Por Marcello Brito
O IPS Brasil 2026 expõe uma contradição que o País não pode continuar ignorando: nunca o Brasil gerou tanta riqueza primária e raramente converteu tão pouco dela em desenvolvimento institucional duradouro
Existe uma contradição no coração do modelo brasileiro que os números macroeconômicos escondem com eficiência, mas que o Índice de Progresso Social 2026 expõe com perturbadora clareza.
O Brasil se tornou, nas últimas duas décadas, uma das maiores potências agrícolas da história moderna. Dominou a genética tropical. Desenvolveu tecnologia de fronteira em solos de cerrado que a ciência internacional considerava irrecuperáveis.
Construiu, de forma imperfeita, mas inegável, um ecossistema logístico capaz de escoar volumes que rivalizam com os maiores exportadores mundiais. Em soja, milho, carne bovina, frango, celulose, café, entre outros, o País atingiu posições de liderança global que seriam consideradas improváveis há 30 anos.
Ao mesmo tempo, parte substancial dos territórios que sustentam essa produção continuam entre os piores indicadores sociais do planeta.
Esse não é um paradoxo menor. É o paradoxo central da economia política brasileira contemporânea. E o IPS 2026 fornece a evidência empírica que torna impossível continuar adiando o diagnóstico.
A riqueza que não se converte
Entre 2000 e 2025, o Brasil viveu um dos maiores ciclos de valorização de commodities de sua história. A soja tornou-se a principal exportação do País, respondendo por fatias crescentes do superávit comercial que sustentou décadas de estabilidade macroeconômica. O minério de ferro, impulsionado pela industrialização chinesa, transformou economias regionais inteiras. Royalties minerais e de petróleo inundaram cofres municipais que, em muitos casos, nunca haviam gerido receitas remotamente equivalentes.
O resultado em termos de riqueza agregada foi extraordinário. Municípios agrícolas tornaram-se bilionários. Estados produtores acumularam fundos constitucionais sem precedente histórico. O PIB do agronegócio ultrapassou sistematicamente um quarto da economia nacional.
O IPS 2026, no entanto, documenta algo que os números de exportação não revelam: o Brasil produziu riqueza numa velocidade muito superior à sua capacidade institucional de transformá-la em progresso social sofisticado. O componente de Oportunidades, o mais exigente do índice, por capturar mobilidade intergeracional, qualidade educacional e acesso a capital humano de alto nível permanece como um dos piores desempenhos estruturais do país.
A pergunta inevitável é: por quê?
A Amazônia como espelho
Nenhum caso ilustra esse paradoxo com mais eloquência, e com mais consequências do que a Amazônia, e o Pará em particular.
O Estado é hoje um dos mais estratégicos da geografia econômica brasileira. Possui a maior reserva de minério de ferro do mundo em Carajás. Abriga hidrelétricas que respondem por parcela relevante da matriz energética nacional.
Concentra extensões crescentes de fronteira agrícola, à medida que o arco do desmatamento avança sobre o cerrado-amazônico. Sua costa atlântica se tornou corredor logístico essencial para as exportações do centro-norte do país, com o porto de Vila do Conde e a expansão do complexo de Barcarena.
Em termos de geração de riqueza bruta, o Pará seria, em muitos países, um Estado próspero. No IPS 2026, figura entre os piores desempenhos do país.
Isso não é acidente estatístico. Não é uma anomalia passageira de série histórica. É a expressão mais legível de uma disfunção estrutural: a riqueza extraída da Amazônia não fica na Amazônia, ao menos não na forma de institucionalidade, capital humano ou infraestrutura social. Fica, em grande medida, na forma de orçamentos capturados por dinâmicas políticas que privilegiam a distribuição de curto prazo sobre o investimento estrutural de longo prazo.
O município de Parauapebas, sede operacional da maior mina do hemisfério sul, é um caso de manual. Sua arrecadação per capita está entre as mais altas do Brasil. Seus indicadores de saneamento, segurança e qualidade educacional permanecem profundamente abaixo do que essa arrecadação permitiria construir.
Dalí se extraem, a cada ano, bilhões em valor mineral. A cidade que orbita essa extração convive com déficits institucionais que seriam inaceitáveis em qualquer economia desenvolvida.
Multiplicado por dezenas de municípios ao longo do arco mineral e agrícola amazônico, esse padrão não é mais um fenômeno local. É uma característica sistêmica do modelo brasileiro de desenvolvimento territorial.
O agronegócio sofisticou-se; a governança, não
É precisamente aqui que o argumento precisa ser feito com mais rigor e sem as concessões que o debate público brasileiro frequentemente faz por comodidade política.
