Exclusivo: Mosaic prevê falta de fosfatados no Brasil a partir de setembro

Por Gabriella Weiss

Em entrevista, a vice-presidente executiva da companhia, Jenny Wang, afirmou que estima que estoques brasileiros acabem no fim de agosto.

A escassez global de fertilizantes à base de fosfato deve ser sentida pelos produtores brasileiros a partir de setembro, segundo a vice-presidente executiva da Mosaic, Jenny Wang. 

Em entrevista exclusiva à CNN, em meados de agosto, a executiva afirmou que os estoques acumulados pelo Brasil no início do ano ainda evitaram um impacto imediato sobre os agricultores, mas devem se esgotar nas próximas semanas. “Eu acredito que isso deve acontecer no próximo mês ou algo assim”, disse.

Segundo Wang, o Brasil importou volumes elevados de diferentes tipos de fertilizantes fosfatados no início do ano, antes do agravamento dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio. O movimento permitiu a formação de estoques que foram carregados para os meses seguintes. Por isso, embora a produção global da Mosaic já tenha sido reduzida, os produtores brasileiros ainda não sentiram integralmente a restrição de oferta.

A executiva afirmou, porém, que esse cenário deve mudar. “Eles vão sentir”, disse, ao ser questionada se a escassez chegaria ao produtor brasileiro.

Efeitos semelhantes em relação à falta da matéria-prima já foram observados em outros países, nos últimos meses. A diferença entre o momento em que a escassez aparece nos variados mercados está relacionada principalmente ao nível de estoques e à sazonalidade de cada nação.

Na Índia, segundo Wang, os estoques já eram baixos no início do ano, enquanto a temporada agrícola estava prestes a começar. Com isso, o país absorveu rapidamente a restrição de oferta, especialmente de “DAP”, fertilizante fosfatado amplamente utilizado na agricultura indiana.

No Brasil, a Mosaic projeta que a aplicação de fertilizantes fosfatados possa cair até 30%, caso não haja uma resolução para a guerra e a normalização dos fluxos comerciais. Wang ressaltou que essa é uma projeção condicionada à continuidade do atual quadro de restrição de oferta, caso contrário, a projeção mudará.

A executiva também destacou que a menor utilização de fertilizantes ocorre em um momento em que os produtores brasileiros enfrentam outras dificuldades, como condições econômicas menos favoráveis no campo e restrições na disponibilidade de crédito.

Produtividade no campo e El Niño

Wang ponderou, porém, que a redução do uso de fosfatados pode ter consequências sobre a produtividade das lavouras. O efeito pode ser mais acentuado se as condições climáticas forem adversas, alertou a executiva.

Ela citou especificamente o fenômeno de super El Niño em regiões do norte do Brasil e em algumas áreas da Ásia. Mesmo em regiões onde o impacto climático seja menor, a consequência da menor aplicação de fosfatados deverá ficar mais evidente à medida que o ciclo agrícola avance.

Na avaliação da executiva, a menor disponibilidade de fertilizantes pode afetar a produção agrícola e a segurança alimentar.

Como possível efeito sobre os mercados, Wang disse esperar uma recuperação dos preços dos grãos após as quedas observadas nos últimos dois anos. 

“Essa alta [dos preços dos grãos] poderia minimizar os efeitos das altas de fertilizantes. Se a recuperação do preço dos grãos no mercado não refletir essa mudança, os produtores estarão em uma situação ainda mais complicada”, disse.

Brasil ainda é estratégico

Diante da restrição de matéria-prima e dos estoques em queda, a Mosaic vem reduzindo – de forma gradual – a produção de fosfatados em suas unidades brasileiras. Nos últimos meses diferentes unidades foram paralisadas, com a fábrica de Araxá (MG) colocada à venda.

À reportagem, Wang afirmou que os estoques da companhia devem acabar até o fim de agosto e que, a partir daí, haverá uma redução gradual da produção na maioria das unidades da Mosaic no Brasil. A exceção é uma unidade voltada à produção de fosfatos para nutrição animal, que continuará operando.

A executiva estimou que a redução da produção no Brasil pode chegar a 50% ou até superar esse percentual. A companhia está adotando medidas semelhantes nos Estados Unidos, onde reduziu a operação de duas das quatro unidades.

Apesar da redução da produção e da paralisação de algumas estruturas de distribuição, Wang afirmou que a Mosaic não mudou sua estratégia para o Brasil.

“Isso não significa que estamos nos retirando do mercado brasileiro, de forma alguma”, afirmou. “Estamos totalmente comprometidos em estar no Brasil e crescer com o Brasil.”

Segundo ela, as medidas tomadas pela companhia têm como objetivo adaptar a estrutura da empresa ao cenário atual de demanda e oferta.

