Vietnã quer replicar “jeitinho brasileiro” de plantar café

Por Isadora Camargo

O segundo maior produtor de café no mundo, o Vietnã, está de olho nas tecnologias e na cafeicultura irrigada do líder do ranking: o Brasil. Na semana passada, representantes vietnamitas visitaram lavouras de café conilon no Espírito Santo e ficaram “encantados” com algumas tecnologias espalhadas nas lavouras, algo que para os brasileiros já é premissa básica de desenvolvimento dos talhões.

As tecnologias são as colheitadeiras de café especializadas no tipo do grão conilon, algo que, para os vietnamitas, é uma das maiores inovações de produtividade, já que o cultivo de café no país asiático é totalmente manual. Além do maquinário, a estufa com mudas de clones das variedades mais resistentes às variações climáticas deixaram os visitantes estrangeiros boquiabertos.

Durante a visita, o idioma não foi um limite para dezenas de perguntas de como se faz, como se adapta ou se dava para levar uma daquelas mudas para replicar no território sul-asiático. Entre risos, os produtores vietnamitas sabiam que não era possível levar nada para casa além de um caderno de anotações e uma série de contatos de telefone de brasileiros. O motivo? Segurança biológica.

Fotos e mais fotos. Vídeos. Tudo registrado para tentar replicar a receita de produtividade dos campos do Espírito Santo, que se tornou referência em pesquisa sobre café conilon no mundo. Depois da visita, em uma das reuniões entre vietnamitas e brasileiros, o destaque dos visitantes foi: “vocês tem o Incaper”.

Há décadas, o Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural) ocupa um papel de destaque na pesquisa sobre o conilon, espécie que se tornou uma das marcas da agricultura capixaba. O trabalho desenvolvido pelo instituto é referência no melhoramento genético da cultura e envolve pesquisas que vão da seleção de plantas mais produtivas e adaptadas às condições climáticas à resistência a doenças, tolerância à seca e qualidade dos grãos.

A partir desse esforço científico, o Incaper desenvolveu cultivares clonais que ajudaram a elevar a produtividade e a transformar a cafeicultura de conilon no Espírito Santo, contribuindo para que o Estado se consolidasse como um dos principais polos de produção da espécie no mundo. E para os vietnamitas isso é “privilégio”.

Em entrevista ao blog, Thai Nhu Hiep, vice-presidente da Vicofa (Associação Vietnamita de Café e Cacau), elogiou os produtores capixabas pela gestão das lavouras e por encontrarem soluções de plantas mais resistentes e processos de beneficiamento integrados à tecnologia, enquanto o Vietnã ainda planta o café “colocando sementes no solo”. Ele espera levar os aprendizados e exemplos do Brasil para os associados.

Atualmente, a Vicofa possui quase 100 membros, incluindo empresas envolvidas na produção, processamento, aquisição e exportação de café e cacau.

El Niño é preocupação latente 

A busca pela receita da pesquisa empírica do Brasil se dá, também, pelos riscos climáticos que se delineiam. O Vietnã pode até ter uma safra maior de café em 2026/27, mas o El Niño coloca essa recuperação em risco, especialmente porque o fenômeno pode trazer calor e seca às principais regiões produtoras, como apontou a Reuters esta semana.

O próprio Nhu Hiep afirmou à agência de notícias que a produção de robusta deve registrar leve crescimento, favorecida pela entrada em produção de áreas que foram renovadas nos últimos anos e agora alcançam rendimentos mais estáveis, mas ainda acha cedo para falar em números. Ao CNN Agro, ele preferiu se concentrar nas estimativas do USDA, de 32 milhões de sacas de 60 kg em 2026/27.

O alerta está no clima. Segundo Hiep, a ameaça do El Niño “não deve ser subestimada”, porque o Planalto Central do Vietnã — coração da cafeicultura do país — é particularmente vulnerável a eventos extremos justamente em etapas decisivas do desenvolvimento da lavoura.

Além da produção, a Vicofa diz que o país está tentando aumentar o valor do café vietnamita, desenvolvendo um perfil de robusta especial, com maior foco em qualidade e origem. A estratégia seria melhorar a remuneração das exportações e permitir que produtores capturem parcela maior do valor da cadeia.

Tanto Brasil, como Vietnã, os dois grandes polos de canéfora/robusta, estão simultaneamente expostos ao El Niño, o que aumenta a relevância desse risco para preços e oferta global, levando as nações do café a buscarem alternativas entre si para melhorar produtividade na próxima safra (CNN)

Related Posts

  • All Post
  • Agricultura
  • Clima
  • Cooperativismo
  • Economia
  • Energia
  • Evento
  • Fruta
  • Hortaliças
  • Meio Ambiente
  • Mercado
  • Notícias
  • Opinião
  • Pecuária
  • Piscicultura
  • Sem categoria
  • Tecnologia

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Edit Template

Quer receber notícias do nosso Diário do Agro?
INSCREVA-SE

You have been successfully Subscribed! Ops! Something went wrong, please try again.

© 2024 Tempo de Safra – Diário do Agro

Hospedado e Desenvolvido por R4 Data Center