Nas barreiras às carnes do Brasil, o frango merece maior atenção

  • País tem mais fôlego na disputa internacional pelo mercado de carne bovina
  • Na avicultura, a concorrência é maior com a presença da China na exportação

Na imposição das barreiras às carnes brasileiras, como a que entrou em vigor nesta quinta-feira (3) por parte da União Europeia, o Brasil precisa se preocupar mais com o frango do que com o boi. A concorrência internacional favorece a bovinocultura, mas deve ficar mais acirrada na avicultura.

O cenário para a carne bovina brasileira é mais tranquilo devido à queda de rebanhos em produtores importantes, como os Estados Unidos, e à difícil recuperação no curto prazo. Já no frango, há uma concorrência forte vinda da China, que, de importadora, passou a ser exportadora nesse setor.

O país asiático está em busca de novos mercados, com preços competitivos. Inclusive, aumentou muito a participação no mercado da União Europeia, que está impondo amarras ao produto brasileiro.

A produção mundial de carne bovina deve atingir 62 milhões de toneladas, segundo o Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). Desse volume, 12,4 milhões têm origem no Brasil e 11,7 milhões nos Estados Unidos, os dois principais mercados mundiais.

A União Europeia, que está deixando de comprar a carne brasileira enquanto o país não provar que parou de usar substâncias antimicrobianas na produção animal, tem um rebanho em queda e elevados custos de produção, devido a insumos e pressões regulatórias. Apesar de uma retração no consumo, o bloco vai continuar dependente de carne bovina.

As exportações globais de carne bovina devem somar 13,8 milhões de toneladas neste ano, e 4,3 milhões saem do Brasil. Com isso, o país aumenta a participação no mercado mundial para 31%, bem acima dos 24% de 2022.

Com um dos principais rebanhos, e ganhando produtividade nos anos recentes, o Brasil não deve ser ameaçado por outros produtores, dentro de condições normais de mercado. Pontualmente, como ocorre neste ano, pode ter uma evolução menor das exportações do que em alguns concorrentes, como a Argentina.

O país vizinho encontrou uma situação favorável neste ano devido ao tamanho da cota recebida da China, abertura maior do mercado dos Estados Unidos e ocupação de parte da carne que os europeus não vão importar do Brasil.

No mercado de carne bovina, o Brasil tem poucos concorrentes à vista para os próximos anos. Não é o que ocorre com o frango, onde a concorrência deverá ser maior, principalmente da China. Assim como ocorreu com a produção de carne suína, que se recuperou rapidamente após a ocorrência da peste suína africana, a de frango também vem aumentando, e a China está com sobra para exportações.

Os chineses têm um consumo baixo de carne de frango, apenas 11 kg por pessoa por ano. Nos Estados Unidos são 55, e no Brasil, 47. A população chinesa perdeu ritmo de crescimento, e o volume disponível para exportações aumentou.

Com subsídios governamentais, a produção de carne de frango deste ano deverá atingir 17,3 milhões de toneladas no país asiático, a segunda maior do mundo, supera a brasileira e fica abaixo apenas da dos Estados Unidos.

Com um produto competitivo, os chineses remodelam seu mercado de exportação e aumentam a participação na Ásia, África, Europa e Oriente Médio. Neste ano, devem conquistar a terceira posição entre os principais exportadores, desbancando a Tailândia, tradicional concorrente do Brasil.

Em 2020, os chineses exportaram 388 mil toneladas de carne de frango. Neste ano, o volume deverá somar 1,4 milhão de toneladas, segundo o Usda. A produção aumentou 19% no período, enquanto o consumo interno cresceu 6%.

O Japão era o grande mercado em 2020, quando 42% das exportações chinesas ficavam com os japoneses. No ano passado, essa participação recuou para 19%. Mas a China ampliou a participação em outras regiões. A União Europeia, que era destino de 5% da carne de frango, em 2020, agora recebe 10%. A Rússia, sem grande expressão nas exportações chinesas há alguns anos, deve ficar com 11%.

No setor de carne suína, o ponto central do mercado mundial é a China, que passou por uma séria crise sanitária a partir de 2018. Naquele ano, a produção era de 54 milhões de toneladas, e a necessidade de importação do país era de 1,54 milhão.

Em 2020, sob os efeitos da peste suína africana, a produção do país caiu para 36 milhões, e as importações subiram para 5,3 milhões. Nesse período, o Brasil foi um dos principais beneficiados com as compras chinesas.

A recomposição do setor foi tão rápida que o país está agora com uma política para reduzir o número de matrizes. A produção avançou muito e começa a afetar a rentabilidade do setor. A previsão do Usda é de uma oferta interna de 59,5 milhões de toneladas neste ano. Com isso, as importações recuam para 1 milhão, o que obriga o Brasil a buscar outros mercados. O setor chinês de avicultura deve seguir o mesmo caminho (Folha,)

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