Por que novo tarifaço de Trump não deve decidir eleição a favor de Lula

Ao entrarem em vigor nesta quarta-feira (22/7), as novas tarifas de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros devem manter acesa, até a eleição de outubro, a disputa de narrativas entre o governo Lula (PT) e a família Bolsonaro sobre de quem é a culpa pela taxação.

Mas, diferentemente de 2025, quando o primeiro tarifaço uniu a esquerda em torno da bandeira da “soberania nacional” e melhorou percepções sobre o governo, o impacto positivo ao presidente brasileiro deve ser mais limitado, segundo analistas consultados pela BBC News Brasil.

“Nesse primeiro momento, não é uma boa notícia para o Flávio Bolsonaro, mas está muito longe de ser qualquer bala de prata [para o Lula]. A depender das consequências objetivas do tarifaço e a depender de como Flávio e Lula se colocam sobre o tema, pode mudar essa sensação”, resume o analista político Beto Vasques, professor da FESPSP que tem feito pesquisa com eleitores indecisos.

As tarifas passam a valer nesta quarta após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluir uma investigação em que acusou o Brasil de práticas “irrazoáveis” que “oneram ou restringem o comércio dos EUA” e com críticas ao Pix,

Do lado da campanha de Flávio Bolsonaro, o próprio pré-candidato sabe que o tema tende a prejudicar seu objetivo de chegar ao Palácio do Planalto.

Em uma carta enviada no início de julho ao USTR, o senador fez um alerta: caso o governo Trump confirmasse a nova taxa contra o Brasil, isso daria uma “vitória política” a Lula.

No documento, Flávio pedia o adiamento por 180 dias da aplicação. Ou seja, para depois das eleições. O senador ainda foi ao EUA participar de uma audiência pública antes da confirmação das tarifas.

Em um artigo publicado na segunda-feira (20/7), o economista americano Paul Krugman, ganhador do Nobel, ressaltou essa percepção ao dizer que as tarifas podem fortalecer Lula.

De fato, segundo o cientista político Sergio Simoni Junior, professor na Universidade de São Paulo (USP), ainda é Lula quem tem mais chance de usar as tarifas em seu benefício nas eleições, devido às contradições persistentes do discurso bolsonarista sobre as tarifas.

“É um discurso que tem ainda essa contradição: dizem ‘olha, nós estamos negociando [com os EUA], diferente do governo. Mas ainda assim defendendo a tarifa se eles não ganharem eleição”, avalia.

Mas essa contradição, dizem os analistas consultados, deve se somar a outros vários fatores contra os dois candidatos que vão decidir o voto dos indecisos.

Experimento com indecisos: de quem é a culpa?

Diretor do Instituto Democracia em Xeque, Beto Vasques tem feito pesquisas qualitativas com eleitores indecisos para as eleições 2026 junto à cientista política Esther Solano.

São reunidos semanalmente dois grupos de eleitores, a quem são aplicados questionários baseados em estudos de pesquisas quantitativas (como Quaest ou Datafolha) e de monitoramento de redes sociais.

Os grupos são formados pelo chamado “eleitor pendular” de Estados como Minas Gerais, Bahia e São Paulo. São pessoas que em 2018 votaram em Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad, em 2022 votaram em Lula contra Bolsonaro e agora estão indefinidas, sem rejeitar totalmente nem Lula nem Flávio.

“É um eleitor que a gente acha que é importante botar a lupa porque a gente acha que ele é o cara que está chamado a decidir a eleição”, diz Vasques.

Segundo o professor, são eleitores “ultrapragmáticos”, que se negam a se abster e prefeririam uma terceira via, mas sabem que precisam escolher entre os dois principais candidatos. O seu voto depende sobretudo da agenda factual e do comportamento dos dois até as eleições.

E é aí que entra o tarifaço.

Segundo Vasques, o tarifaço está começando a se transformar numa ameaça real para o bolso desses eleitores. Há um receio de o custo de vida subir ainda mais.

“Todos, inequivocamente, dizem que o responsável primeiro é o Trump, que faz o que quer”, explica.

“Mas eles criticam tanto o Flávio, que parece estar mais preocupado em usar proximidade com Trump para fazer o seu cálculo eleitoral do que aliviar a vida do brasileiro, quanto o Lula, que, enquanto presidente, deveria negociar mais, não jogar a toalha e ser mais sóbrio na negociação.”

