André de Paula afirma que crédito rural, renegociação de dívidas e abertura de mercados serão prioridades diante da crise provocada por juros altos, guerra no Oriente Médio e queda das commodities.
Há 45 dias à frente do Ministério da Agricultura, o ministro André de Paula assume a pasta em um dos momentos mais adversos do agronegócio, que enfrenta a chamada tempestade perfeita. “Há uma conjunção de fatores externos e internos, como os impactos da guerra do Irã, endividamento elevado do produtor, alta do custo dos insumos, baixa nos preços das commodities, necessidade de seguro”, detalhou.
Ele conta que ex-ministros chegaram a dizer que não gostariam de estar em seu lugar dado o tamanho do desafio. “Todos sabem que o desafio é muito grande”, disse em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast Agro.
De Paula tem no crédito, no seguro rural e nas aberturas de mercado as prioridades da sua gestão. O ministro promete um mandato de continuidade neste momento de conclusão do governo Lula 3 e de diálogo contínuo com o setor agropecuário. “As preocupações são as mesmas. Já os desafios são aqueles que prevemos e os que se apresentam adicionalmente todos os dias”, disse De Paula, pouco antes de ser surpreendido pela retirada do Brasil da lista de exportadores de proteínas animais à União Europeia.
No diagnóstico feito a partir de conversas com representantes do setor, estabeleceu-se o enfrentamento ao endividamento rural e um Plano Safra robusto, principal política pública de crédito rural, como medidas emergenciais. “Vamos trabalhar para que possamos ter juros de um dígito para a próxima safra e defender uma atenção especial à renegociação das dívidas rurais, que será pressuposto para o sucesso do Plano Safra”, afirmou. Na área internacional, a meta é alcançar 700 aberturas de mercado para produtos agropecuários nacionais até o fim do ano; hoje são 612.
Um dos objetivos do ministro é estabelecer uma interlocução estreita com o setor agropecuário tanto para entender as demandas quanto para a construção de soluções. Ele quer aproveitar a experiência de deputado federal por seis mandatos para ser o ministro “de portas sempre abertas” e “disposto a ouvir”.
Para tal, De Paula já percorreu uma série de entidades ligadas ao agronegócio, como a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e já participou da tradicional reunião-almoço da Frente Parlamentar da Agropecuária.
De Paula defende as políticas do governo Lula para o setor e diz que o agronegócio é uma das prioridades do presidente. “Ao fim dessa caminhada, se eu puder ter sido um ministro que contribuiu para que o setor se aproximasse do governo e para que o governo tenha capacidade de envolver ainda mais o setor, acho que haverá uma boa avaliação”, observou.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
Como o senhor avalia seu primeiro mês à frente do Ministério da Agricultura? Quais são os principais desafios? E as prioridades definidas diante deles?
As prioridades seguem as mesmas, porque estamos falando da conclusão de um governo que já tem três anos e quatro meses. As preocupações, as prioridades e a equipe continuam as mesmas. Já os desafios se apresentam adicionalmente todos os dias. E há uma série de desafios. Nas visitas que fiz, o diagnóstico é sempre o mesmo seja no Norte, no Nordeste, no Sul, no Sudeste, seja na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), seja na Sociedade Rural Brasileira, seja na Agrishow.
E qual é essa pauta diante do diagnóstico apresentado pelo setor?
Neste momento, trabalhamos o Plano Safra. A intenção é construir um plano robusto do ponto de vista numérico com taxas de juros que possam permitir que os recursos disponibilizados se tornem acessíveis à maioria dos produtores. A renegociação das dívidas rurais é outra pauta porque é pressuposto para o sucesso do Plano Safra.
Sem uma atenção especial ao endividamento, teremos menos produtores que podem se habilitar ao Plano Safra. Esse é um desafio presente, porque é uma questão que imaginamos que, tecnicamente, possa estar resolvida na metade do mês de junho para que ele possa ser anunciado no início de julho.
É um tema discutido de forma muito transversal dentro do governo entre o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Ministério da Fazenda e a Casa Civil, para que essas ações possam ser compatibilizadas com a disponibilidade e a realidade do governo. Ao final, a decisão cabe ao presidente da República.
Na área internacional, o desafio continua sendo abrir novos mercados para produtos agropecuários brasileiros. Chegamos aqui com 555 mercados abertos na gestão do ministro Carlos Fávaro, alcançamos 612 e temos o objetivo de chegar ao fim deste ano com 700 novos mercados abertos.
O senhor percorreu autarquias, recebeu uma série de representantes de entidades do agronegócio em apenas 30 dias. Qual foi a fotografia da conjuntura do setor?
Ouvi até dos maiores adversários do ponto de vista político do governo frases como ‘o desafio do senhor é enorme’ ou ‘eu não gostaria de estar no seu lugar’. Eu discordo.
Há uma percepção de todos de que temos um momento desafiador, que vai desde os desafios que são inerentes à própria atividade da agricultura, de grande risco climático, a uma conjunção de fatores externos e internos — como os impactos da guerra do Irã, endividamento elevado do produtor, alta do custo dos insumos, baixa nos preços das commodities, necessidade de um seguro.
