Pedro de Camargo Neto aponta falta de liderança e organização na cadeia produtiva na exclusão do Brasil do mercado europeu.
Entrevista com Pedro Camargo Neto. Empresário e pecuarista.
O Brasil precisa estar preparado para atender às exigências dos compradores de seus produtos e não adianta classificar como medida protecionista a retirada do País da lista de fornecedores de carnes pela União Europeia (UE). Não resolverá o problema, enfatiza o empresário e pecuarista Pedro de Camargo Neto. “Não interessa se é protecionismo ou não. Precisamos sempre nos preparar para atender, mesmo que estejamos reclamando. A legislação europeia dos antimicrobianos tem anos”, disse ele em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast Agro.
Para Camargo Neto, o Brasil tem capacidade de atender às exigências solicitadas pela UE quanto às garantias adicionais de que as carnes exportadas ao bloco não façam uso de antimicrobianos nas criações, conforme o regulamento do bloco europeu. Ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), ex-secretário de Produção e Comércio do Ministério da Agricultura, fundador e ex-presidente do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São Paulo (Fundepec), Camargo Neto defende que indústria e governo atuem com celeridade para organizar a cadeia produtiva quanto aos protocolos adotados e corrigir o tema.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
O Brasil tem capacidade de atender às exigências da União Europeia quanto às garantias adicionais de que as carnes exportadas ao bloco não façam uso de antimicrobianos nas criações, conforme o regulamento do bloco europeu?
Com certeza. É preciso organizar as cadeias produtivas. A cadeia dos bovinos é mais difícil, por ser mais longa e complexa. Porém, tem a vantagem de já existir o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Sisbov), justamente criado por exigência da UE na época da Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), doença popularmente conhecida como mal da vaca louca.
É uma exigência sanitária. Precisaremos acrescentar os protocolos antimicrobianos que estão sendo solicitados. A pecuária é moderna, e o setor frigorífico também. A Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura é preparada. É difícil entender por que não fizeram antes.
O País tem um dos maiores rebanhos do mundo. É viável adotar segregação e rastreabilidade individual, como a UE pede?
O Sisbov está funcionando e atende hoje às cotas existentes. É necessário ampliar as exigências e os protocolos.
Por que o Brasil ficou atrás dos vizinhos Uruguai e Argentina nessa discussão?
É lamentável para todos, do pecuarista ao governo, passando pela indústria. Agora é olhar para frente e corrigir.
Na sua opinião, é uma questão técnica ou estamos diante de medida protecionista?
Vejo pecuaristas chamando de protecionismo. A visão da força e da competitividade da nossa pecuária muitas vezes cega. Lembro da confusão que foi quando a epidemia de EEB assustou a Europa. Colocaram identificação individual nos bovinos e exigiram que os exportadores fizessem o mesmo.
Foram meses de idas e vindas até a própria UE compreender melhor a doença e aceitar o acordo do Sisbov. Um brinco nos últimos 90 dias em um bovino não acrescenta nada em relação à Guia de Trânsito Animal (GTA) já existente, muito menos para EEB. Na época, a UE exigiu e nós atendemos, protecionismo ou não, pois nunca tivemos epidemia de EEB.
É uma tendência ir além das exigências do produto exportado. Compradores querem saber como e onde foi produzido, rastreado e certificado. O mundo mudou. Não precisamos pagar para aprender. Nas questões ambientais ocorre o mesmo. A União Europeia está à frente.
Antigamente, importadores olhavam o produto na entrada; agora querem saber como foi produzido, além de questões sanitárias e ambientais. Eles exigem que acompanhemos a legislação deles, além da nossa. Chamar de protecionismo, como antigamente fazíamos, hoje não resolve. Ser ou não ser protecionista não é a questão.
Há resistência de produtores da Europa, sobretudo da França, quanto ao acordo entre Mercosul-UE, alegando que poderá haver “inundação” de carne bovina brasileira no bloco. O lobby agrícola, combinado com a vigência provisória do acordo, pode ter impulsionado a retirada do Brasil da lista?
Todas as proteínas têm cotas para entrada no bloco europeu com benefício tarifário. Não vai ocorrer inundação, e existem salvaguardas agrícolas. Aceitamos o princípio da precaução e tudo o que pediram. O regulamento europeu com essas exigências é muito anterior à recente assinatura do acordo com o Mercosul.
O protocolo quanto ao novo regulamento de antimicrobianos da UE foi aprovado em 2023. Mas tanto governo quanto setor alegaram surpresa com a retirada do Brasil da lista, já que havia negociações em andamento desde outubro do ano passado. Faltou uma concertação entre setor produtivo e indústria para se adequar às novas exigências?
Essa pergunta precisa ser respondida pelo governo e pelos setores. O editorial do Estadão chamou educadamente de cochilo, mas acho que foi pior do que isso. Faltou liderança. Não culpo somente o Ministério da Agricultura, mas as cadeias de proteína animal como um todo.
Posso até desculpar o mel e mesmo o pescado, que são cadeias mais novas. Mas, para aves, suínos e, em especial, bovinos, deixar isso acontecer é inaceitável. Para aves, a adaptação vai ser rápida, porque o ciclo é curto. Já o boi demora para nascer e crescer.
E não interessa se é protecionismo ou não. Precisamos sempre nos preparar para atender, mesmo que estejamos reclamando. A legislação europeia sobre antimicrobianos tem anos. Como imaginaram que não iriam obrigar o Brasil a atender? O setor frigorífico tem experiência para não se iludir dessa maneira. Não compreendi. Não procuro culpados, mas é essencial esclarecer o que ocorreu.
Diante do ciclo mais longo da pecuária, há tempo hábil para o Brasil cumprir os novos protocolos em 3 de setembro, quando a medida passar a valer?
Teoricamente, são necessários 30 meses para o ciclo de vida completo do gado. Espero que negociem uma antecipação. Agora é organizar, colocar para rodar, mostrar seriedade e, então, chamar a UE para auditar, havendo possibilidade de anteciparem o prazo teórico. Ir além disso seria pressionar a autoridade sanitária deles, o que não se faz.
O Brasil tem tudo para evoluir rapidamente. Já somos os campeões da produção e, agora, vamos nos tornar os campeões da comprovação. Basta a cadeia produtiva, pública e privada, se organizar e dialogar. Estamos prontos para isso.
O governo brasileiro montou uma ofensiva política em paralelo às discussões técnicas a fim de acelerar as tratativas. Como o sr. avalia a atuação que o governo vem tendo nesse tema?
Correndo atrás do prejuízo. Antes tarde do que nunca. Chega de passar vergonha.
Quais são os riscos para a pecuária nacional caso o País não consiga reverter a medida e fique fora da lista?
Vamos nos organizar a tempo. O boi é que demora para nascer e crescer.
A eventual retirada da lista pela UE pode levar outros países a revisarem o acesso do Brasil aos seus mercados de carnes?
Não acredito. O Brasil vai reagir. Não podemos insistir no erro.
Além da questão envolvendo antimicrobianos para a UE, a China suspendeu cinco frigoríficos brasileiros por exportação de carne com resíduos de substância vetada no país. Há mecanismos de controle que precisam ser aperfeiçoados? Qual o risco para a reputação do País?
Rigor é essencial e responsabilidade mútua do governo com o setor privado. O mundo hoje compra confiança, e não somente produto. Precisamos organizar a cadeia produtiva. O setor lutou tanto pelo autocontrole, mas é essencial ter competência na execução. O Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sispoa) tem uma história de credibilidade (Estadão)