“O espírito do eleitor pendular é de que a soberania tem que vir antes de submissão, mas só depois de negociação”, segue o professor.

São eleitores que, toda semana, pedem nas conversas “mais Palácio, menos palanque” a Lula e que estão se distanciando de Flávio após semanas de um noticiário negativo, como as ligações com Daniel Vorcaro no filme Dark Horse e o vídeo crítico da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

“Ainda assim, esse eleitor não fecha totalmente a porta pro Flávio porque esse eleitor queria trocar, queria mudança”, diz Vasques.

Só que “o presidente Lula não termina de ganhar esse eleitor decisivo porque ele não segura a língua”, avalia Vasques, ressaltando que a forma como Lula fala de Trump e das tarifas em seus discursos é enxergada como “bravata”.

Na última sexta-feira (17/7), por exemplo, Lula comentou as tarifas em discurso e disse querer uma “guerra da narrativa” e “da verdade” com Trump. “Eu quero provar ao mundo quem está falando a verdade nessa guerra tarifária entre Brasil e EUA”, disse o presidente.

Do lado das pesquisas quantitativas, os primeiros sinais são positivos a Lula. A pesquisa Quaest divulgada no dia 16 de julho mostrou que a maioria dos eleitores atribui mais a Flávio Bolsonaro a responsabilidade pelas tarifas.

As entrevistas, encomendadas pela Genial Investimentos, foram realizadas entre os dias 10 e 14 de julho, portanto antes da confirmação da tarifa, no dia 15 de julho. Mas, desde junho, os EUA já haviam concluído a investigação.

Na pesquisa, foi feita a seguinte pergunta: “Lula acusa Flávio Bolsonaro de ter pedido o tarifaço contra o Brasil. Flávio nega e diz que pediu a Trump para não taxar o país. Com quem você concorda mais?”

51% dos entrevistados concordaram com a versão de Lula (eram 47% em junho); Já os que compartilhavam a opinião de Flávio Bolsonaro foram 30%, contra 35% em junho.

Um dia antes, a Quaest divulgou que Lula aparece com um saldo de aprovação positivo pela primeira vez desde dezembro de 2024. Isso é, numericamente, a aprovação do governo, de 48%, superou a desaprovação, de 47%.

Na pergunta espontânea de intenção de voto, 54% continuam indecisos; 26% dizem que vão votar em Lula (+3%) e 14% em Flávio (-3%).

Em um eventual cenário de segundo turno, Lula tem 45% contra 37% de Flávio, ampliando em dois pontos a vantagem.

Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, o fator mais importante para a queda atual de Flávio foi o conflito com Michelle Bolsonaro, não as tarifas.

“Os vídeos divulgados parecem ter provocado algum dano dentro da base potencial do Flávio, já que 35% da direita e 20% do bolsonarismo acham que Michelle acertou ao divulgar o vídeo”, analisou Nunes em postagem no X. “Toda essa confusão dentro da família acabou provocando uma reação que parece afastar o potencial eleitor independente do Flávio.”

Segundo Vasques, essa pesquisa, somada às entrevistas que faz, também mostram que o eleitor pêndulo, que estava querendo uma mudança no governo, começa “a ter maior benevolência com as políticas do Lula” a partir do momento que Flávio decepciona.

“Como a possibilidade de mudança não tá sendo bem encarnada, eles fazem um processo de dissonância cognitiva para justificar porque, mesmo tendo dito que eu queria mudar [o governo], eu vou continuar”, analisa.

Um impacto diferente ao de 2025

No primeiro tarifaço, em 2025, a família Bolsonaro se colocou frontalmente a favor, com Eduardo postando até um agradecimento a Trump. Na época, o presidente americano relacionou a taxa ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Esse cenário muda um pouco agora, já que Flávio tem tentado publicamente se colocar contra a tarifa — ao menos, por enquanto. E o argumento utilizado pelos EUA para a última rodada tarifária vem de uma investigação comercial formal.

“Estão surfando nessa ambiguidade, então não foi colada na testa deles a culpa [por esse tarifaço]”, diz Beto Vasques.

O cientista político Sergio Simoni Junior também ressalta que o tarifaço de agora vem num contexto de idas e vindas na relação entre Lula e Trump.

