Por Márcia De Chiara
Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, lidera uma frente de trabalho para traçar uma política de Estado para agricultura e um estudo, batizado de Agro Brasil 50, que vai tratar da estratégia para setor nos próximos 50 anos.
Entrevista com Roberto Rodrigues ex-ministro da Agricultura e professor emérito da FGV.
É na faixa tropical do planeta, que compreende países da América Latina, da África subsaariana e de parte da Ásia, que deve haver um aumento da produção agrícola voltada para alimentos, fibras e energia nos próximos anos, prevê o ex-ministro da Agricultura e professor emérito da Fundação Getulio Vargas (FGV), o engenheiro agrônomo, Roberto Rodrigues.
“O Brasil é o único país dessa região que desenvolveu uma tecnologia de agricultura tropical sustentável, de fato”, afirmou o ex-ministro ao Estadão.
Ele acredita que o papel do País será o de liderar e ensinar os demais da região a trilharem o mesmo caminho no agronegócio. “O modelo lastreado na tecnologia pode ser replicado e acho que esse é o papel do Brasil no século 21 em diante.”
Depois da soja, que começou no Brasil de forma inexpressiva nos anos 1960 e hoje é o principal produto agrícola de exportação, a perspectiva é de que o Brasil repita com o trigo o mesmo feito.
Em razão de um variedade nova de trigo irrigado plantado no Cerrado e desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a indicação, segundo Rodrigues, é de que o Brasil se torne, daqui a cinco anos, exportador do grão. Desde os primórdios, o País sempre importou trigo para fechar a conta do consumo doméstico.
No momento, o ex-ministro desenvolve duas frentes de trabalho no agronegócio. Em uma delas, reúne uma grande equipe multidisciplinar, formada por técnicos da FGV e de outras instituições públicas e privadas, para traçar uma política de Estado para o agronegócio brasileiro.
O estudo contempla cinco pontos básicos para o desenvolvimento do setor: tecnologia, acordos comerciais, logística e infraestrutura, políticas públicas voltadas para renda no campo e organização rural por meio de cooperativas e sindicatos.
Outra frente de trabalho coordenada pelo ex-ministro é sobre o projeto batizado Agro Brasil 50, no momento negociado com Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O projeto vai tratar de estratégia agrícola. Isto é, a intenção é saber o que 45 países do mundo estarão produzindo e comprando do setor agro até o ano 2050.
O estudo Agro Brasil 50 será um direcionamento, vai dar uma orientação para o produtor e para o governo, diz Rodrigues. E será complementar com o outro estudo do plano estratégico do agro brasileiro. “Um completa o outro”. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Qual é o futuro da agricultura tropical, depois desses conflitos, de toda essa transformação climática?
O mundo tropical, que compreende a América Latina inteirinha, toda a África, subsaariana e parte da Ásia também, é um mundo em que há disponibilidade de terra para crescer horizontalmente e a produtividade é muito baixa. É nessa faixa tropical que vai haver o aumento de produção agrícola, seja para alimentos, seja para energia, seja para fibras, é aqui que vai acontecer. O mundo temperado, que pega todo o Hemisfério Norte, já está preenchido.
Claro, vai sempre haver algum progresso, algum avanço com tecnologia. Mas é na faixa tropical que o futuro vai acontecer de verdade. Segurança ambiental, energética, mudanças climáticas, o próprio tema da desigualdade social tem de ser resolvido para ter paz mundial e vai acontecer aqui na faixa tropical. Só que é preciso que haja uma estratégia para isso, que articule essa faixa toda, onde as desigualdades são profundas, edafoclimáticas (solo e clima), étnicas, tecnológicas e de toda a sorte.
Mas o Brasil é o único país nessa faixa inteirinha que desenvolveu uma tecnologia tropical sustentável, de fato. Portanto, o Brasil tem um papel protagônico de ensinar esse mundo tropical a fazer o que nós fizemos, com tecnologia, com regras adequadas, com institucionalização adequada, formando a condição de vida planetária. Esse é o papel do lado tropical que o Brasil deve liderar.
Já está sendo desenhado esse projeto ou ainda está muito distante?
