Percepção do setor é de que ainda faltam políticas públicas e alternativas de financiamento.
O agronegócio brasileiro tem potencial para ampliar em mais de cinco vezes a área irrigada no país, e atingir 55,8 milhões de hectares, mostra um estudo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (USP/Esalq), divulgado nesta terça-feira (16/6). Para alcançar este marco, porém, a percepção é de que ainda faltam políticas públicas e alternativas de financiamento, dado o cenário de margens apertadas no setor, restrição ao crédito e juros elevados.
A irrigação já é vista pelos produtores rurais como uma da principais estratégias para garantia de produtividade e mitigação dos impactos das mudanças climáticas. O rendimento médio das lavouras irrigadas é 30% maior, comparado aos cultivos de sequeiro.
“O El Niño é uma preocupação para os produtores. Onde há previsão de impactos de ondas de calor, na região central em direção ao Nordeste, o produtor que quer irrigar traz essa preocupação. Está no radar do produtor e da indústria também”, diz Luiz Paulo Heimpel, Vice-presidente da Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação da Abimaq (CSEI).
Entretanto, “a gente enxerga que tem um represamento da liberação de recursos (para investimento pelo Plano Safra). É necessário alternativas de financiamento aos produtores que querem ampliar ou ser novos irrigantes”, pontua o executivo.
Neste sentido, Heimpel acredita que é importante ter os dados do estudo, que mostram a relevância da irrigação para a produtividade das lavouras e os efeitos indiretos para a economia local. A ideia é dar embasamento a políticas públicas que impulsionem a agricultura irrigada, visto que os investimentos em pivôs e gotejamento também dependem de infraestrutura como energia disponível e outorgas de uso da água.
De acordo com o levantamento, a agricultura irrigada ocupa aproximadamente 8,19 milhões de hectares, com destaque para o uso de pivô central, que abrange 29,4% da área, seguido pela irrigação por inundação, com 24,64%, predominantemente usada em áreas de cultivo de arroz em terras baixas.
Atualmente, a área de plantio de grãos do país está estimada em 83,5 milhões de hectares para a safra 2025/26, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O potencial para expansão da agricultura irrigada, com cerca de 55,85 milhões de hectares de terras aptas para essa prática, estaria dividido entre 26,69 milhões de hectares em áreas agrícolas de sequeiro, 26,73 milhões em pastagens e 2,43 milhões em áreas agropecuárias com disponibilidade hídrica subterrânea.
Regiões
O estudo elencou sete cidades onde há infraestrutura de irrigação e, consequentemente, seriam os maiores polos com potencial de crescimento, são eles: Barreiras e Santa Maria da Vitória, na Bahia; Unaí e Patos de Minas, em Minas Gerais; Sorriso, em Mato Grosso; e Cruz Alta e São Luiz Gonzaga, no Rio Grande do Sul.
Juntos, estes municípios somam 704 mil hectares irrigados por pivô, equivalentes a 37,1% da área irrigada agrícola nacional. A soja responde, em média, por 67,8% da área irrigada do Brasil e atinge 98,2% em Mato Grosso.
As projeções do potencial de expansão apontam cerca de 270 mil hectares adicionais em Minas Gerais, 267 mil hectares na Bahia, 137 mil hectares no Rio Grande do Sul e 112 mil hectares em Mato Grosso.
“Sorriso apresenta o maior potencial de incremento absoluto da área irrigada até 2040, com 212 mil hectares projetados, seguido por Patos de Minas (182 mil ha), Barreiras (149 mil ha) e Santa Maria da Vitória (117 mil ha)”, diz o levantamento da USP/Esalq.
Produtividade
O modelo de análise de impacto da irrigação por pivô na produtividade da soja entre 2013 e 2023, mostrou que para cada aumento de 1% na área irrigada, há um crescimento de +0,0698% no rendimento da soja por hectare, de acordo com o estudo.
Regionalmente, os efeitos deste incremento de 1% na área irrigada para o rendimento da soja teriam variações positivas, embora distintas, na Bahia (+0,1405%), em Minas Gerais (+0,0594%) e em Mato Grosso (+0,0631%).
“Em termos práticos, ao considerar os níveis médios de produtividade da soja em cada região, estima-se que a ampliação de 100% na área irrigada, isto é, a duplicação da área irrigada, estaria associada a aumentos de produtividade de 5,33 sacas/ha na BA, 2,27 sacas/ha em MG e 2,41 sacas/ha em MT”, destaca a análise.
Efeito econômico
Usando como base o incremento de 1.567 hectares ou a 28,7% da área irrigada média municipal, entre o intervalo de 2013 e 2023, o valor adicionado bruto da agropecuária cresce aproximadamente R$ 8,27 milhões, a produtividade média das culturas temporárias aumenta R$ 164,58 por hectare e o emprego formal no setor se eleva em nove postos. No mesmo intervalo, a demanda por crédito agrícola recua R$ 5,57 milhões.
No longo prazo, os efeitos da expansão de 1.567 hectares de irrigação convergem para R$ 13,98 milhões no valor adicionado, R$ 127,42 por hectare na produtividade das culturas temporárias, três empregos formais adicionais e R$ 7,0 milhões na demanda por crédito.
“Isto significa que para cada hectare irrigado ocorreria ampliação de aproximadamente R$ 8.921 no Valor Adicionado Bruto da agropecuária do município”, acrescenta o levantamento (Globo Rural)




