Ausência de Lula foi sinal claro do distanciamento do governo com o agro

Por João Henrique de Souza Freitas

A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no anúncio do Plano Safra 2026/27, deixando essa responsabilidade ao vice-presidente Geraldo Alckmin, não é apenas um detalhe protocolar — é um sinal político claro de distanciamento do governo em relação ao agronegócio brasileiro.

O Plano Safra não é um programa qualquer. Ele é o principal instrumento de sustentação da produção agrícola nacional, responsável por viabilizar o crédito que garante o plantio, a colheita e a competitividade do Brasil no cenário internacional. Quando o presidente da República não assume esse protagonismo, a mensagem que chega ao produtor rural é de falta de prioridade.

E o problema não é apenas simbólico — ele é estrutural.

Mesmo com números que podem parecer elevados, a realidade no campo é outra. O crédito está cada vez mais caro e inacessível. Em um cenário de juros elevados, que podem ultrapassar 18% ao ano em operações fora das linhas subsidiadas, muitos produtores simplesmente não conseguem financiar suas atividades. E pior: parte significativa dos recursos anunciados sequer chega na ponta, travada por burocracia, falta de equalização e limitações orçamentárias.

Enquanto isso, o produtor enfrenta um cenário extremamente adverso. Os preços das principais commodities, como soja, milho e até o setor sucroenergético, vêm pressionados no mercado internacional, comprimindo margens e tornando a atividade cada vez mais arriscada. Produz-se mais, investe-se mais, mas ganha-se menos.

O custo de produção disparou nos últimos anos — em algumas regiões, o custo da soja já chega a até R$ 9 mil por hectare – e o apoio governamental não acompanha essa realidade. O resultado é um campo endividado, pressionado e sem previsibilidade.

Além disso, o Brasil enfrenta dificuldades no mercado internacional, especialmente em setores estratégicos como a carne, onde barreiras comerciais e exigências sanitárias exigem uma atuação firme e coordenada do governo — algo que claramente não tem ocorrido com a intensidade necessária.

O próprio setor produtivo já deixou claro o tamanho da necessidade: entidades do agro chegaram a solicitar valores na casa de R$ 670 bilhões para o Plano Safra, com juros mais baixos e maior acesso ao crédito. Isso mostra o abismo entre o que o campo precisa e o que vem sendo entregue.

O que se vê hoje é um Plano Safra que não resolve o principal problema do produtor: acesso real ao crédito com condições viáveis. Sem isso, não há investimento, não há crescimento e não há segurança para produzir.

Como secretário de Agricultura de Araraquara e vice-presidente do Sindicato Rural de Araraquara, afirmo com responsabilidade: o agro brasileiro continua forte, mas está sendo testado ao limite.

O Brasil não pode tratar o setor que sustenta sua economia com indiferença. O produtor rural precisa de respeito, previsibilidade e políticas públicas que funcionem na prática — não apenas de anúncios.

Se o governo não compreender isso com urgência, quem vai pagar essa conta não é apenas o campo, mas toda a economia brasileira (João Henrique de Souza Freitas é produtor rural, secretário de Agricultura de Araraquara e vice-presidente do Sindicato Rural de Araraquara)

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