Infelizmente, não há estratégia nenhuma para isso, não há visão clara desse papel que o Brasil tem. Mas a realidade supera a expectativa ou a estratégia e ela vem fatalmente. Tem algumas informações. A gente não presta atenção nisso. Soja é uma cultura asiática, temperada, veio ao Brasil nos anos 1960, muito precariamente. Eu me formei em Piracicaba (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo), há 60 anos. Naquela época tinham 400 mil hectares (plantados) com soja no Brasil, no Rio Grande do Sul, que era a agricultura brasileira temperada e produzia 1.200 quilos por hectare.
A Embrapa tropicalizou a soja. Hoje tem 48 milhões de hectares de soja plantados, produzindo 4 mil quilos por hectare. Essa história é muito curta, são 50 anos. Há 50 anos nós importávamos 30% da comida que consumíamos no Brasil. Hoje exportamos para 200 países, é muito pouco tempo. Então, não obstante, não existe uma estratégia. A realidade supera isso e as coisas vão acontecer fatalmente. Óbvio, se houvesse um trabalho para isso, uma visão estratégica, que organizasse esse processo todo, seria mais rápido e a paz universal viria mais depressa, porque não há paz onde houver fome.
O sr. falou da soja, quais seriam os outros produtos que estariam nessa mesma trilha para evoluir e alimentar o mundo?
No caso brasileiro, há muitos produtos, um deles é o trigo. O Brasil importa trigo desde que se conhece como País. A Embrapa desenvolveu uma variedade de trigo nova para o Cerrado irrigado. E a convicção por parte da Embrapa é de que daqui a 5 anos vamos exportar trigo.
A carne é outro produto que está crescendo. A demanda está crescendo, porque à medida que a população cresce e a renda per capita cresce, a demanda por proteína animal também cresce. E o Brasil, de novo, é o país com essa condição favorável. Com uma característica: a área de pasto está caindo e a produção de carne está subindo.
Há um “X” nesse processo todo, de novo tecnologia tropical sustentável. E a questão da sustentabilidade é facilmente verificada em vários pontos do agro brasileiro no caso de grãos, que é muito visível. A área plantada com grãos no Brasil, de 1990 para cá, cresceu 112%, dobrou em 35 anos. E a produção cresceu 540%, 4 vezes mais do que a área plantada, por causa de tecnologia.
Como o sr. avalia tecnologia da agricultura tropical?
O processo tecnológico tropical é único no planeta e é sustentável. Hoje o Brasil cultiva mais ou menos 60 milhões de hectares com grãos por ano, na verdade são 84 milhões. O Brasil é o único país do mundo que faz duas safras na mesma área e até três, a soma é 84 milhões de hectares.
Se nós tivéssemos hoje a produtividade por hectare que tínhamos em 1990, seriam necessários mais de 124 milhões de hectares a mais para produzir a safra nesse ano. Portanto, isso significa que nós preservamos 124 milhões de hectares de desmatamento. Isso é sustentabilidade na veia, legítima, verdadeira, não demanda nenhuma prova. A prova está dada pelos números.
E em outros setores?
A nossa matriz energética é 50% renovável, mas no mundo é 15%. Portanto, a nossa é 3 vezes maior do que a do mundo. Só que desses 50% que é renovável no Brasil, 60% vem do agro: eletricidade do bagaço de cana, combustível etanol de milho ou de cana, biodiesel, de soja, ou de sebo bovino, biometano de resíduos agrícolas, lenha, tudo isso é agricultura.
O Brasil tem 30% da sua matriz energética vinda da agricultura. Isso é replicável no mundo tropical, inteirinho. Essas duas coisas, alimento e energia, são a matriz da vida no mundo inteiro, e o Brasil pode ser o paraninfo desse processo. Não sendo só exportador de comida ou de energia, mas ensinando todos os países a fazerem, com modelos desenvolvidos que usam tecnologia tropical sustentável.
E o que falta para a gente caminhar mais nesse sentido?
Uma estratégia ampla, público-privada, estratégia de Estado, não de governo. Uma estratégia de Estado que considere um conjunto grande de temas dos quais eu destacaria cinco.
Quais?