Em novembro, após Bolsonaro ter sido condenado em setembro a 27 anos de prisão em regime inicial fechado, os EUA retiraram a tarifa de 40% de novos itens, incluindo café, carnes e frutas. A decisão foi tomada após Trump iniciar negociações diretas com Lula, meses após elogiar o brasileiro em discurso na ONU.

Mas, em maio deste ano, o governo Trump azedou a relação ao decidir classificar as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, uma demanda dos bolsonaristas.

Para Simoni, é um assunto que faz a relação de Lula com os EUA se tornar mais espinhosa para a repercussão interna no Brasil. Ou seja, nessa disputa com os americanos, não são apenas mais as tarifas que estão em jogo.

“Isso tornou esse cenário de agora mais complicado, porque o governo não pode simplesmente fazer uma defesa dessas organizações criminosas. Então, fica numa sinuca de bico aí”, diz o analista.

Em entrevista à BBC News Brasil na época do primeiro tarifaço, o professor da USP avaliou que as tarifas traziam uma oportunidade “inesperada” a Lula, a de levantar a bandeira do nacionalismo.

As pesquisas que vieram em seguida confirmaram uma maré positiva. A Quaest seguinte mostrou, por exemplo, a melhoria na avaliação de Lula entre os eleitores que dizem que não têm posicionamento. Na época, Felipe Nunes, diretor do instituto, disse ao G1 que o tarifaço empurrava o eleitor de centro para “colo de Lula”.

Se essa vai ser uma verdade agora, vai depender mais desse conjunto de fatores e do impacto econômico das tarifas nos três meses que faltam para o segundo turno das eleições, concluem os analistas (BBC)



Como nova tarifa contra o Brasil faz parte de estratégia maior de Trump para inimigos (e aliados)

A nova tarifa dos Estados Unidos contra parte das exportações do Brasil – que entra em vigor nesta quarta-feira (22/07) – faz parte de uma estratégia maior do governo de Donald Trump para contornar uma proibição imposta pela Suprema Corte americana e reconstruir as maiores e mais abrangentes tarifas implementadas no início de seu segundo mandato.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a taxação aplicada contra os produtos brasileiros após uma investigação sobre práticas comerciais consideradas injustas pode ser apenas a primeira de uma série de novas medidas protecionistas com base em inquéritos semelhantes.

“Em resposta à decisão da Suprema Corte, o governo Trump está implementando um plano B e identificando uma estratégia mais robusta do ponto de vista jurídico”, resume Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e do Carnegie Endowment for International Peace e professor da FGV.

Desde antes de assumir a Casa Branca pela segunda vez, Trump tem defendido uma agenda econômica conservadora e protecionista para os EUA.

Ainda nos primeiros meses de 2025, o presidente americano anunciou as chamadas tarifas recíprocas, que estavam no núcleo da estratégia tarifária do governo.

Dezenas de países foram alvos de alíquotas extras entre 10% e 41%, impostas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês). Segundo Trump, a legislação nacional de 1977 o autorizaria a adotar esse tipo de medida em situações excepcionais.

Mas entre negociações bilaterais e idas e vindas anunciadas pela própria Casa Branca, a Suprema Corte decidiu em fevereiro deste ano que o republicano extrapolou sua autoridade e que a IEEPA não permite ao presidente criar tarifas por conta própria.

Imediatamente após a decisão judicial, Trump assinou uma ordem executiva para impor uma nova tarifa global de 10%, dessa vez usando a seção 122 da Lei de Comércio americana de 1974.

Esta seção da legislação americana permitiu que o presidente impusesse taxas de até 15% por até 150 dias sobre as importações de todos os países, sem necessidade de aprovação do Congresso.

O prazo de 150 dias, porém, expira ainda nesta semana, em 24 de julho.

Em busca de bases jurídicas

É nesse contexto que entram as investigações sobre práticas comerciais desleais e ameaças à segurança nacional conduzidas pelo governo americano.

Essa foi a alternativa encontrada por Trump e seus assessores para manter sua agenda protecionista, avaliam economistas e analistas políticos consultados pela BBC News Brasil.

Em entrevista ao podcast The Daily, do jornal The New York Times, o próprio representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, disse que o governo está reconstruindo as bases jurídicas para restabelecer parte das sobretaxas derrubadas ou impor novas.

Ele também falou sobre uma outra frente de tarifas em preparação, que poderá atingir mais de 40 países acusados de práticas como subsídios à indústria e manipulação cambial.

