Por André Passos Cordeiro
O ponto central não é o risco de falta de produto, mas a competitividade da produção.
O conflito no Oriente Médio reacendeu preocupações sobre possíveis impactos nas cadeias de suprimentos. Em momentos de instabilidade geopolítica, é natural que setores atentos à logística e ao abastecimento adotem postura de cautela. No entanto, no caso brasileiro, não há dados que sustentem a hipótese de desabastecimento de insumos químicos, resinas, plásticos e embalagens no curto prazo.
A indústria química opera hoje com níveis historicamente elevados de ociosidade. Em 2025, essa taxa atingiu 41%, o pior patamar em três décadas, chegando a cerca de 45% em segmentos ligados à produção de intermediários para plásticos. Isso significa que o País possui capacidade instalada suficiente para ampliar rapidamente a produção e compensar eventuais oscilações.
A dinâmica do setor químico global também reduz riscos imediatos. Grande parte das transações ocorre por meio de contratos de médio e longo prazo, com cláusulas de fornecimento firme.
Outro ponto importante diz respeito à origem das importações. Historicamente, o Brasil importa entre 25% e 30% das resinas que consome, porcentual que chegou a cerca de 46% nos últimos anos devido ao aumento da entrada de produtos estrangeiros. Mas as principais origens dessas importações estão nas Américas, na Ásia e em outros mercados fora da zona de tensão, reduzindo riscos logísticos.
Há riscos apenas em segmentos nos quais o País perdeu capacidade de produção local ou apresenta forte dependência externa de matérias-primas estratégicas, como fertilizantes nitrogenados e enxofre para ácido sulfúrico. Ainda assim, não se trata de um cenário generalizado para a indústria brasileira.
A experiência recente reforça essa avaliação. Durante a pandemia de covid-19, quando cadeias globais foram severamente impactadas, não houve colapso no abastecimento de insumos essenciais no Brasil. A combinação entre produção doméstica, estoques e importações complementares garantiu o atendimento a setores críticos.
O ponto central, portanto, não é o risco de falta de produto, mas a competitividade da produção. O Brasil enfrenta desafios como alto custo de energia, preço do gás natural e assimetrias regulatórias, que reduzem a capacidade da indústria de competir em igualdade de condições com o mercado global. Mas mais do que alarmismo, o momento exige foco em soluções capazes de fortalecer a indústria e preservar a capacidade do País de crescer com resiliência (André Passos Cordeiro é presidente-executivo da Abiquim; Estadão)