O primeiro é tecnologia. Esse é um processo dinâmico, um país sem ciência não tem futuro, e nós temos evoluído menos recentemente do que no passado. Então, esse é um tema que está perdendo velocidade. Precisa investir sempre em tecnologia, que foi a grande plataforma brasileira para avançar no mundo inteiro.
O segundo ponto são os acordos comerciais. Em agricultura, aprendi na vida, mas há duras penas, que a abundância é muito pior do que a escassez. Porque a abundância implica em estoques. Então, estoques inibem o mercado de funcionar adequadamente. Se o comprador sabe que tem estoque, só compra o que ele precisa e paga o menor preço possível.
A escassez não, exige uma ação completa e concreta para aumentar a produção, e isso implica emprego, renda, riqueza e mais fartura para todo mundo. Então, é preciso que haja acordos comerciais que permitam o crescimento da agricultura brasileira. Acordos comerciais são essenciais para garantir esse mercado, para não ficar pendurado no excesso de produção, que destrua a renda para todo mundo.
Quais outros temas?
O terceiro ponto é logística e infraestrutura. No caso brasileiro, isso é evidente, na África também é evidente. A agricultura brasileira, até os anos 1980, era costeira. Por quê? Porque o consumo era costeiro. As capitais são costeiras. Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Curitiba (PR), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES). No Nordeste, todo o consumo era na costa.
Aí o governo brasileiro, nos anos 1970, 1980, decidiu interiorizar o desenvolvimento para ocupar o espaço fisicamente, politicamente e economicamente. Foi-se então a conquista do Cerrado. O Cerrado, nos anos 1970 e 1980, eu ouvi, ninguém me falou: ‘Cerrado nem dado nem herdado’. Era terra infértil, árida, não tinha matéria orgânica, ruim.
Mas o Agronômico de Campinas (Instituto Agronômico de Campinas) iniciou um processo de conquista do Cerrado, que a Embrapa depois desenvolveu com vigor e domou o Cerrado. E aí o governo criou um programa de avanço para o Centro-Oeste, para manter a agricultura, liderado pelos gaúchos. Os gaúchos deram o grande start a esse processo. Na maior epopeia agrícola do mundo no século 20. Não há nada parecido com o que o Brasil fez no século 20. Gaúchos, paranaenses, catarinenses, paulistas, capixabas, mineiros, nordestinos.
Você observa lá um vigor híbrido misturando gaúcho com pernambucano, catarinense com sergipano. E aquilo é um caldo de cultura, de vigor híbrido que só cresce. Lá é o Maracanã, quando vai ser jogada a Copa do Mundo de alimentação. Mas o trem não foi, a estrada não foi, o armazém não foi. Falta logística e nós perdemos por causa disso. Primeiro tema, tecnologia. Segundo ponto é comércio. Terceiro, infraestrutura logística.
Qual é o quarto tema?
Políticas públicas, sobretudo voltadas para a renda no campo. No mundo inteirinho desenvolvido, a agricultura é fortemente subsidiada, subvencionada a níveis tais que muitas vezes inibem o nosso crescimento lá fora por causa da proteção. Não quero proteção para nada. Mas quero regras que assegurem renda. Quando fui ministro (da Agricultura entre 2003 e 2006, no primeiro mandato ano do governo Lula) eu criei o seguro rural. O seguro rural já tem 23 anos. Mas como o governo não faz a parte dele, até hoje não tem nem 8% dos brasileiros segurados.
Aquele acidente no ano passado no Rio Grande do Sul que foi enchente, uma tragédia, o seguro teria resolvido. Secas, geadas, seriam resolvidas com o seguro. Então, é de uma falta de sensibilidade não haver um seguro digno desse nome no Brasil. Hoje trabalhamos para isso fortemente. A senadora Tereza Cristina (Progressistas-MS) tem uma lei funcionando, sendo aprovada no Congresso, que eu espero que melhore um pouco esse processo.
O seguro é a base por duas razões. Primeiro, porque nenhuma seguradora oferece seguro rural para o produtor que não tenha tecnologia. Então, o seguro é um padrão que sobe a régua da tecnologia para todo mundo. É um benefício para o País. E segundo, com o seguro não precisa de banco público. Banco privado vai dar crédito para agricultura. Nos Estados Unidos não tem banco. Na Europa não tem banco, nada.