Segundo Ana Swanson, repórter do jornal que entrevistou Greer, a administração americana acredita que esse caminho pode ser muito mais duradouro e prevê a entrada em vigor de tarifas de cerca de 10% contra mais de 80 países, provavelmente até o final deste mês.

O primeiro país efetivamente taxado seguindo essa estratégia no segundo mandato de Trump é o Brasil. Após uma investigação de quase um ano, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) anunciou a aplicação das tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros.

O inquérito tem como base uma outra parte da mesma lei de 1974 usada pelo presidente republicano para aplicar as tarifas temporárias que expiram nesta semana.

A Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos permite que o governo americano apure práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA.

O instrumento segue um trâmite que passa pelo início de diálogo com o parceiro comercial, investigação, mediação e, por fim, medidas para corrigir eventuais irregularidades. O processo completo dura pelo menos 12 meses, podendo ser estendido.

No caso brasileiro, a tarifa foi justificada pelos EUA alegando práticas como favorecimento ao Pix, acesso ao mercado de etanol e problemas relacionados à corrupção e desmatamento.

Segundo Jamieson Greer, a medida é necessária “para enfrentar práticas comerciais desleais e garantir que trabalhadores e empresas americanas possam competir em condições justas.”

A lista dos produtos alvo das tarifas inclui etanol, máquinas agrícolas, roupas e calçados e material elétrico. Já itens como café, laranja, suco de laranja e carne bovina entraram na lista de exceções.

Mas o Brasil não é o único país alvo de uma investigação com base na Seção 301.

O USTR conduz atualmente um inquérito que tem como alvo dezesseis dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos — China, União Europeia (UE), Singapura, Suíça, Noruega, Indonésia, Malásia, Camboja, Tailândia, Coreia do Sul, Vietnã, Taiwan, Bangladesh, México, Japão e Índia — por se envolverem em práticas comerciais supostamente desleais. Essa investigação está em curso e os resultados são esperados em breve.

Outro processo recente, que também se baseia na 301, concluiu que 60 parceiros comerciais dos EUA, incluindo a UE, o Japão e o Brasil, adotaram práticas comerciais desleais ao não impedirem o comércio de produtos fabricados com trabalho forçado.

O USTR propõe que o Brasil e outros 53 países citados no relatório recebam tarifas adicionais de 12,5%. Outras seis economias devem receber taxação de 10%.

O período de consulta pública sobre as taxas já encerrou e elas podem ser impostas a qualquer momento.

Os EUA também investigam Alemanha e Vietnã em processos individuais por questões relacionadas à indústria farmacêutica e propriedade intelectual, respectivamente.

Há ainda inquéritos sendo conduzidos a partir de outro artigo da legislação americana, a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962.

Esse artigo permite que o presidente americano ajuste as importações por meio de tarifas ou cotas, caso o Departamento de Comércio reconheça que determinados bens estão sendo importados em quantidades ou circunstâncias que ameacem a segurança nacional dos EUA.

Essa seção foi usada, por exemplo, para aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos feitos com aço, alumínio e cobre importados, que também afeta o Brasil.

Mais recentemente, o presidente americano acionou o artigo novamente, mas para reduzir as tarifas sobre alguns desses itens e favorecer empresas que se comprometerem a fortalecer a produção dos metais no país.

Na última segunda-feira (20/7), o governo americano ainda usou mais um artigo, de outra lei comercial americana, para anunciar uma tarifa de 50% sobre uma série de produtos importados do Canadá, em retaliação ao que Trump chamou de “tratamento desigual” dado a carros, laticínios e bebidas alcoólicas dos EUA.

A Seção 338 da Lei Tarifária de 1930 foi a escolhida da vez. Segundo essa peça da legislação americana, o presidente pode impor tarifas sobre as importações de um país estrangeiro para compensar o ônus ou a desvantagem decorrente da discriminação ou da imposição desigual de tarifas sobre o comércio nacional.

Para Filipe Mendonça, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a taxação do Canadá confirmou o padrão da nova estratégia americana de tentar reconstruir, de forma mais durável, o mesmo “poder de coerção tarifária que a IEEPA permitia”.

Segundo o especialista, Seção 338 é “um instrumento praticamente esquecido, nunca usado na política comercial moderna, ressuscitado para ampliar o arsenal disponível”.

Nesse contexto, o caso do Brasil foi uma primeira tentativa para o governo de Donald Trump em sua estratégia, afirma Oliver Stuenkel.

