O agronegócio brasileiro recolheu R$ 1,02 trilhão em tributos em 2025, o equivalente a 24,6% da arrecadação analisada e a cerca de 6,4 vezes o orçamento do Bolsa Família no mesmo ano, de R$ 158 bilhões segundo o Senado Federal. Do outro lado da conta, o número de empresas do setor em recuperação judicial subiu 18,7% entre 2023 e 2025, de 875 para 1.039, e os empregos ligados a elas caíram 12%. Os dados estão na quarta edição do estudo Agronegócio em Números, feita pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) em parceria com o Empresômetro.
Pela primeira vez na série histórica, o setor secundário, que reúne frigoríficos, laticínios, moinhos e biodiesel, respondeu por mais da metade dos tributos do agronegócio, com 50,2% do total, contra 47,3% em 2022. O primário recuou de 18,9% para 17,6% no mesmo período. Entre 2022 e 2025, a arrecadação do agro cresceu 29,1%, enquanto a do país como um todo subiu 23,9%.

Fonte: Agronegócio em Números, 4ª edição (IBPT e Empresômetro)
Para Carlos Pinto, diretor do IBPT, a conta com o Bolsa Família e a mudança na composição do dado mostram o peso do agro fora da produção e das exportações. “Quando a gente põe a arrecadação do agro ao lado do orçamento do Bolsa Família, a dimensão aparece. E tem um dado novo, que é a indústria já pagar mais da metade dessa conta. O peso fiscal vai migrando para onde o valor é agregado, e o campo, que tem isenção e alíquota reduzida, fica com uma fatia menor a cada ano”, afirma.
Mercado em alta e base empresarial em desaceleração
Os valores comercializados pelo agronegócio cresceram 9,8% em 2025 e chegaram a R$ 8,87 trilhões, contra alta de 6,4% no conjunto dos setores da base. A soja voltou à liderança do valor transacionado, com R$ 1,71 trilhão e alta de 16,4% sobre 2024, enquanto animais vivos subiram 40,1% e o café, 30,4%. O açúcar foi na contramão, com queda de 13,3%. O PIB do agro somou R$ 3,06 trilhões, 24,0% do total nacional, com crescimento nominal de 9,5% contra 8,8% da economia.
O país tinha 9,18 milhões de empresas e produtores rurais ligados ao agronegócio em 2025, alta de 1,3% sobre o ano anterior, contra 1,4% do total de empresas. A edição passada do estudo mostrava pequenos negócios crescendo mais rápido que os grandes, e em 2025 isso se inverteu, já que os pequenos portes, de MEI a empresa de pequeno porte, avançaram entre 1,7% e 1,9%, as médias cresceram 3,8% e as grandes também passaram a crescer mais rápido que os pequenos, pela primeira vez na série. Centro-Oeste (+5,7%) e Norte (+5,6%) lideraram o crescimento regional, e as cooperativas fizeram mais de R$ 150 bilhões em compras no ano, em itens que vão de defensivos e fertilizantes a diesel, equipamentos pesados e veículos.
Carlos Pinto liga a inversão por porte ao custo do crédito. “Durante anos foi o pequeno negócio que puxou a abertura de empresas no agro, e em 2025 isso virou. Com a Selic chegando a 15% em junho o crédito encareceu, e quem sente primeiro é o menor, que tem menos acesso a hedge e a financiamento diversificado. A safra foi recorde, mas a margem de quem produz em escala menor ficou apertada”, diz.
Recuperações judiciais e efeito dominó

Foto: Shutterstock
No capítulo sobre recuperações judiciais, com dados de 2023 a 2025, o crescimento anual passou de 7,5% em 2024 para 10,4% em 2025, o que dá uma nova empresa do agro em recuperação a cada 2,5 dias úteis, em média. Os empregos vinculados a essas empresas caíram de 101.548 para 89.330, perda de 12.218 postos, e o valor médio transacionado por empresa recuou 4,2%. Segundo o estudo, o desgaste continua depois do pedido, e a empresa média perde 30% do poder transacional até o terceiro ano de recuperação.