Banco privado oferece, porque tem seguro. Ele está garantido na integridade dele. E todo mundo da cadeia produtiva está estabilizada. O seguro é a base de um programa de renda efetivo no País. Esse quarto ponto, o seguro, é muito governo. Óbvio que o governo tem seguro privado. Mas o governo tem que deter um papel a jogar na subvenção ao prêmio.
E o quinto ponto?
O quinto ponto cabe ao setor privado. É a organização rural, que passa por dois mecanismos. Um de caráter associativo ou sindical, que é de representação do setor. Outro é econômica, a cooperativa. E hoje o cooperativismo, que é uma doutrina cujo instrumento é a cooperativa, tem um papel central no mundo inteirinho.
Por quê?
Com a globalização da economia, a margem por unidade de produto agrícola ficou muito pequena. De modo que a renda só se dá com escala. E o pequeno produtor não tem escala. Então, ele está morto. Ou tem subsídio, que nós não temos. Ou tem escala, que não tem. A solução é uma cooperativa. Ele faz a sua escala na cooperativa. Que, ademais, agrega valor. Oferece a tecnologia mais adequada, ao menor custo possível e comercializa, inclusive internacionalmente.
Então, esses cinco pontos tecnologia, infraestrutura logística, política de renda, acordos comerciais e organização são a base de um longo projeto. Tem muito mais coisa. Eu diria que são componentes elementares de uma estratégia, cujo papel de embrulho se chama sustentabilidade. Porque, no fundo, é o resultado de tudo isso. É o resultado da ciência, da tecnologia, do empreendedorismo, das políticas públicas. Tudo tem de ser sustentável, sob pena de não ser competitivo em termos globais.
E como é que o Brasil está nesses pontos?
Muito precariamente. Nunca tivemos preocupação com planejamento estratégico.
Isso é questão de Estado?
Falta política de Estado.
Porque a Embrapa (Empresa Brasileira da Pesquisa Agropecuária) é um ícone importante. Mas só ela que funciona neste momento?
E com dificuldades crescentes, porque faltam recursos. Agora mesmo a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) está criando um fundo privado de apoio à pesquisa. Não é para a Embrapa, é para a pesquisa. Para o pesquisador, para o projeto de pesquisa. Quem tiver um projeto de pesquisa e não tem recurso para isso. CNA me pede para ser o presidente desse fundo. Estou montando esse projeto agora.
Mas também estou formando uma equipe grande aqui, na FGV, com outras instituições públicas e privadas também, pensando na política de Estado para o agronegócio brasileiro, pensando no mundo. A questão do abastecimento interno está resolvida. Não é mais uma questão. O problema hoje de fome no Brasil é de renda, não é mais de produção. Resolvemos isso com a Embrapa e outros institutos de pesquisas.
O Instituto Agronômico de Campinas foi fundado por Dom Pedro II. Ele já tinha a visão de agricultura desenvolvida. Mas hoje o Brasil tem de olhar para o mundo inteiro nesse conceito do tropical sustentável. E eu tenho de fazer um novo modelo de entrega para o mundo de energia, fibra, alimento, gerando renda para os países mais pobres, na África, sobretudo na Ásia também, afinal é a América Latina, via agricultura, que vai crescer a produção agrícola.
E ensinando esse pessoal todo a fazer, considerando as desigualdades de cada um, de cada país, em relação a outro. A própria institucionalidade de cada país é diferente, de regime, de governo, é tudo diferente. O modelo lastreado na tecnologia pode ser replicado. Acho que esse é o papel do Brasil no século 21 em diante. E aí, eu acho que o Brasil pode ser o campeão mundial da segurança alimentar e energética. E, portanto, campeão mundial da paz. Não pode haver maior título para um país do que ser campeão mundial da paz.
O sr. está desenhando esse projeto?
Sim.
E em que pé está? Tem uma equipe grande trabalhando? Vai ser entregue para o próximo governo?
Não é para o governo. É para o Estado. O governo, evidentemente, é uma parcela que vai receber esse projeto. É uma proposta de desenvolvimento. Não é uma consultoria, é um estudo.
E reuniu muita gente para produzir esse estudo?
É uma equipe multidisciplinar que está sendo criada.