A executiva afirmou que a Mosaic também busca adequar o negócio de distribuição à demanda dos produtores. A companhia pretende minimizar os efeitos da redução da produção brasileira sobre a distribuição e, ao mesmo tempo, “dimensionar corretamente” a estrutura de distribuição de acordo com o consumo dos agricultores.

A Mosaic também pretende utilizar sua estrutura produtiva na América do Norte para atender à demanda brasileira, caso haja disponibilidade de produto e os agricultores mantenham a necessidade de compra.

“Em um mercado como este, desde que vejamos demanda dos produtores brasileiros, tentaremos trazer para o Brasil o produto produzido na América do Norte”, afirmou Wang.

Segundo ela, essa é uma vantagem da Mosaic por combinar a presença na distribuição brasileira com unidades produtoras na América do Norte.

A estratégia, portanto, prevê uma combinação entre a redução da produção local, o ajuste da estrutura de distribuição e o eventual direcionamento de produtos produzidos nos Estados Unidos e no Canadá para o mercado brasileiro.

Conflitos afetam oferta de enxofre

O principal fator por trás da atual restrição global de fosfatados, segundo Wang, é a guerra entre Estados Unidos e Irã – e o consequente bloqueio do Estreito de Ormuz.

A executiva afirmou que o conflito provocou uma mudança significativa no mercado global de fertilizantes nos últimos seis meses, especialmente por causa do impacto sobre o fornecimento de enxofre, uma das principais matérias-primas utilizadas na produção de fosfatados.

Segundo Wang, cerca de 50% do enxofre utilizado globalmente vinha do Oriente e era transportado pelo Estreito de Ormuz. Com a interrupção desse fluxo, “essa parte basicamente desapareceu do mercado”, ressaltou.

A redução na disponibilidade de enxofre já provocou, acrescentou a executiva, uma queda próxima de 20% na produção global de fosfatados.

Caso a guerra continue, a redução poderá chegar a 30% ou superar esse nível. “Isso vai impactar todos os mercados”, disse.

Além do conflito no Oriente Médio, Wang citou a guerra entre Rússia e Ucrânia como outro fator de pressão sobre a oferta de enxofre. A combinação dos dois conflitos significa que mais da metade do enxofre comercializado globalmente não está disponível no mercado.

“Se você somar esses dois conflitos geopolíticos em andamento, mais de 60% do enxofre comercializado globalmente basicamente não está no mercado”, afirmou.

Mesmo que o conflito no Irã seja encerrado, a normalização da oferta de enxofre não deverá ser imediata, avalia Wang.

A executiva afirmou que ninguém consegue prever quando a guerra chegará ao fim e, por isso, o principal indicador acompanhado pela companhia é a retomada dos fluxos comerciais.

“Nós não estamos falando de paz estabelecida, porque isso não significa nada. Quando o fluxo comercial começar a ser normalizado, o fornecimento de enxofre voltar à situação normal, isso levará de 12 a 18 meses”, detalhou.

O prazo está relacionado, entre outros fatores, aos possíveis danos provocados pelos ataques a instalações de produção. Wang citou relatos de ataques com mísseis contra grandes refinarias no Catar e afirmou que ainda não há clareza sobre a extensão dos danos nem sobre o tempo necessário para reparar as unidades e retomar a produção.

Segundo ela, também não está claro quantas refinarias foram danificadas na região próxima ao Estreito de Ormuz.

Portfólio para além do adubo

Enquanto a Mosaic reduz a produção de fertilizantes fosfatados, a unidade voltada à nutrição animal no Brasil continuará operando.

Wang explicou que a empresa mantém essa produção por considerar a atividade estratégica e por ser uma das principais fornecedoras de fosfatos para nutrição animal.

“É diferente dos fertilizantes. Existem muitos outros participantes para abastecer o mercado” de fertilizantes, disse a executiva, ao explicar a decisão de preservar a operação de nutrição animal.

Segundo ela, a Mosaic entende que os produtores de nutrição animal dependem da companhia e, por isso, quer manter o fornecimento e minimizar os impactos sobre essa cadeia.

Além dos negócios tradicionais de fosfatos, a Mosaic avalia oportunidades em minerais nos quais ainda não atua, como o de terras raras. Segundo Wang, a companhia busca novos espaços nesse segmento, que podem se transformar em novas áreas de crescimento para a empresa.

A estratégia também está relacionada ao potencial de agregar valor aos recursos minerais disponíveis no Brasil.

“Todos esses novos minerais podem ser uma grande nova área de crescimento para a Mosaic”, afirmou.

Outro segmento citado por Wang foi o de biociência, que reúne produtos biológicos voltados à agricultura. O negócio vem crescendo neste ano, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelos mercados do Brasil, dos Estados Unidos e de outras regiões, revelou Wang.

Para ela, a resiliência do segmento se relaciona ao valor que os produtos biológicos podem oferecer ao produtor em um cenário de fertilizantes minerais mais caros.