Fonte: Agronegócio em Números, 4ª edição (IBPT e Empresômetro)
Tomando como grande empresa aquela com mais de R$ 200 milhões transacionados por ano, a base mostra que cada uma que entra em recuperação judicial atinge diretamente outras 27 companhias, das quais cinco também pedem recuperação e 22 desaparecem por falência ou encerramento. O estudo explica que o pequeno fornecedor, sem capital para atravessar o congelamento de créditos e sem escala para bancar o custo de uma recuperação própria, costuma fechar sem pedir nada.
Na leitura de Carlos Pinto, o número de empresas em recuperação é só a parte visível do problema. “O número de empresas em recuperação judicial é o que aparece na manchete, mas o que preocupa mesmo é o que acontece em volta. Uma grande empresa que entra em RJ leva outras 27 junto, e a maior parte some sem nem pedir recuperação. Quem analisa risco no agro precisa olhar a cadeia de fornecedores junto com o balanço da empresa”, afirma.
Defensivos e logística
No capítulo de defensivos, as vendas de microbiológicos cresceram 55% entre o primeiro semestre de 2025 e o mesmo período de 2026, com Centro-Oeste e Sudeste concentrando 73% do mercado e a liderança ainda pulverizada, com Octane no Centro-Oeste, Reverb no Sudeste, Bombardeiro no Sul, Serenade no Nordeste e Arvatico no Norte. Nos fungicidas, mercado mais maduro, Belyan assumiu a liderança nacional que em 2024 era de Excalia e lidera três das cinco regiões, e as outras duas ficam com Blavity. O canal de compra também mudou, e em 2025 76% das transações de defensivos analisadas aconteceram por e-commerce, WhatsApp ou outros meios não presenciais, contra 63% em 2024.
Carlos Pinto vê nos dois movimentos um setor técnico que passou a comprar de outro jeito. “A cadeia de defensivos é uma das mais técnicas do agro e hoje fecha três em cada quatro vendas sem balcão e sem vendedor na porteira. Nos biológicos, que cresceram 55%, ainda não existe líder nacional, e isso abre espaço para quem entender cada região”, diz.
Na logística, o Empresômetro cruzou milhões de conhecimentos de transporte e notas fiscais eletrônicas, e os CT-es do agronegócio somaram 267,3 milhões em 2025, alta de 20% contra 13,4% do país, o que elevou a participação do setor no total emitido a 10,8%, a maior da série. O preço médio do frete caiu 8,9%, para R$ 516,90 por CT-e, mas o valor total pago, de R$ 138,2 bilhões, cresceu 9,3% puxado pelo volume.
Sobre o estudo
O Agronegócio em Números, em sua quarta edição, é produção do IBPT e do Empresômetro. O estudo define agronegócio como a cadeia inteira, com indústria e serviços que usam, transformam ou comercializam insumos agropecuários, e não só a agropecuária medida por órgãos como o IBGE. Os dados vêm do Ministério da Agricultura, da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Censo Agropecuário, da Receita Federal, do IBGE e da Embrapa, com valores nominais, sem deflacionamento. A idealização é de Carlos Alberto Pinto Neto, Gilberto Luiz do Amaral é head de estudos e a coordenação é de Fábio Felipe Dáquilla Prates. No prefácio, Amaral diz que preservar a capacidade de crescimento do setor em 2026 será tão importante quanto seguir ampliando volumes. Dáquilla afirma que a agenda do ano é defensiva, com mais atenção à liquidez e à gestão de riscos e sem abrir mão da verticalização, e que o país precisa reduzir juros com urgência.
Sobre o IBPT
O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) foi fundado em 1992 e se dedica ao estudo do complexo sistema tributário no país, sendo reconhecido pela adoção de uma linguagem clara e precisa à sociedade sobre a realidade tributária brasileira. O IBPT também lançou bases e fundamentos para viabilizar a lógica da transparência fiscal, promovendo conscientização tributária.