Quem faz parte da equipe?
Tem técnicos, vários técnicos, agrônomos, economistas, sociólogos também. É uma visão integral de Estado, que eu pretendo discutir com as instituições públicas e privadas. Governo, parlamento e entidades de classe urbanas e rurais. Não é uma coisa de agricultura. É para o País. Eu insisto muito em um tema. Se o Brasil for o campeão mundial da paz, não é o agricultor o campeão. É o bancário. É o motorista de caminhão que leva o produto para o porto, leva o adubo para o interior.
É o consumidor que leva para a feira o seu produto. Algodão, seda, ou lã, tudo é agro. Esse é um tema que é transversal, é de Estado. Agora há ensejo do acordo Mercosul e União Europeia. Trabalho há pelo menos mais de 20 anos, antes ser ministro, como ministro e depois ser ministro pelo acordo. Acho fundamental esse acordo para ambos os grupos União Europeia e para Mercosul também e o Brasil, particularmente.
Porque a Europa reage tanto assim, sobretudo a França? Macron (Emmanuel Macron, presidente da França) é contra (o acordo). Argumenta que há perda de competitividade deles em relação a nós. E é verdade. Até entendo que esse argumento seja razoável e justificável. Mas a população europeia do campo é 2%, 3%. O PIB (Produto Interno Bruto) agrícola é pouco, é 2%. Então, economicamente e socialmente não se sustenta esse processo, porque é o consumidor, que é imensa maioria, vai ser beneficiado.
Então, qual que é a lógica deles lá?
A lógica, a meu ver, é antropológica e sociológica. O que eu acho? Eu acho que o europeu tem orgulho da sua agricultura e sabe que só existe para agricultura, porque só subsistiu pela agricultura. É um continente em que 4 meses por ano não se pode produzir nada porque tem neve. O europeu foi obrigado a fazer agricultura em seis meses por ano a qualquer custo, a qualquer preço, para garantir a vida nesses países.
O francês tem orgulho da champanhe que reproduz lá, o italiano tem orgulho do seu presunto de Parma, o português do seu vinho do Porto, o holandês das suas flores, o alemão da sua cerveja, das suas salsichas. Cada um tem orgulho do que a agricultura produziu para a vida nesses países todos.
Quando há uma reação na Europa contra abusos governamentais ou burocráticos em relação à questão ambiental, tirando a competitividade do europeu, não é agricultor que reclama, é o consumidor, porque ele acha que está sendo afetado. São a honra e o orgulho da agricultura europeia. O europeu tem isso enraizado.
Nós só estamos aqui, subsistimos a todos e a todas as guerras, a tudo, porque a agricultura fez isso para nós. A vida foi mantida pela agricultura. Esse conceito está embutido na alma do povo europeu. Isso não acontece no Brasil. No mundo tropical não acontece isso. A agricultura é uma coisa secundária.
Por quê?
Porque não tem essa cultura. Na história o Brasil, a comida está no supermercado. Mas não tem comida sem produção de alimento. Supermercado é um instrumento de transformação da produção e consumo, apenas. A feira é um hífen entre a produção e o consumo e todo mundo olha esse hífen como o centro do processo, mas o centro fica atrás, é na produção.
Na Europa isso é claro. Nos Estados Unidos também. No mundo temperado é claro, porque o limite para eles é muito maior, dado pelas condições climáticas. Nós não temos limite.
Isso é ruim para gente?
É horrível. Porque essa falta de orgulho que nós temos ou que nós não temos da agricultura, elimina expectativas e políticas de Estado. O executivo é formado por técnicos que não têm a menor noção do que é produzir alimento. Então, eu tenho certeza que falta para nós esse orgulho. E falta esse orgulho porque não temos educação no Brasil. Nosso pecado mortal é a falta da educação. Qualquer dado sobre a história da educação brasileira vis-à-vis ao resto do mundo é precária.
Sem informação, sem formação, sem cultura, que na Europa está circulando na veia. O produtor de trigo europeu, o produtor de pão na Europa, ele é o rei da vida. Sem ele não haveria vida. Aqui esse conceito não existe, porque o tropical é dado. Por trás disso, evidentemente, há algumas variáveis que realimentam essa sensação.
