El Niño poderá reduzir a produção de grãos no Brasil

Por Pedro Côrtes

Fenômeno climático que historicamente beneficiava parte da agricultura brasileira hoje encontra um cenário produtivo diferente, com maior vulnerabilidade nas regiões que lideram a produção nacional.

Durante muito tempo, o El Niño foi visto pelo agronegócio brasileiro como um fenômeno predominantemente favorável. O aumento das chuvas no Sul costumava reduzir o risco de estiagens e contribuir para o desempenho de culturas como soja, milho e arroz. Essa percepção, porém, já não reflete integralmente a realidade da agricultura nacional.

A transformação geográfica da produção de grãos nas últimas décadas alterou a relação entre o clima e o desempenho do setor. O Brasil produzia cerca de 100 milhões de toneladas de grãos no início dos anos 2000. Hoje, a safra supera 350 milhões de toneladas.

Grande parte desse crescimento ocorreu no Centro-Oeste e, mais recentemente, na região conhecida como MATOPIBA, que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

O problema é que essas regiões respondem de forma diferente ao El Niño. Enquanto o Sul costuma registrar aumento das precipitações, áreas centrais do país frequentemente enfrentam atraso no início das chuvas, veranicos mais prolongados e temperaturas acima da média.

Para culturas altamente dependentes de condições climáticas favoráveis durante o plantio e o enchimento de grãos, essa combinação pode representar perdas expressivas.

Os números recentes ajudam a ilustrar essa mudança. Na safra 2014/15, o Brasil colheu 209,5 milhões de toneladas de grãos. Sob influência do forte El Niño de 2015/16, a produção recuou para 186,6 milhões de toneladas. O mesmo padrão voltou a aparecer durante o episódio de 2023/24. Após registrar o recorde de 322,8 milhões de toneladas na safra anterior, o país viu a produção cair para 298,4 milhões de toneladas.

É evidente que nenhum evento climático explica sozinho o resultado de uma safra. Aspectos econômicos, tecnológicos, fitossanitários e logísticos também influenciam o desempenho do setor. Ainda assim, chama atenção o fato de que os dois episódios mais intensos de El Niño das últimas décadas tenham coincidido com reduções significativas na produção nacional de grãos.

A explicação está menos na intensidade do fenômeno e mais na localização das áreas agrícolas. Hoje, estados como Mato Grosso ocupam posição central no abastecimento global de soja e milho. Quando essas regiões enfrentam calor excessivo e irregularidade de chuvas, os impactos tendem a superar os benefícios observados em parte da Região Sul.

As projeções mais recentes apontam para o início de um El Niño já no final de junho. Há indicações de que o fenômeno poderá persistir até o primeiro semestre de 2027. Ainda é cedo para estimar sua intensidade ou duração, mas os antecedentes recomendam cautela.

O histórico recente sugere que a agricultura brasileira pode estar mais exposta aos efeitos adversos do fenômeno do que estava há vinte ou trinta anos.

Existe ainda um componente competitivo frequentemente negligenciado. Em diversos episódios de El Niño, áreas produtoras dos Estados Unidos registram condições mais favoráveis para o cultivo de soja e milho, especialmente quando o fenômeno contribui para ampliar a disponibilidade hídrica durante fases críticas do ciclo agrícola.

Embora os resultados variem de acordo com a intensidade do evento e a região analisada, há situações em que o mesmo fenômeno que cria dificuldades para parte da produção brasileira favorece o desempenho das lavouras norte-americanas.

Para um mercado agrícola cada vez mais globalizado, essa assimetria importa. Menores colheitas no Brasil combinadas a boas safras nos Estados Unidos podem influenciar preços internacionais, fluxos comerciais e margens dos produtores. Em outras palavras, o El Niño deixou de ser apenas uma variável meteorológica e passou a representar um fator estratégico para a competitividade agrícola.

O avanço tecnológico continuará sendo o principal determinante do crescimento da produção brasileira no longo prazo. Mas a experiência recente mostra que ignorar os riscos associados ao El Niño pode ser um erro.

Em um país que se consolidou como potência agrícola global, compreender como a nova geografia da produção responde às mudanças climáticas tornou-se tão importante quanto acompanhar a evolução dos mercados (Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do País; CNN)

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