Por Celso Moretti
Recordes na produção de soja e milho convivem com menor oferta de arroz e trigo, margens apertadas e elevada dependência de fertilizantes
Brasil tem agricultores jovens, mas inovação ainda vem de fora do agro, diz Dirceu Júnior.
O Brasil deverá colher mais uma safra recorde. Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para o ciclo 2026/27 projeta 367,1 milhões de toneladas de grãos, crescimento de 1,4% sobre a temporada anterior. O resultado reafirma a capacidade da agricultura brasileira de incorporar tecnologia, ampliar a produção e responder à demanda mundial. Mas o volume agregado esconde desequilíbrios que não podem ser ignorados.
Soja e milho, responsáveis pela maior parte da produção nacional, deverão alcançar novos máximos. A colheita de soja está estimada pela Conab em 181,6 milhões de toneladas, enquanto a de milho poderá atingir 148 milhões. Juntas, as duas culturas representarão quase 90% dos grãos produzidos no País.
Projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divergem das estimativas brasileiras. Para a soja, o órgão americano prevê 186 milhões de toneladas. No milho, ocorre o inverso: o USDA estima 139 milhões de toneladas, 9 milhões abaixo da projeção da Conab e 2 milhões a menos que os 141 milhões previstos para a safra atual. A diferença mostra quanto ainda existe de incerteza em torno de área, produtividade e condições climáticas.
A força dos números não elimina os sinais de cautela. A área cultivada com soja deverá crescer apenas 1,4%, para 49,3 milhões de hectares — a menor expansão percentual em duas décadas. Depois de anos de avanço contínuo, a cultura começa a encontrar os limites econômicos impostos por margens menores, crédito caro e insumos valorizados.
O produtor tornou-se mais seletivo. Já não basta projetar produtividade elevada. É preciso avaliar o preço do fertilizante, o câmbio, as cotações futuras, o frete, o seguro e o risco climático. Em muitas regiões, expandir a área de soja deixou de ser uma decisão quase automática.
O milho segue trajetória diferente. A produção deverá crescer 2,4%, enquanto a área cultivada poderá avançar 4,9%, alcançando 23,7 milhões de hectares. A primeira safra, que durante anos perdeu espaço para a soja, poderá registrar expansão de 10,7%. Preços mais firmes, exportações, demanda das cadeias de proteína animal e crescimento do etanol ajudam a explicar essa recuperação.
Este último merece destaque. A produção brasileira de etanol de milho atingiu, em 2025, 10,2 bilhões de litros, equivalentes a 27,2% de todo o etanol produzido no País. A nova demanda agrega valor ao grão, interioriza investimentos e gera coprodutos para a alimentação animal. Ao mesmo tempo, reduz o excedente exportável e torna ainda mais importante o crescimento sustentado da produção.
Esse avanço, entretanto, traz uma vulnerabilidade. O milho é altamente dependente de nitrogênio, e os fertilizantes nitrogenados continuam expostos à crise energética e às dificuldades de navegação no Estreito de Ormuz. A projeção de 148 milhões de toneladas pressupõe que os produtores terão acesso a ureia, crédito e condições climáticas adequadas. Nenhuma dessas variáveis está inteiramente assegurada.
Outro destaque é o sorgo. Antes tratado como cultura secundária, uma espécie de “quebra-galho” para janelas tardias de plantio, o cereal consolidou-se como alternativa estratégica para sistemas de produção pressionados pelo clima, pelos custos e pela demanda crescente por grãos na pecuária e na agroindústria. Essa mudança não é apenas agronômica. É estrutural.
Na safra 1987/88, o Brasil plantava pouco mais de 200 mil hectares de sorgo e colhia cerca de 347 mil toneladas. Quase quatro décadas depois, a produção projetada para 2026/27 é de 8 milhões de toneladas, volume que poderá colocar o País, pela primeira vez, na liderança mundial.
Enquanto soja, milho e sorgo avançam, culturas diretamente associadas ao consumo doméstico inspiram preocupação. A produção de arroz deverá ficar próxima de 10,7 milhões de toneladas, com estoques nos menores níveis em três anos. No trigo, a queda projetada chega a 27%, ampliando a dependência das importações para atender a um consumo anual próximo de 12 milhões de toneladas. O Brasil possui tecnologia para produzir trigo no cinturão tropical e, em tese, poderia reduzir significativamente sua dependência externa.
A expansão da triticultura, contudo, continua limitada por custos de produção elevados, volatilidade dos preços, concorrência das importações, restrições de crédito e falta de continuidade nas políticas públicas.
O contrato entre a expansão de soja, milho e sorgo e a redução na colheita de arroz e trigo desmonta uma ideia recorrente: a de que uma safra recorde garante, por si só, segurança alimentar. Não garante.
Segurança alimentar não se mede apenas pelo peso total colhido. Depende da composição da safra, da renda das famílias, dos estoques, da logística, do processamento industrial e da disponibilidade dos produtos que chegam diariamente à mesa. Um país pode colher volumes históricos de soja e, simultaneamente, permanecer vulnerável no trigo, no arroz ou no feijão.
Também é necessário abandonar a falsa oposição entre commodities exportáveis e alimentos destinados ao mercado interno. Soja e milho geram renda, empregos, divisas, farelo, óleo, biocombustíveis e proteína animal. São fundamentais para a economia e para o abastecimento. O problema não está em produzi-los, mas em permitir que o sucesso dessas cadeias encubra as fragilidades das demais.
A política agrícola precisa olhar além do recorde agregado. Arroz, trigo e feijão exigem pesquisa e desenvolvimento, seguro rural, irrigação eficiente, armazenagem, crédito e instrumentos de comercialização ajustados às suas especificidades. São cadeias de menor escala, maior exposição climática e, frequentemente, menor capacidade de absorver custos.
A nova safra mostra que a agricultura brasileira continua sendo um dos principais pilares da economia brasileira. Também revela, porém, que o crescimento está mais lento, mais caro e mais concentrado. O próximo salto não virá apenas da expansão da área cultivada. Virá da produtividade, da diversificação, da eficiência no uso de fertilizantes, da adaptação climática e da agregação de valor.
O Brasil deve comemorar a safra recorde. Mas não pode se deixar hipnotizar pelo número. Uma agricultura verdadeiramente estratégica não é aquela que apenas quebra recordes. É aquela que transforma abundância produtiva em renda no campo, competitividade internacional e segurança alimentar para a população (Celso Moretti é engenheiro agrônomo e ex-presidente da Embrapa; Estadão)