As capitanias hereditárias têm histórias de privilégios concedidos, os barões do café, os barões do açúcar. Essa ideia, que é verdadeira, aconteceu, de fato, um processo de concentração lá atrás e ficou. E hoje não se observa a realidade dos fatos do Brasil. Hoje as cooperativas agropecuárias respondem por 54% da produção brasileira e 80% dos cooperados são pequenos e médios produtores. É a pequena produção que faz isso. É uma força enorme. E eu tenho uma responsabilidade nesse negócio sem falsa modéstia, mas também sem presunção.
Como assim?
Comecei uma cooperativa de crédito na minha cidade, Guariba (SP), em 1974. Era uma coisa meio romântica. Mas eu fiz por necessidade. Mas na Constituição brasileira de 1988 conseguimos colocar um artigo dando isonomia a cooperativa de crédito ao sistema financeiro. Naquele tempo a cooperativa de crédito não podia ter cheque, não podia cobrar impostos, não podia fazer depósito à vista nem a prazo, não podia nada.
Com a Constituição de 1988, tudo ficou possível. Hoje temos três bancos cooperativos que já respondem por 20% crédito rural. Era zero há 20 anos, hoje é 20% e crescendo. Cooperativismo é doutrina, tem que ser ensinado. Diria que o associativismo de maneira geral é um dos pilares desse projeto. O cooperativismo é um pilar econômico do processo.
É uma tendência desmamar a agricultura dos recursos públicos para o setor privado?
Quando fui ministro, criei alguns mecanismos, como o seguro rural para tornar o produtor independente. Por exemplo, choveu, tem que prorrogar a dívida. Não, o seguro rural resolve privadamente. Criei LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), o CDCA (Certificado de Direitos Creditórios do Agronegócio), que são mecanismos financeiros que hoje respondem por 60% do financiamento da agricultura.
Hoje alimentado por Fiagro (Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais) e por outros que surgiram depois disso com esse objetivo. Banco do Brasil e Caixa têm que ficar na área social, têm que financiar progresso, o desenvolvimento econômico para todo mundo. Mas o setor privado tinha que garantir o mercado funcionando. Então, criei esse mecanismo todo para esse fim. O Brasil vai crescer, então precisa ter instrumentos privados. E foi por isso que eu criei esse mecanismo todo, com essa visão lá atrás.
E aí, depois a coisa não andou muito?
O governo não fez a parte dele e o Estado não entendeu. Hoje tem uma frente parlamentar muito rigorosa e criamos o IPA, que é o Instituto Pensar Agro, que é uma associação de 56 entidades de classe. Está todo mundo no IPA, que é o chapéu pensador da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária). Então, hoje tem uma metodologia interessante.
O IPA recebe da classe rural as demandas, transforma em projetos que vai a FPA, que vira lei ou não. Hoje tem um instrumento que é público/privado, mas só no parlamento. Tem que melhorar isso com o executivo com o judiciário para que haja uma visão integrada de Estado e com a sociedade urbana. Anos atrás a atriz francesa Catherine Deneuve ganhou o prêmio do cinema europeu e dedicou o prêmio aos agricultores franceses. Um repórter perguntou a ela: como você, uma diva, dedica esse prêmio a agricultura? E ela respondeu: como a senhor acha que estou viva? A agricultura me alimenta. Esse pano não nasce da loja, não.
O senhor está escrevendo no papel, papel é agricultura. Tudo é agricultura. Agricultura é a vida. E quem dá a vida são os agricultores franceses. Fiquei apaixonado por ela e pela França. Isso é cultura, está dentro do DNA da pessoa. Ela sabe a verdade das coisas. Essa coisa não chegou aqui ainda.
Quem desenvolveu a semente de soja? Um cientista, formado em uma universidade que fica na cidade. Ou seja, se não há cidade, não tem a universidade, não tem o cientista, não tem a semente de soja. É na cidade que tem a fábrica de trator, de pneu, de defensivo, de fertilizante. Na cidade tem banco, seguradora. A cidade não sabe, mas ela trabalha para o agro. O produtor rural não existe sem a cidade para produzir e comercializar a sua produção. A cidade morre de fome e nua se o produtor não fizer isso. São duas metades do mesmo corpo da sociedade. Nos países desenvolvidos isso está claro, mas aqui não está claro ainda.