Mas por que o Brasil?

Segundo Filipe Mendonça, o Brasil é um caso emblemático dessa reconfiguração da estratégia tarifária americana.

“O Brasil combina, de forma pouco comum, atrito regulatório e desalinhamento político com os Estados Unidos”, diz.

“Historicamente, o Brasil já é ‘veterano’ da Seção 301, pois fomos alvos desse tipo de unilateralismo agressivo em 1985 (informática), em 1987 (patentes farmacêuticas) e em 2021 (Imposto sobre Serviços Digitais), o que facilita, na perspectiva trumpista, reativar o instrumento contra o Brasil com custo relativamente baixo.”

Ainda segundo Mendonça, a investigação sob a Seção 301 “já nasceu mais política do que comercial”, reunindo acusações heterogêneas e pouco comuns para esse tipo de instrumento.

Stuenkel aponta ainda que por ser governado pela esquerda, o Brasil atrai certo descontentamento em Washington.

Ao mesmo tempo, o país é considerado um adversário de “baixo risco”. Isto é, se o Brasil decide retaliar e uma guerra tarifária se inicia, o impacto não seria tão extenso devido à menor relevância comercial em comparação com, por exemplo, um parcerio americano de mais peso como a China, diz o especialista.

E enquanto em 2025, quando o Brasil foi alvo de uma taxa extra de 50% diante da insatisfação do governo Trump com o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado, a motivação para as tarifas “era abertamente política”, agora foi preciso “encontrar um verniz técnico” para justificar a ação americana.

Por que Trump é a favor de tarifas?

Donald Trump disse muitas vezes que as tarifas protegem e criam empregos nos EUA. Ele as vê como uma forma de fazer a economia dos EUA crescer e aumentar as receitas fiscais.

“Sob meu plano, os trabalhadores americanos não ficarão mais preocupados em perder seus empregos para nações estrangeiras”, disse Trump, quando anunciou o primeiro tarifaço de seu segundo mandato. “Em vez disso, as nações estrangeiras ficarão preocupadas em perder seus empregos para a América.”

Trump também defende as tarifas como uma forma de suprimir as vendas de produtos importados e promover as vendas de produtos nacionais. Esse foi seu motivo para impor tarifas no passado à UE, por exemplo.

Em sua entrevista ao The Daily, o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, disse ainda que o protecionismo é uma questão de “emergência” nos EUA, como forma de reduzir o déficit comercial do país e recuperar sua industrialização, elevando os salários dos americanos.

No ano passado, o Tesouro dos EUA registrou um forte aumento de arrecadação graças ao tarifaço do presidente. No primeiro semestre de 2025, a receita proveniente das tarifas de importação atingiu US$ 87 bilhões (R$ 442 bilhões), valor que supera toda a arrecadação de 2024.

Mas desde que a Suprema Corte decidiu, em fevereiro, que as tarifas impostas por Trump eram ilegais, os importadores receberam cerca de US$ 71 bilhões em reembolsos, de acordo com o relatório mensal do Tesouro dos EUA. E outros US$ 166 bilhões ainda devem ser pagos de volta pelo governo americano.

Para alguns especialistas, esses resultados também têm motivado os EUA a buscar novas estratégias para a implementação de tarifas.

Por outro lado, aponta Filipe Mendonça, o déficit comercial e a arrecadação do governo americano não são os objetivos centrais de Trump.

“O que está por trás é a busca de realinhamento estratégico dos parceiros comerciais dos EUA no contexto da rivalidade com a China”, afirma o professor da UFU. “O acesso ao mercado americano é usado como instrumento de disciplina política, não apenas como resposta a distorções comerciais específicas.”

Tal objetivo fica evidente no caso brasileiro, segundo o especialista.

“A lógica de fundo é reposicionar o Brasil na órbita americana num momento de disputa por cadeias produtivas, tecnologia e influência regulatória com a China, justamente na véspera da disputa presidencial brasileira”, diz.

A nova estratégia vai funcionar?

Embora a nova política tarifária americana esteja cada vez mais clara, ainda não é possível afirmar se as novas tarifas contribuirão para os objetivos do governo Trump – e, principalmente, se resistirão a novas contestações judiciais.

Em seu primeiro mandato, o presidente americano usou a Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos (a mesma utilizada atualmente contra o Brasil) para impor tarifas de 25% sobre aproximadamente US$ 250 bilhões em importações chinesas.