O agronegócio brasileiro realizou, nas últimas três décadas, uma das transformações produtivas mais impressionantes já documentadas em qualquer país em desenvolvimento. A produtividade total dos fatores na agricultura brasileira cresceu a taxas que rivalizam com as economias asiáticas de alto desempenho. A adoção de tecnologia de precisão, manejo de solo e biotecnologia colocou produtores brasileiros na fronteira global do conhecimento agronômico.
Esse é um feito genuíno. E merece reconhecimento.
Mas a sofisticação do agronegócio não se transferiu, de forma automática ou proporcional, para a qualidade institucional dos territórios em que opera. Pelo contrário: em muitos casos, a abundância de receitas geradas pelo ciclo de commodities reduziu a pressão política por eficiência pública. Quando a arrecadação cresce sem esforço fiscal via royalties, CFEM, ICMS, transferências constitucionais vinculadas à produção primária o incentivo estrutural para modernizar a gestão pública simplesmente diminui.
O resultado é uma lógica perversa, documentada com clareza crescente pela literatura de economia política: quanto mais rica em commodities uma região, mais vulnerável tende a ser à captura política de suas receitas extraordinárias. Clientelismo, hipertrofia administrativa, dependência fiscal e expansão urbana desordenada não são patologias de regiões pobres. São, frequentemente, patologias de regiões que ficaram ricas rápido demais para que suas instituições amadurecessem na mesma velocidade.
O IPS 2026 torna isso visível em escala nacional.
O que está em jogo agora
A urgência desse diagnóstico não é apenas doméstica. É geopolítica.
O mundo atravessa uma reorganização estrutural das cadeias de produção e de poder econômico que coloca o Brasil numa posição simultaneamente privilegiada e vulnerável. A rivalidade sino-americana, a aceleração da transição energética, a crescente politização do comércio de proteínas e de minerais críticos, todos esses vetores convergem para valorizar exatamente os ativos em que o Brasil é abundante: terra agricultável, água, biodiversidade, minérios estratégicos, capacidade de produção de baixo carbono.
Mas a nova economia global não recompensa apenas a posse de recursos. Recompensa a capacidade institucional de transformá-los em valor sustentado. E é precisamente aqui que o IPS 2026 se torna um documento estratégico, e não apenas social.
Um Brasil com governança frágil nos territórios que sustentam sua inserção global é um Brasil que oferece ao mundo abundância sem confiabilidade. Que exporta commodities com eficiência, mas importa incerteza institucional. Que possui os ativos do século 21, mas os administra com instrumentos do século 20.
A Amazônia é, nesse quadro, o caso mais crítico. É simultaneamente o maior ativo ambiental do planeta e a região onde a distância entre riqueza gerada e desenvolvimento institucional é mais gritante. Resolver esse paradoxo não é apenas uma questão de justiça social, embora seja também isso. É uma condição para que o Brasil seja levado a sério como potência do século XXI, e não apenas como fornecedor confiável de alimentos, energia e minérios para economias que souberam construir o que o Brasil ainda não construiu.
A pergunta que não pode continuar sem resposta
Depois de 25 anos do maior ciclo de riqueza primária da história econômica brasileira recente, era esse o nível de desenvolvimento institucional que o País deveria apresentar?
O IPS 2026 sugere que não. E a magnitude do gap entre riqueza gerada e progresso social alcançado é grande o suficiente para que a resposta não possa mais ser adiada com argumentos sobre a complexidade do federalismo, a herança histórica da desigualdade ou os ciclos inevitáveis da economia global.
O Brasil não tem problema de recursos. Nunca teve.
Tem um problema persistente de capacidade política para transformar abundância em projeto nacional. E esse problema ao contrário do preço da soja ou da cotação do minério, não é determinado por nenhum mercado externo. É determinado, exclusivamente, pela qualidade das escolhas que os brasileiros fazem sobre como governar o extraordinário patrimônio que a geografia e a biologia colocaram à sua disposição.
O que não sabemos sobre os negócios verdes da Amazônia
O paradoxo brasileiro tem uma geometria precisa: quanto mais o País cresce para fora nas exportações, nos mercados, na reputação agrícola global, mais expõe o que não construiu por dentro. É como uma árvore cujas raízes não acompanharam o crescimento do tronco. Numa estação de bonança, isso passa despercebido. Numa tempestade geopolítica, e o mundo que emerge da rivalidade sino-americana tem todas as características de uma, é exatamente aí que a estrutura cede.
O IPS 2026 não é apenas um relatório social. É um laudo de resistência. E o que ele indica é que o Brasil ainda tem tempo de reforçar as fundações, desde que pare de confundir a altura da copa com a solidez das raízes (Marcello Brito, engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental; Estadão)





