Por Igor Savenhago
De um ano para outro, pavilhão de expositores da China passou de 18 empresas para mais de 50; objetivo é se aproximar de compradores brasileiros e montar balcão de negócios.
O proprietário da empresa recebe o visitante com um celular equipado com inteligência artificial. Conforme eles se falam, o aparelho vai traduzindo, para o possível cliente, os atributos dos produtos em exposição, divulgados em mandarim. O interessado em conhecer as novidades é um brasileiro, que expressa as dúvidas em português, convertidas de volta para o idioma oficial da China.
Essa é uma cena que ficou característica durante a Agrishow, feira internacional de tecnologia agrícola que está sendo realizada em Ribeirão Preto (SP) até a sexta-feira, 1º. Resultado da crescente participação de empresas da China, de olho em ampliar as relações com o Brasil no segmento agro.
Este é o segundo ano em que os chineses montam um pavilhão na feira dedicado exclusivamente a companhias de tecnologia do país asiático. No ano passado, foram 18 participantes. Na atual edição, são mais de 50.
A organização do grupo é da Rhino Agri, uma espécie de associação que reúne mais de 500 fabricantes da China com o intuito específico de estreitar laços com o mercado brasileiro.
O CEO da plataforma, Neeson Cheng, afirma que a presença chinesa na Agrishow tem dois objetivos principais. O primeiro é mostrar o que têm de melhor para oferecer ao desenvolvimento do campo brasileiro. O segundo é preparar a montagem de um balcão de negócios permanente no Brasil, para facilitar a importação de tecnologia.
‘Uma Ali Babá no agro’
“A nossa plataforma é uma espécie de ‘Ali Babá’ no agro. A feira, para nós, é uma vitrine para que possamos adquirir a confiança dos brasileiros que desejam comprar da China. Buscamos construir qualidade e percebemos que os clientes têm saído satisfeitos. Isso também nos deixa satisfeitos, já que o Brasil é o país do agronegócio”, diz Cheng.
Ele explica, ainda, que a maior expectativa das empresas que compõem a Rhino é ajudar a automatizar o setor no Brasil. “Temos diversas máquinas com inteligência artificial, o que pode facilitar muito o trabalho dos agricultores brasileiros”.
Jie Zhang, sócio da Nongbo Hechang Electric, empresa que atua em agricultura de precisão, tem visão parecida. Ele é o empresário que, no início dessa reportagem, conversava via celular. Usando o mesmo dispositivo, ele comenta que o Brasil tem uma agricultura muito desenvolvida, mas não dispõe de sensores tão tecnológicos quanto os dos chineses. “Entendemos que o agro brasileiro precisa de nossos produtos. Por isso, estamos aumentando a nossa presença na feira.”
Diversificação
Uma das empresas chinesas pioneiras em participações na Agrishow é a XCMG, que participa do evento desde as primeiras edições. Agora em 2026, está lançando uma nova geração de tratores para alta performance rural. Destaque para uma máquina conceito desenvolvida em parceria com a Cummins. Com 80 cv de potência, o produto se posiciona na faixa de tratores de pequeno porte, para operações em terrenos considerados difíceis.
De acordo com Daniel Sasaki, head comercial, a expectativa de negócios na feira é positiva, apesar da cautela adotada pelos produtores para novos investimentos, por causa das pressões na rentabilidade provocadas pela queda do dólar e dos preços das commodities.
Ele evita citar números, mas fala em “um forte crescimento”, que deve se estender para o restante do ano. Um dos fatores apontados para justificar o otimismo é o portfólio diversificado. Além do agro, a XCMG atende outros segmentos, como o portuário, o de construção civil e o de mineração.
“Quando um segmento não vai tão bem, diversificar acaba sendo uma vantagem, porque podemos compensar com outro. No caso do agro, sabemos que os agricultores não estão muito contentes. Diante disso, considerando a importância do setor para o segmento de máquinas, temos buscado ser resilientes, criativos, fazer promoções, enfim, provocar o mercado”, diz Sasaki.
A LiuGong, que está pelo quarto ano consecutivo na Agrishow, também aposta na diversificação e, ao mesmo tempo, no crescimento do mercado agrícola. A empresa tem ampliado o catálogo de máquinas elétricas como caminho para aumentar a eficiência e a competividade no campo, visando ainda à sustentabilidade ambiental e à redução da dependência de combustíveis fósseis.
Em meio aos lançamentos deste ano, como uma pá carregadeira elétrica, é possível encontrar equipamentos para diversas aplicações no agro, como escavadeiras, motoniveladoras, rolos compactadores e plataformas elevatórias.
“A Agrishow é uma oportunidade para demonstrar, na prática, como nossos equipamentos estão evoluindo para atender às demandas do campo, com foco em produtividade, eficiência e custo operacional. Nosso objetivo é caminhar com o cliente, oferecendo soluções que respondam aos desafios reais das operações”, afirma Diego Zolezi, head de Produto & BID da LiuGong Latin America.
Para ampliar a influência no mercado nacional, a proposta da empresa é ir além da venda de equipamentos. A companhia busca manter uma rede de distribuidores, para garantir proximidade dos clientes e agilidade nos serviços. Para Chrystian Garcia, head de Marketing e Desenvolvimento de Rede da LiuGong Latin America, é essa proximidade que garante que as soluções realmente façam diferença na produtividade e nos resultados das operações.
Levantando voo
A DJI Agriculture, empresa de drones que entrou no Brasil em 2019, é participante habitual da Agrishow, mas, no ano passado, decidiu montar estande próprio. Na edição de 2026, recebe os visitantes em estande de 900 metros quadrados, que oferece equipamentos para operações agrícolas e para vigilância.
A representante comercial Raquel Zhang conta que a empresa, que tem cerca de 400 lojas oficiais espalhadas pelo Brasil e já comercializou 20 mil drones no País, pretende aumentar a participação no mercado nacional em 50% ao ano. A aposta ousada está amparada no fato de que, na sua leitura, “a produção agrícola brasileira é muito vasta”.
Raquel conta que há dois principais picos de venda. Um deles é na região Norte do Brasil, que responde por 40% dos drones comercializados pela empresa no Brasil. “Lá, eles têm sido muito usados para monitoramento da pecuária. Os preços do boi melhoraram ultimamente e propiciaram o investimento”. O segundo são locais com terrenos acidentados. “É a única ferramenta para lugares onde os tratores não conseguem entrar.”
A meta de ampliar a fatia de mercado no Brasil está atrelada ao próprio crescimento do uso de drones no campo. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o número desses equipamentos nas áreas agrícolas passou de 3 mil unidades em 2021 para 35 mil no ano passado, um aumento de 1.060% (Estadão)





