais cauteloso, e isso é saudável. O BB não chega à Agrishow para estimular investimento a qualquer custo, mas sim para financiar projetos que tragam mais renda, eficiência e redução de riscos”, diz.
Mesmo com as incertezas, não houve desistência de expositores ou redução de estandes neste ano. Ao contrário, segundo os organizadores, uma reestruturação do espaço físico da feira, que ocupa 520 mil m2, permitiu abrir espaço paralelo à antiga pista de pouso para uma nova área de exposição que irá receber a estreia de cerca de cem novas empresas, como Heli Brasil, Zoomlion, Foton, Tritucap, TopxBrasil Drones, YTO Tratores , Vallor Teck, Caldema, Deutz e RHK Implementos (Globo Rural)