E nesse projeto que sr. está desenvolvendo tem essa parte de conscientizar?
É a base de tudo, é um problema de Estado. Se você olhar hoje a indústria brasileira perdeu o espaço. Qual a indústria que está bem no Brasil hoje? A do agronegócio. Indústria de defensivos, de máquinas agrícolas, de semente, de alimentos. Essa indústria está firme no Brasil. O PIB brasileiro hoje é 27% agro. A indústria já foi 28% e hoje é 11%. E o que tem na indústria é agricultura que está sustentando. Não é nem um mérito da agricultura isso aí, mas a realidade é essa. Aconteceu assim, por quê? Porque a agricultura ficou de costas para Brasília e fez o que tinha que ser feito e sem estratégia nenhuma.
Qual é o próximo passo da agricultura?
Estratégia. O Estado tem que participar junto com o setor privado. Tem que ter regras que o Estado controla e o setor privado cumpre. O interesse é dele. Tem o problema de insegurança jurídica, invasão de terra, desmatamento ilegal. Isso é crime. Tem que acabar com o crime. Quem põe fogo, quem desmata não é agricultor, é bandido. Tem que punir. Até porque o concorrente lá fora sabe disso, que não é um produtor que desmata ilegalmente, que bota fogo, mas isso é usado como argumento.
Porque o consumidor lá de Hamburgo, na Alemanha, sabe que a Amazônia é um negócio mítico, que tem que ser preservado, porque tem a propaganda. Então, o cara bota lá essa carne é da Amazônia, o cara não compra. Não é da Amazônia, mas tem desmatamento ilegal, tem invasão de terra, tem incêndio criminoso, tem ilegalidade.
O nosso código florestal é a lei mais importante do mundo em termos ambientais. É maravilhosa essa lei. Não é cumprida. Então, esse é o papel do governo, cumprir a lei, com a Justiça funcionando, sem corrupção, sem polarização ideológica. A Constituição tem que ser respeitada.
O sr. vai entregar esse projeto quando?
Não tenho prazo, não. Eu não quero misturar com a eleição. A minha ideia é daqui a um ano estar com esse negócio pronto.
Esse projeto será entregue para quem?
Para todo mundo. Para o parlamento, para o executivo, para o judiciário, para a imprensa, para a sociedade, para as entidades de classe, FIESP, CNI, CNA, CNC, todo mundo. É, porque todo mundo vai participar desse processo. Não é um trabalho da agricultura, é um trabalho do povo brasileiro.
Isso pode provocar um salto ainda maior na agricultura?
Eu espero. E com essa vertente do agro brasileiro ensinando o mundo tropical a pescar. Biocombustível, nós temos há 50 anos.
Com a guerra do Golfo Pérsico, ficaram expostas algumas fragilidades do agronegócio. Uma delas é a dependência dos fertilizantes, do diesel. Como é que o sr. vê essa questão?
Nós temos que ter acordo comercial. O potássio nós temos, mas é insuficiente, vamos ter de importar a vida inteira. Fósforo também. Hidrogênio menos, porque dá para fazer com gás. Hoje importamos 85% dos fertilizantes e 95% do potássio. É uma dependência aceitável. Houve erro nisso? Não, não houve erro. Esse ano é um ano ruim, primeiro porque os custos subiram demais: fertilizante, defensivo, juro e os preços (dos grãos) caíram.
Só vai sobreviver quem tiver produtividade alta, que é tecnologia e custa, e clima favorável. E no clima você não manda. As variáveis já indicavam um ano difícil, cuja renda seria limitada. A última safra foi enorme porque o clima correu bem para o Brasil. Uma safra recorde de novo. Café cresceu muito, laranja melhorou muito, só cana que está ruim, proteína animal cresceu também. Foi um ano bom de oferta. Portanto, preços baixos e custo alto: tempestade perfeita, mas tudo bem.
Agora veio a guerra, que potencializou esses fatores para frente. Esse ano é ruim: metade do pessoal atravessa, metade vai ficar devendo. Mas, para ano que vem, fertilizante estará mais caro, diesel mais caro, então a produção da safra 2026/27 será menor. Vai ter inflação. Esse ano só produtor está sofrendo.