E embora tenham sido contestadas por cortes nos Estados Unidos, as tarifas de Trump sobre a China não foram anuladas pelos tribunais.

Os especialistas ouvidos pela reportagem também enxergam a estratégia de usar a lei comercial americana para apoiar as tarifas como mais consistente e robusta do ponto de vista jurídico do que a aplicação da IEEPA.

Mas isso não elimina os riscos.

“A Seção 338, último capítulo desta nova onda tarifária trumpista, não é usada há quase um século e sua aplicação contra o Canadá certamente será contestada”, diz Mendonça.

“Já as determinações de Seção 301 também podem ser questionadas por vícios processuais ou por serem consideradas arbitrárias pelos tribunais, mas acho muito difícil a reversão pela via jurídica neste caso”, completa.

No caso brasileiro, Jamieson Greer afirmou que Washington continua aberto a conversas com Brasília em relação à nova tarifa de 25%.

O sentimento do governo Lula, porém, é de pessimismo. Segundo uma fonte no Palácio do Planalto, a decisão dos EUA tem mais motivações políticas do que econômicas, e os argumentos apresentados pelo Brasil para contestar as acusações não foram sequer considerados.

Mas para a economista e pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional (PIIE), Monica de Bolle, a extensa lista de itens que não serão alvo das tarifas americanas contra o Brasil revela os limites do protecionismo e da margem de manobra de Donald Trump no mundo globalizado de hoje.

A lista de produtos isentos das tarifas inclui mais de 2,2 mil itens, entre eles carnes bovinas, frutas, café, minerais, fertilizantes e aeronaves, itens de maior importância entre os exportados pelo Brasil aos EUA.

“Pelas minhas contas, cerca de 65%, senão mais, das exportações do Brasil para os Estados Unidos ficarão completamente isentas”, disse De Bolle em entrevista à BBC News Brasil.

“Ou seja, a tarifa de 25% se aplica apenas a um terço dos bens exportados. Além disso, já havia uma lista de isenções publicada no início de junho, e novos itens foram acrescentados agora”, afirmou.

“Tudo isso é muito revelador dos limites dessa ação norte-americana. Apesar de aparentemente não quererem mais isso, os Estados Unidos são uma economia muito integrada com o resto do mundo.”

Para Monica de Bolle, o caso do Brasil deve servir como um sinalizador para outros países que também estão sendo investigados sob a Seção 301: ao mesmo tempo em que os EUA adotaram uma nova estratégia comercial, há um limite para o protecionismo norte-americano.

Pressões internas, especialmente antes das eleições para o Congresso marcadas para novembro e diante da perspectiva de alta da inflação, também podem dificultar o caminho de Trump para manter sua estratégia.

Por tudo isso, diz Mendonça, da UFU, “o sucesso da estratégia depende menos da blindagem jurídica do instrumento e mais da capacidade do governo de sustentar capital político doméstico e internacional simultaneamente” (BBC)



Tarifaço: Medida de R$ 18,5 bi é mais um “band-aid”, diz ex-secretário

Ao Hora H, o ex-secretário de Comércio Exterior Lucas Ferraz avalia que medidas do governo brasileiro oferecem alívio de curto prazo, mas não resolvem conflitos com os Estados Unidos.

O governo brasileiro anunciou um pacote de R$ 18,5 bilhões destinado a setores afetados pelo tarifaço dos EUA. Para Lucas Ferraz, ex-secretário de Comércio Exterior, ao Hora H, a medida representa, nas suas próprias palavras, “mais um band-aid que o governo brasileiro tenta colocar” na relação bilateral com os norte-americanos, que vem sofrendo pressões diplomáticas, políticas e econômicas.

Ferraz reconheceu que o volume anunciado é generoso, mas ponderou que os critérios de liberação dos recursos e o eventual descontinuamento do programa ainda não estão claros.

“Eu entendo que é um pacote que vai dar algum alívio de curto prazo para as empresas exportadoras brasileiras”, afirmou, ressaltando que o número de empresas afetadas desta vez é menor do que o registrado em julho do ano passado.

Incerteza sem precedentes nas relações comerciais

Ferraz destacou que, desde 2 de abril de 2025, as tarifas enfrentadas pelos exportadores brasileiros foram alteradas seis vezes, numa média de três a quatro meses. “O nível de incerteza que se coloca na relação do Brasil com os Estados Unidos é sem precedentes”, afirmou.