A Mosaic pretende dobrar o tamanho desse negócio em relação a 2025, conforme havia indicado em sua divulgação de resultados. O Brasil está entre as principais regiões de crescimento para a área.

Para o terceiro trimestre, a companhia projeta US$ 30 milhões em receita no negócio de biociência no Brasil e trabalha com uma meta de US$ 200 milhões de Ebitda para o segmento até 2030 (CNN)


Demanda do Brasil por fertilizantes deve cair 7,6% em 2026,diz consultoria

Redução é puxada principalmente pelos cultivos de soja, milho e trigo.

A demanda do Brasil por fertilizantes deve ficar em 45,3 milhões de toneladas neste ano, segundo estimativa da Agroconsult. Trata-se de uma queda de 7,6% em relação ao recorde registrado em 2025, quando o país consumiu 49 milhões de toneladas do produto. Os dados foram apresentados pelo presidente da consultoria, André Pessôa, nesta terça-feira (25/3), durante o 13º Congresso Brasileiro de Fertilizantes.

A redução é puxada principalmente pelos cultivos de soja, milho e trigo, com tendência de estabilidade no algodão e no café. De acordo com Pessôa, a retração deve-se tanto à queda na importação quanto na produção nacional, e será mais significativa no fósforo.

A Agroconsult também calcula que a área plantada de soja não deverá ter crescimento no ciclo 2026/27, diferente do que ocorreu nas últimas temporadas. Há uma expectativa de ligeiro avanço na área de milho, muito por conta da safrinha. No trigo, a retração de área será significativa. A boa notícia vem do algodão, que deve recuperar área, e do café, que segue em expansão.

Segundo o especialista, um fato a ser comemorado nas principais culturas é que os preços pararam de cair, sinalizando recuperação para o próximo ano.

“Os preços pararam de piorar, o que não significa que a rentabilidade vai melhorar”, observou. No caso da soja, essa previsão é motivada por equilíbrio maior entre a quantidade ofertada e a demanda.

O super El Niño é um fator de preocupação. Pessôa lembrou que, no último episódio do fenômeno, na safra 2023/24, houve atraso no plantio da soja, o que jogou para frente a semeadura da safrinha – que sofreu com a falta de chuva.

“Não dá pra saber ainda qual o efeito do El Niño, vamos ter de acompanhar de lupa dia a dia nos primeiros dias de outubro como essa chuva se distribui, porque isso vai ser determinante. Dificilmente os produtores vão arriscar plantar milho em março”, afirmou (Globo Rural)


Setor de fertilizantes terá R$ 4 bilhões para conter efeitos dos conflitos pelo mundo

Plano Brasil Soberano 3 prevê medidas para preservar a competitividades dos segmentos da economia que estão expostos à ao tarifaço dos Estados Unidos e às atuais tensões geopolíticas.

O setor de fertilizantes terá R$ 4 bilhões em recursos do Plano Brasil Soberano 3, iniciativa do governo federal para socorrer setores afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos e pelas guerras em curso no mundo. Foi o que disse, nesta terça-feira (25/8), o vice-presidente, Geraldo Alckmin, no 13º Congresso Brasileiro de Fertilizantes, promovido pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), em São Paulo.

Alckmin informou, ainda, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá sancionar nos próximos dias o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) e o Projeto de Lei Complementar (PLP) 114/2026, aprovados pelo Congresso Nacional. O primeiro prevê crédito fiscal para a produção. O segundo, redução ou suspensão de tributos federais sobre combustíveis em períodos de alta internacional do petróleo.

Também na abertura do congresso, Elias Alves Lima, presidente do Conselho de Administração da ANDA, ressaltou que o Brasil não teve problemas de abastecimento de fertilizantes. Mesmo importando quase 90% do que consome e sofrendo efeitos de guerras, crises geopolíticas e dificuldades logísticas.

“De janeiro a maio deste ano, foram entregues 15,46 milhões de toneladas, volume suficiente para atender às necessidades do período. Esse resultado ajudou a preservar aquilo que o Brasil tem de mais estratégico: a força do seu agronegócio, que continua alimentando nosso país e contribuindo decisivamente para a segurança alimentar mundial”, afirmou, em nota.

Para Roberto Rodrigues, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, o atual cenário internacional exige uma estratégia coordenada entre produtores rurais, instituições financeiras e governo. Diante das crises geopolíticas e dos conflitos em diferentes regiões do mundo, o ex-ministro da Agricultura defendeu a união dos diferentes agentes da cadeia produtiva.

“O mundo hoje é complicado, com crise geopolítica e guerras. Para vencer as dificuldades precisamos de uma estratégia integrada dos produtores rurais, bancos e governo. Temos tudo para ser os produtores globais responsáveis pelo fim da fome no mundo e de liderar a transição para a energia renovável. Assim, temos de nos unir em busca das melhores estratégias”, afirmou (Globo Rural)

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