Consumidor não está sofrendo, porque tem abundância e o preço está lá embaixo. Ano que vem, não. Mantidas essas condições, o produtor não vai poder comprar adubo. Já está com problema, porque não é o preço (do adubo) só, é chegar o insumo em tempo hábil.
O País teria de se estruturar para ter produção local de adubo ou usar bioinsumos no lugar desse adubo? Tem saída?
Tem saídas relativas. Porque nós não temos ofertas de fertilizante do tamanho que se precisa. Porque a demanda mundial está crescendo. Nós vamos sempre importar 40%, 50%. Não tem problema. Vamos reduzir à metade a nossa demanda (externa) e vamos produzir mais aqui. Mas é um processo lento.
Vamos importar fertilizante a vida inteira, talvez defensivo, não. Nós temos de trabalhar com isso num claro entendimento de que nós temos de dar comida e outros têm de dar fertilizante ou a máquina ou alguma coisa para produzir comida para ele. Tem de negociar. Fazer uma fábrica de fertilizante é algo de longo prazo. É um processo lento, de planejamento estratégico.
E como fica agregação de valor?
Tem de negociar. Eu não quero vender soja e milho para China. Quero vender um frango, com soja embutida na fabricação. Por que a China quer fabricar lá, está errada? Está certa. Eu estou errado? Estou certo. Então, tem de negociar isso. Tem de criar um processo de adequação aqui e lá.
O sr. está tocando outros projetos?
Estou fazendo um outro projeto que está sendo negociado com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ele se chama Agro Brasil 50. É estratégia só agrícola. São duas perguntas que serão respondidas: quem vai produzir o que no mundo de produtos agrícolas daqui até 2050? Quem vai consumir o que no mundo da daqui até 2050? O que eu quero discutir? Mudanças climáticas, terra disponível, água disponível, mudanças alimentares, sistemas tecnológicos de alternativa energética. Ao todo são 15 variáveis que interferem na produção. Quem vai produzir o que e vai consumir o que no mundo para dar uma direção estratégica.
Como está esse plano?
Estamos começando. É a Fapesp, FGV e Esalq. Mas eu vou te contar uma das questões que pretendemos responder. Nós colhemos hoje uma produção de soja plantada em 48 milhões de hectares e a produção de 28 milhões de hectares de soja foi exportada para a China. A China está anunciando 10 milhões de hectares de soja na África. O que eu faço com a produção de 10 milhões de hectares de soja?
Se a China está na África, não é melhor eu plantar sorgo ou gergelim? E por quê? Quem vai produzir o que? Eu criei os adidos agrícola (no Itamaraty). Hoje são 40. Essa informação virá deles. O que a China vai fazer? O que eu faço com a soja? Eu me lembro nos anos 1950, o Brasil era de longe o maior produtor e exportador de café. Criou-se a OIC (Organização Internacional do Café) para desenvolver o café no mundo.
Naquele tempo, o IBC (Instituto Brasileiro do Café) era quem exportava café. A iniciativa privada não exportava nada, era tudo governo. Comprava café do produtor e exportava. De repente, o mundo se encheu de café, o preço despencou. Tinha um monte de café estocado, comprado por um preço maior do que valia no mercado. Foi uma quebradeira geral. O que o IBC fez? Jogou milhares de sacas de café no mar. Queimou café em Minas Gerais. O preço do café caiu e o problema foi resolvido.
Não sofremos nada. O dinheiro era do Estado, era do IBC. O povo pagou. Fazendo uma analogia para a soja, se uma produção equivalente a 10 milhões de hectares fosse descartada por causa de preços baixos da soja entupiria e o Atlântico, não tem como jogar fora isso aí. Hoje o mundo tem outra escala.
Quero entender com clareza quem vai produzir o que e por que e quem vai consumir o que e por que, considerando 15 variáveis, em 45 países importantes que tenham escala e peso no comércio global. O estudo Agro Brasil 50 será um direcionamento, vai dar uma orientação o para o produtor e para o governo. E vai se complementar com o outro estudo do plano estratégico do agro brasileiro. Um completa o outro (Estadão)




