Do pós-parto da vaca à recria da bezerra: como os primeiros cuidados podem impactar a produtividade

Manejo no período de transição, fornecimento adequado de colostro e atenção à saúde das bezerras estão entre os fatores que contribuem para um início de vida mais saudável no rebanho

O período que envolve o pós-parto da vaca e os primeiros meses de vida da bezerra exige atenção especial dos produtores. Da saúde da matriz no período de transição aos cuidados com colostro, imunidade, nutrição e prevenção de doenças após o nascimento, as decisões tomadas nessa fase podem influenciar o desenvolvimento dos animais e os resultados futuros do rebanho.

A relevância desse cuidado é evidenciada pelos impactos que os problemas sanitários podem representar para a produção. Um estudo realizado em 1.451 propriedades leiteiras familiares no Rio Grande do Sul, com dados referentes a mais de 12 mil bezerras, identificou uma taxa de mortalidade de 8,5% até o desmame, sendo 6,9% correspondente à mortalidade pós-natal. A diarreia esteve entre as principais causas de morte relatadas pelos produtores, reforçando a importância do manejo sanitário adequado nessa fase.

Além disso, em 16% das propriedades avaliadas a mortalidade das bezerras foi igual ou superior a 20%, demonstrando que falhas no manejo podem resultar em perdas expressivas para os sistemas de produção leiteira[1].

Os primeiros dias de vida representam uma janela importante para estabelecer as bases de saúde da bezerra. Por isso, é fundamental olhar para esse período de forma integrada, considerando desde as condições da vaca no período de transição e no parto até a qualidade e o fornecimento do colostro, a higiene, a nutrição e os protocolos sanitários da cria”, explica Daniel Miranda, Gerente de Produto da linha de Leite da Zoetis Brasil.

Saúde da vaca também faz parte do cuidado com a cria

O cuidado com a bezerra começa antes mesmo do nascimento. O período de transição, que compreende as semanas que antecedem e sucedem o parto, é marcado por importantes mudanças fisiológicas e metabólicas na vaca e requer acompanhamento próximo.

Entre os desafios que podem ocorrer nesse período estão retenção de placenta, metrite e distúrbios metabólicos, além de problemas relacionados à locomoção. Um estudo publicado na Pesquisa Veterinária Brasileira, conduzido em uma propriedade de Minas Gerais com 900 vacas em lactação, estimou que a retenção de placenta gerou um custo de US$ 8.878, equivalente a 19.666 litros de leite, no período avaliado. Segundo os pesquisadores, o valor necessário para arcar com os custos da condição correspondeu a 0,34% da produção anual total de leite da propriedade. O trabalho também destaca que aproximadamente 75% das doenças em vacas leiteiras ocorrem no primeiro mês após o parto[2].

Quando falamos em saúde da bezerra, é importante não olhar apenas para o animal recém-nascido. A condição da vaca, o parto e o manejo realizado imediatamente após o nascimento fazem parte de uma mesma estratégia. Quanto mais estruturado for esse processo, maiores são as possibilidades de identificar rapidamente situações de risco e atuar de maneira adequada”, ressalta Miranda.

Colostro e imunidade: atenção desde as primeiras horas

Após o nascimento, um dos principais pontos de atenção é a transferência de imunidade passiva. Como as bezerras nascem com capacidade limitada de produzir seus próprios anticorpos, o fornecimento adequado de colostro é fundamental para a aquisição de imunidade nas primeiras horas de vida.

Além da qualidade do colostro, fatores como volume fornecido, momento do fornecimento, higiene e armazenamento devem ser considerados dentro do protocolo da propriedade. O acompanhamento desses indicadores permite identificar oportunidades de melhoria e reduzir riscos sanitários durante uma fase em que os animais ainda apresentam maior vulnerabilidade.

A atenção a esses cuidados é especialmente importante diante do risco de ocorrência de enfermidades, como diarreias e doenças respiratórias, que podem comprometer a saúde e o desenvolvimento dos animais nessa fase.

Prevenção respiratória também começa desde cedo

Entre os principais desafios sanitários durante a fase de aleitamento estão as doenças respiratórias, favorecidas por fatores como condições inadequadas de ventilação e alojamento, variações de temperatura, exposição a agentes infecciosos e falhas na transferência de imunidade passiva. Além de afetarem a saúde das bezerras, essas enfermidades podem comprometer seu desenvolvimento e trazer impactos que se estendem ao longo da fase de recria. A vacina atua estimulando a imunidade da mucosa, a resposta imune celular e a produção de anticorpos.

A prevenção deve fazer parte de um programa estruturado e individualizado para cada propriedade. Vacinação, colostragem, higiene, nutrição, conforto e monitoramento dos animais são ferramentas que precisam estar integradas. O objetivo é reduzir a ocorrência de doenças e permitir que a bezerra expresse seu potencial de crescimento ao longo da recria”, explica Miranda.

Para as vacas, situações que demandam tratamento devem ser avaliadas pelo médico-veterinário, que definirá a conduta adequada de acordo com o diagnóstico e as características de cada animal.

Investir nos primeiros meses é pensar no futuro do rebanho

Os primeiros cuidados com a bezerra não devem ser vistos de forma isolada. O nascimento, a colostragem, a prevenção de doenças, a nutrição e o acompanhamento durante a recria fazem parte de um processo contínuo de formação do futuro animal de produção.

Para o produtor, essa visão integrada pode contribuir para reduzir perdas, melhorar os indicadores sanitários e favorecer a formação de animais mais preparados para as próximas etapas da vida produtiva.

Uma bezerra saudável é resultado de um conjunto de cuidados que começa antes mesmo do nascimento. O desafio é transformar cada uma dessas etapas em um protocolo consistente, com acompanhamento dos indicadores e atuação preventiva. Dessa forma, o produtor não está apenas cuidando da saúde atual do animal, mas construindo as bases para o desempenho futuro do rebanho”, conclui Miranda.

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