Todos sabem que o desafio é muito grande. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) cunhou um termo de que o setor está vivendo a tempestade perfeita, porque são vários fatores de uma mesma equação, todos com sinal de alerta piscando.
Ao mesmo tempo, a vida do produtor rural sempre foi de muitos desafios. E os resultados seguem sendo muito positivos, por exemplo, com crescimento das exportações, que subiram 11,7% em abril deste ano frente a abril do ano passado, mesmo com os impactos decorrentes do conflito no Irã. Apesar de todas as dificuldades, esses números mostram que o setor é capaz de se superar.
É um setor muito pujante, que se mostra muito resiliente e que compreende que precisa ser cada vez mais competitivo e com atenção à sustentabilidade. O Brasil hoje tem respeito internacional e conquista todas essas aberturas de mercado porque joga dentro das quatro linhas, sem se socorrer de qualquer tipo de ardil para evitar concorrência. Além disso, há envolvimento pessoal do presidente Lula com o tema.
Dadas essas prioridades citadas, o sr. acredita que a resistência do agronegócio com o governo Lula pode diminuir até o fim deste ano em relação à vista no início do atual mandato?
O presidente Lula vai disputar uma reeleição, processo em que há um julgamento do governo, avaliação das ações do governo. As prioridades de um governo não são identificadas apenas nas palavras do seu líder, mas, sobretudo, no espaço orçamentário que o governo dá a essa atividade. E aqui podemos citar a Embrapa, que encontramos com orçamento de R$ 167 milhões para investimento em pesquisa e saltou para R$ 460 milhões, foi incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e recebeu novo concurso público para o seu quadro.
Nos biocombustíveis, o governo elevou as misturas obrigatórias de etanol de E27 para E30, que vai virar E32, e de biodiesel de B10 para B15, que vai virar B16. O resultado será visto nas urnas, mas há muitos números para mostrarmos. O governo do presidente Lula tem muito o que mostrar aqui no agro, e isso tem ainda maior realce porque algumas pessoas podiam imaginar que o presidente Lula não desse atenção ao setor. E ele nunca deixou de ter a clareza da importância estratégica que o setor tem para o Brasil, o que sempre foi prioridade para o presidente.
Uma das principais medidas deste primeiro semestre é o anúncio do Plano Safra. Dada a conjuntura de restrição orçamentária e queda de juros menor que o esperado, qual será o Plano Safra possível? É possível aumentar o volume de recursos — foram R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial no último ciclo — e reduzir juros?
A nossa proposta é um Plano Safra mais vigoroso ainda do que já apresentamos nos três primeiros anos. O desafio do momento é a taxa de juros, algo que causa indignação ao presidente Lula há muitos anos. Vamos trabalhar para que possamos ter taxa de juros de um dígito.
A proposta do Ministério da Agricultura, que será discutida com Fazenda e Casa Civil, reflete o sentimento do produtor rural, dos parlamentares e das entidades setoriais. Vamos defender o enfrentamento do endividamento, um juro que seja o menor possível que possibilite o maior acesso possível aos recursos disponibilizados, um plano consistente e o seguro rural. Os números serão apresentados pelo presidente Lula.
O sr. esteve com a Frente Parlamentar da Agropecuária e falou em inaugurar uma nova fase na relação com a bancada, que tem sido uma das vozes críticas ao governo. Como essa interlocução tem avançado?
Compreendo que um ministro é um advogado que o presidente contrata para, no âmbito do seu governo, fazer a defesa dos interesses daquele setor. Então, o ministro não tem de ter preocupação em relação a, em alguns momentos, ter um enfrentamento com outras pastas porque está cumprindo seu papel. Agora, nunca me verão falando mal do meu governo.
Enquanto eu estiver dentro do governo, a minha briga é dentro do governo. Quanto às críticas, sei que elas virão. É muito importante ouvir as críticas do setor para ter capacidade de promover correções. Isso é um ativo que me permite receber os parlamentares, avaliar com a equipe o que está sendo feito e o que pode ser corrigido. No período em que eu estiver à frente do ministério, mais ouvirei do que falarei. Já tenho maturidade suficiente para entender que no governo a gente não trabalha com o ideal, mas sim com o possível.
Apesar de ter assumido o ministério com prazo de gestão exíguo, qual legado o sr. quer deixar à frente da pasta? Qual será sua marca?
Ao final dessa caminhada, se puder ter sido um ministro que contribuiu para que o setor se aproximasse do governo, para que o setor se envolvesse nas decisões do governo, para que o governo tivesse uma capacidade de envolver ainda mais o setor, acho que a haverá uma boa avaliação. Passado esse primeiro mês, é muito perceptível neste momento, dada a dimensão dos desafios, a importância da relação do Ministério com os parlamentares e com o Congresso Nacional.
Um ministro com o perfil político como o meu termina sendo um ministro que está no momento certo, no lugar certo. Temos muitos desafios que passam por aprovar alguns projetos e pactuar construções que se adequem às circunstâncias do governo, como na renegociação das dívidas rurais (Estadão)





