Por Welber Barral
O que leva os EUA a ser destino de menos de 10% das exportações do Brasil pela 1ª vez em 200 anos.
O equívoco do governo Trump de tratar o Brasil com simplicidade, quando o País nunca foi simples, pode custar caro à relação bilateral
Há um equívoco recorrente em Washington: a ideia de que o Brasil reage à pressão como parceiro menor, previsível. Uma possível escalada (com rumores de novas tarifas) mostra que esse erro não apenas persiste, como pode custar caro à relação bilateral. O equívoco vem de tratar o Brasil com simplicidade, quando o Brasil nunca foi simples.
Tarifas adicionais podem advir da investigação 301 aberta pelo USTR em julho do ano passado, que abrange temas que vão de comércio digital a meios de pagamento, além de tarifas preferenciais, medidas anticorrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
É uma lista ampla o suficiente para caber quase tudo; e vaga o suficiente para gerar instabilidade em quase todos os setores. Em teoria, deve haver uma decisão antes de julho deste ano, que poderia levar a tarifas ou outras restrições ao comércio.
O ziguezague tarifário já cobrou custos altos no ano passado: uma Ordem Executiva em julho impôs tarifa adicional de 40% sobre certos produtos brasileiros. Em novembro, produtos agrícolas foram excluídos daquela tarifa, reconhecendo-se implicitamente que a medida fora excessivamente ampla.
Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte restringiu a lei sobre a qual se baseavam as tarifas, levando o Governo Trump a impor um 10% genérico com base em outra norma (Seçāo 122), que deve expirar em agosto próximo.
Assim, a insegurança permanece. Os dados de 2025 já indicavam perda de tração das exportações para os Estados Unidos, no recorte mais sensível aos efeitos tarifários. Pela primeira vez em 200 anos (!) os EUA representarão menos de 10% das exportações brasileiras.
Ou seja, ameaças e barreiras tarifárias não levarāo a concessões pelo Brasil; antes, diminuirão a importância relativa da relação econômica bilateral comparativamente a outros parceiros.
Outro efeito: empresas que exportam para os Estados Unidos começam a procurar alternativas, diante do custo da imprevisibilidade. O setor brasileiro de móveis é exemplo claro: diante da combinação de tarifa, risco político e regulatório, exportadores passaram a investir em novos mercados, da Europa a mercados emergentes.
Exportadores sāo naturalmente avessos a aventuras tarifárias; buscam previsibilidade, contratos longos, crédito, logística e compradores que não mudem regras durante o transbordo.
O mesmo filme já se assistiu, em versão sul-americana. Durante muitos anos, a Argentina foi mercado natural da indústria brasileira. A proximidade, a então novidade do Mercosul e a integração produtiva davam à Argentina um lugar privilegiado. Mas barreiras recorrentes, licenças nāo automáticas, controles cambiais e imprevisibilidade reduziram sua relevância.
A indústria aprendeu a buscar outros destinos. Não deixou de vender para a Argentina, apenas deixou de depender daquele mercado e de defendê-lo nas crises seguintes.
Esse é o risco que os Estados Unidos estão criando agora: uma lenta reconfiguração das cadeias comerciais, que reverte contratos, feiras, decisões de investimento. Ao fim, a grandiosidade do discurso geopolítico definha em decisões empresariais quotidianas.
As ameaças dos EUA também afetam uma dimensão pouco compreendida em Washington: o comércio intrafirma como parte relevante do fluxo bilateral com o Brasil. Sāo cadeias integradas, planejadas por meses, com custos e margens pré-definidos. E aqui o paradoxo: em nome de defender interesses norte-americanos, Washington acaba aumentando custos de empresas norte-americanas.
Há ainda uma incompreensão histórica. Desde o século 19, a estratégia externa do Brasil tem sido evitar alinhamentos automáticos. O Brasil já oscilou, negociou, aproximou-se, afastou-se, mas nunca aceitou vassalagem econômica. Mesmo na Guerra Fria, preservou graus relevantes de autonomia econômica.
A coerência da diplomacia nacional reflete um país continental, exportador diversificado, inevitavelmente com interesses no Atlântico, historicamente na Europa, nas Américas, crescentemente na Ásia e no mundo em desenvolvimento. Pressionar o Brasil como se fosse um pequeno recalcitrante é desconhecer a História e, pior, empurrá-lo para parceiros alternativos.
Por fim, a tática tarifária norte-americana também pode produzir efeito político ao avesso do que, no Departamento de Estado, pretendem alguns. Novas tarifas contra o Brasil fortalecerāo a narrativa eleitoral do atual governo brasileiro contra a oposição. Se a economia sofrer, culpa-se o elemento externo. Se exportadores reclamarem, apontam-se os entreguistas. Se medidas forem anunciadas, reforça-se o nacionalismo, sempre disponível no cardápio das campanhas.
O Governo Trump deveria saber disso. Em outras frentes, suas medidas já produziram o inverso do objetivo anunciado. Aqui, o risco é semelhante. Tarifas para forçar concessões podem reduzir a relevância norte-americana. Ameaças para disciplinar o Brasil podem incentivar diversificação comercial. Medidas destinadas a proteger empresas norte-americanas podem encarecer suas próprias cadeias. E pressões destinadas a fragilizar o governo brasileiro podem ajudá-lo eleitoralmente.
Por tudo isso, Washington deveria refletir antes de mirar o Brasil como laboratório de coerção tarifária. Ambos os países têm interesse em preservar uma relação sólida. Mas isto exige inteligência estratégica. Exige distinguir irritantes políticos de interesses econômicos. Exige entender que comércio bilateral não é manchete, mas investimentos, cadeias produtivas, confiança e tempo.
Se Washington insistir na lógica da coerção, o resultado provavelmente nāo será nem confronto nem alinhamento. Será distanciamento. E, no comércio internacional, distância quase sempre significa perda de relevância, de influência e, no limite, de mercado (Welber Barral é Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil; Estadão)




