Representantes do setor criticam falta de medidas para resolver alto nível de endividamento entre produtores e a ausência de apoio ao seguro rural.
O governo federal divulgou nesta terça-feira (30/6) o Plano Safra da Agricultura Empresarial 2026/27, que terá R$ 525,1 bilhões em crédito rural e um corte de juros de até 1,5 ponto percentual nas linhas de custeio e investimentos. A sócia-gerente da Agroicone, Leila Harfuch, avalia que, apesar do recuo nas tarifas, o patamar de juros ainda ficará elevado e tende a dificultar a retomada de investimentos no campo, em meio à alta inadimplência no setor.
As taxas para médios e grandes produtores ficará entre 8% e 12,5% ao ano na temporada que começa nesta quarta-feira (1/7).
“Ainda temos taxas de juros elevadas no Plano Safra. Enxergamos dificuldade de o produtor investir a essas taxas, em um cenário de endividamento elevado”, disse a especialista. No entanto, ela reconhece o esforço do governo federal em ao menos reduzir as taxas em relação ao ano anterior.
Na avaliação de Harfuch, lidar com a alta inadimplência do produtor rural era um dos principais desafios na construção deste Plano Safra, e a alternativa encontrada pelo Ministério da Agricultura para aumentar o nível de recursos foi a utilização de outros programas.
No montante de R$ 525,1 bilhões, foram incluídos R$ 10 bilhões de recursos anunciados pelo Executivo para o Move Agricultura, uma linha do programa Move Brasil para financiamento de máquinas e equipamentos agrícolas, e R$ 28,5 bilhões de recursos do Ecoinvest Brasil, destinados à recuperação de pastagens degradadas.
Apesar de ser uma medida positiva, a sócia da Agroicone alerta que ainda há dúvidas sobre como serão a alocação e o cumprimento dos recursos vindos do Ecoinvest, por exemplo, por ser um programa recente.
“O médio produtor pode ser o mais afetado no investimento, especialmente no que se refere à transição sustentável e resiliência climática, em um momento em que temos El Niño e precisamos de uma agricultura mais resiliente para se adaptar às mudanças climáticas”, afirmou.
Neste contexto, a especialista observa que a ausência do anúncio de recursos para seguro rural foi mais uma preocupação para o setor e deixa uma lacuna no Plano Safra.
Endividamento
Para a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), o aumento de R$ 9 bilhões em recursos em relação ao ciclo anterior está longe de responder aos desafios enfrentados pelos produtores.
Outro problema, segundo a entidade, é a falta de medidas concretas para enfrentar o crescente endividamento do setor. “Sem uma solução para o passivo acumulado, novos financiamentos deixam de cumprir seu papel de impulsionar investimentos e passam apenas a ampliar as dificuldades financeiras de quem está no campo”.
Para a Faesp, também permanece sem solução a política de seguro rural. A entidade afirma que a cobertura segue limitada a uma pequena parcela da área cultivada, deixando o produtor exposto aos riscos provocados pelo clima extremo.
O Sistema Faep, da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), disse em nota que o Plano Safra 2026/27 preocupa por causa das condições previstas de acesso ao crédito rural.
“De nada adianta divulgar um Plano Safra com valor recorde se não há mecanismos para que isso se transforme em investimentos no campo. Precisamos de juros, condições, linhas e ferramentas de acordo com a realidade dos nossos produtores rurais”, disse no comunicado o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
Segundo ele, há preocupação com as taxas de juros ainda altas e com as dificuldades que produtores estão tendo para acessar as linhas, além dos consecutivos cortes no orçamento, principalmente do seguro rural.
“Embora tenha havido redução em relação ao ciclo anterior, as taxas permanecem altas. Em um cenário marcado por juros elevados, margens de lucro reduzidas, sucessivas perdas climáticas e aumento do endividamento no campo, a disponibilidade de recursos, mesmo sendo recorde, perde relevância caso as linhas de financiamento permaneçam pouco atrativas ou inacessíveis”, afirma Meneguette.