Segundo ele, esse cenário impacta diretamente o comércio bilateral, que tem característica de comércio intra-indústria, envolvendo empresas multinacionais brasileiras e americanas em cadeias de valor. Os dados mais recentes apontam queda de 12% nas exportações e importações brasileiras com os EUA no período.

Brasil paga o preço do atraso na política comercial

Ao ser questionado sobre como o Brasil poderia se reposicionar em cadeias globais de valor, Ferraz foi enfático: “O Brasil agora, infelizmente, paga o preço do seu atraso.” O especialista citou que as tarifas de importação brasileiras estão entre as maiores do mundo, com média de 12% a 13%, além de picos tarifários e barreiras não tarifárias.

Segundo o Banco Mundial, o Brasil é o segundo país em restritividade na aplicação de barreiras não tarifárias. Somando os equivalentes tarifários das barreiras técnicas, sanitárias e fitossanitárias, o custo efetivo pode superar 22%.

Ferraz também apontou que o Brasil exporta com tarifa preferencial para apenas 15% de seus mercados de destino. Com os acordos recentemente anunciados com Singapura, EFTA e União Europeia, esse índice subiria para 30%, ainda muito distante da média mundial, que gira entre 70% e 80%.

“Esse debate está muito atrasado aqui no Brasil, e eu diria até que agora piorou, porque agora se confunde também o contexto geopolítico”, declarou, alertando que alguns setores chegaram a pedir ainda mais proteção comercial ao governo, o que, na sua avaliação, só agravaria o problema.

Diversificação e reforma do Mercosul como saídas

Diante da crescente dependência comercial em relação à China — que hoje responde por cerca de 30% das exportações brasileiras, enquanto os EUA caíram de 25% para menos de 9% —, Ferraz defendeu que o Brasil precisa dinamizar sua agenda de acordos comerciais.

Ele também propôs uma reforma da tarifa externa comum do Mercosul, com mais flexibilidade e abertura para negociações unilaterais, caminho que já vem sendo trilhado pelo Uruguai e pela Argentina. “O Brasil e os seus parceiros comerciais precisam rediscutir o bloco e modernizá-lo para torná-lo mais dinâmico”, concluiu (CNN)



“Há males que vêm para o bem”, diz Lula ao anunciar medidas após tarifaço

Presidente faz um paralelo entre o novo tarifaço de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros e a pandemia de Covid-19.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta quarta-feira (22) que “há males que vêm para o bem” durante cerimônia para anunciar medidas do governo brasileiro em resposta ao recente tarifaço imposto pelos Estados Unidos.

Lula faz um paralelo entre o novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros por parte dos EUA e a pandemia de Covid-19. Segundo o petista, o SUS (Sistema Único de Saúde) “saiu altamente fortalecido” do período pandêmico, indicando o mesmo para a indústria e comércio.

“Na economia, nós também provamos que quando tem uma crise, ao invés de ficar chorando, precisamos encontrar uma saída. Estamos demonstrando que não há crise que impeça o Brasil de seguir sua trajetória de continuar sua economia crescente”, disse Lula durante evento de sanção do Programa Brasil Soberano.

A terceira edição do programa emergencial para produtores brasileiros contará com R$ 18,5 bilhões para apoiar empresas afetadas por tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos, conflitos internacionais e pelo avanço de medidas protecionistas no comércio global.

Do total do programa, R$ 13,5 bilhões serão aportados pelo Tesouro Nacional, com dinheiro não utilizado em edições anteriores do programa e na renegociação de dívidas rurais. Outros R$ 5 bilhões virão do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Novo tarifaço

A nova distribuição de tarifas por parte dos Estados Unidos contra produtos brasileiros entrou em vigor a partir das 01h01, horário de Brasília.

A medida foi oficializada na virada da última quinta (16/7) para sexta-feira (17), em documento publicado pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos).

Entre as acusações que embasam a nova tarifa, os Estados Unidos citam a criação do Pix, que, segundo o governo americano, teria prejudicado o comércio de bandeiras de cartões de crédito americanas no Brasil.

Também é mencionado o desmatamento brasileiro, que, na visão americana, permitiria que os fazendeiros brasileiros operassem com custos menores do que os produtores americanos, que precisam seguir uma legislação ambiental mais rigorosa. O governo brasileiro rebateu todas essas acusações. (CNN)

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