Decisão foi tomada usando como base os testes anteriores, realizados para aprovar o aumento de 27% para 30%; confira os possíveis impactos para carros só a gasolina
Aumento para 32% aconteceu menos de um ano depois da mistura chegar a 30% — Foto: Murilo Goes/Autoesporte O Conselho Nacional de Pesquisa Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura do etanol na gasolina dos atuais 30% para 32%, durante reunião realizada na terça-feira (14/7). É a chamada gasolina E32. Em março, o governo anunciou a intenção de chegar a 35% de etanol na gasolina até 2029, com investimento de R$ 30 milhões. Porém, o primeiro passo para atingir quase metade da meta foi tomado poucos meses depois.
A decisão do governo se baseia nos testes anteriores já realizados, quando subiu a mistura para 30% menos de um ano atrás. Isso porque os ensaios trabalharam com margem de 2% pontos porcentuais, chegando aos 32%. Todo o projeto de ter a gasolina E35 no Brasil faz parte das diretrizes da Lei Combustível do Futuro, aprovada pelo governo em 2024.
Na época, o representante do Instituto Mauá de Tecnologia, Renato Romio, explicou como foram conduzidos os testes ao programa CBN Autoesporte. Um ponto importante pesou na decisão anunciada pelo governo: o cenário geopolítico internacional. Com a guerra entre Estados Unidos e Irã ganhando força e sem previsão de acabar, o preço internacional do barril do petróleo pode ter impactos significativos no valor da gasolina. Aumentando o teor de etanol, na mistura, o Brasil passa a não depender da importação do combustível fóssil, de acordo com Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia. O ministro já havia falado sobre o tema no começo de junho, quando também revelou que a base para o lançamento da gasolina E32 seriam estudos já realizados anteriormente. Segundo Silveira, com a decisão, o Brasil será autossuficiente na produção de gasolina e deixará de importar cerca de 500 milhões de litros do combustível por mês. Por muitos anos, o Brasil teve 22% de teor de etanol na gasolina comum. Essa mistura subiu para 27,5% em 2015 e perman ceu assim por dez anos. Em agosto de 2025, chegou aos 30%. Agora, menos de um ano depois, veio a decisão de elevar para 32%. A meta do governo, como já explicamos, é alcançar 35% nos próximos anos. O que muda para carros só a gasolina com os 32% de etanol na mistura? No caso dos carros com motor flex, os donos sentirão os efeitos apenas no bolso, uma vez que o consumo de combustível deverá aumentar, de acordo com Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). “Para o flex, o consumo de combustível vai aumentar, considerando que o poder calorífico do etanol é menor”, afirmou Gonçalves, em entrevista concedida à Autoesporte quando o governo aumento para 30% o teor de etanol na mistura da gasolina. Em outras palavras, segundo o especialista, o proprietário de um carro flex que enche o tanque com gasolina pode notar uma redução, mesmo que pequena, na autonomia total. Porém, a situação é mais complicada para carros a gasolina, especialmente os mais antigos. “Alguns carros antigos não estão preparados para este teor de etanol. Podem acontecer ataques a materiais e corrosões de borrachas e elastômeros”, apontou o especialista. “Além disso, há suspeitas de que certos carros podem falhar por intervenção dos próprios sensores, que não reconhecem o combustível”, completou. Ainda segundo Gonçalves, carros mais antigos e não preparados para esse teor de etanol também pode apresentar corrosão precoce de borrachas e elastômeros. Esse risco acontece porque modelos mais velhos movidos apenas a gasolina tiveram seus motores preparados para trabalhar com volumes muito menores de etanol na mistura. Entre 1993 e 2001, o Brasil usava 22% do combustível feito de cana-de-açúcar na gasolina, mistura que parou por alguns anos e depois voltou definitivamente em 2009. Dessa forma, motores mais antigos estavam prontos para rodar com dez pontos percentuais a menos de etanol na mistura. O mais indicado para modelos assim é abastecer com gasolinas especiais, dotadas de menor teor de etanol. O que pensa a indústria automotiva? A Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que representa as fabricantes instaladas no Brasil, disse que apoia o avanço dos biocombustíveis. Entretanto, posicionou-se contra o aumento compulsório para 32% sem a realização de estudos técnicos específicos e conclusivos. Veja abaixo na íntegra o posicionamento da entidade: “A Anfavea reafirma o apoio aos biocombustíveis como uma importante vantagem competitiva do Brasil para a descarbonização da mobilidade. No entanto, é contrária à elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32% (E32) sem estudos técnicos específicos e conclusivos que comprovem a segurança e a compatibilidade com a frota brasileira. A entidade ressalta que os testes que embasaram a adoção da mistura de 30% de etanol na gasolina (E30) não validam tecnicamente a elevação da mistura obrigatória para 32% (E32). Isso porque esses ensaios avaliaram o desempenho e a dirigibilidade dos veículos considerando a margem de tolerância da especificação do combustível, mas não incluíram testes de durabilidade, emissões, autonomia nem a validação do funcionamento da frota com E32 como mistura obrigatória. Por isso, os resultados não representam base técnica para justificar a elevação do teor de etanol para 32%. Os testes com combustível contendo até 32% de etanol foram realizados apenas para contemplar a margem de tolerância prevista na especificação do E30 e não para comprovar a segurança e a compatibilidade de uma mistura obrigatória de E32. Além disso, a especificação do E32 admite combustíveis com teor de etanol de até 34%, condição que também não foi objeto de validação técnica específica. A Anfavea defende que a adoção do E32 ocorra somente após a conclusão de novos estudos específicos, capazes de comprovar que a mistura é compatível com a frota em circulação e garante a segurança técnica e a proteção do consumidor brasileiro”. (Globo)