Também chamou a atenção para o fato de o seguro rural não ter sido incluído no lançamento do Plano Safra 2026/27, após cortes nos últimos meses. O Sistema Faep havia solicitado R$ 4 bilhões para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e disse que a iniciativa precisa ser “prioridade” da política agrícola brasileira.
O presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes, destaca a necessidade de uma solução para o endividamento dos produtores. Conforme Nunes, a definição sobre o Projeto de Lei nº 5.122/2023, em votação no Congresso, e as medidas que poderão ser adotadas pelo governo serão determinantes para que parte dos arrozeiros consiga acessar as linhas de financiamento da próxima safra.
“Nós também estamos na dependência das renegociações, de como vai ser resolvida essa questão do endividamento, até para que a gente consiga ter acesso ao crédito rural, porque senão vários produtores de arroz vão ficar alijados do Plano Safra”, afirma.
Composição de recursos
Apesar do volume recorde anunciado para o Plano Safra 2026/27 nesta terça-feira (30), a composição dos recursos exige atenção, avalia a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT). A entidade alerta para a redução nominal dos valores anunciados para custeio e comercialização – de R$ 414,7 bilhões em 2025/26, para R$ 384,9 bilhões agora.
Em nota, a Aprosoja-MT lembra que o acréscimo total de verba (R$ 525,1 bilhões) em relação à safra anterior foi de aproximadamente R$ 9 bilhões, o que representa alta nominal de cerca de 1,7%.
“Considerando que o IPCA acumulado nos últimos 11 meses foi de 4,4%, seriam necessários aproximadamente R$ 538,7 bilhões apenas para manter, em termos reais, o mesmo volume de recursos da safra anterior. Assim, embora o valor anunciado seja maior em termos nominais, o Plano Safra 2026/27 representa uma redução real de cerca de R$ 13,6 bilhões quando descontada a inflação”, afirma o comunicado.
O cenário preocupa porque o produtor chega ao novo ciclo em um ambiente de crédito mais caro, seletivo e condicionado a exigências cada vez mais rígidas, considera a Aprosoja-MT. Para a associação, o endividamento precisa ser tratado como prioridade da política agrícola.
“A avaliação é que não basta ampliar o volume nominal de recursos se o produtor enfrenta restrição de acesso a novos financiamentos, dificuldade para renegociar passivos e comprometimento da capacidade de pagamento”.
A Aprosoja ainda alerta para o aumento do volume sustentado por instrumentos privados. “Quando o financiamento depende cada vez mais de mecanismos de mercado, aumentam a exposição ao custo financeiro vigente, às condições pactuadas com os agentes financiadores e às exigências de garantias”, diz a nota.
Redução de verbas para custeio
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) criticou a decisão do governo federal de incluir no anúncio do Plano Safra 2026/27 recursos de linhas alheias ao crédito rural tradicional, e criticou a redução das verbas para custeio e para investimentos em máquinas e armazéns.
A bancada disse que vê os números com “preocupação”, já que, se forem retirados os fundos inseridos “artificialmente”, o montante de recursos destinado para o crédito rural desta temporada representa uma redução de R$ 29,6 bilhões (5,73%) em relação ao ciclo anterior.
O governo inseriu no Plano Safra R$ 38,5 bilhões em recursos que não são destinados ao crédito rural tradicional, mas referem-se a recursos do segundo leilão do EcoInvest e do Move Agricultura. Para a bancada, essa inclusão foi uma “engenharia financeira” e “não resolve o problema do produtor que precisa de crédito rural efetivo, acessível e contratado na ponta”.
A FPA criticou a redução do valor destinado ao custeio da safra, “justamente a modalidade que garante o plantio, a compra de insumos, a manutenção da atividade produtiva e o abastecimento”. E também criticou a redução dos recursos para o Moderfrota e para o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), “apesar do reconhecido déficit de armazenagem no país”.
A bancada também criticou a redução do montante de recursos destinados à equalização das taxas. Segundo a FPA, a redução das taxas em várias linhas “é insuficiente diante da situação de endividamento do setor, da restrição de crédito enfrentada por produtores e da queda dos recursos equalizados” (Globo Rural)




