O Brasil tem jeito

Editorial O Estado de S.Paulo

Debate inaugural do projeto ‘Brasil Adiante’ mostra que o primeiro passo é forjar um projeto de país

O Brasil não está condenado à mediocridade. Não faltam ao País recursos, mercados, capacidade produtiva, capital humano e relevância internacional. Tampouco faltam diagnósticos sobre suas mazelas. Os principais entraves ao desenvolvimento nacional são sobejamente conhecidos há anos.

Ainda assim, governo após governo, legislatura após legislatura, o Brasil permanece preso à armadilha da renda média, incapaz de transformar seu enorme potencial em garantia de vida minimamente digna para todos os cidadãos.

Mas o atraso, ao que parece, deixou de provocar indignação. O debate público, cada vez mais dominado pela lógica facciosa que orienta o lulismo e o bolsonarismo, não privilegia a reflexão racional sobre um futuro coletivo mais auspicioso. Discutem-se eleição, escândalos e conveniências partidárias de ocasião, mas raramente os reais interesses da Nação. Aqui, a bússola da política perdeu o norte.

Foi justamente para ajudar o País a recobrar o prumo que o Estadão lançou o projeto Brasil Adiante, reunindo economistas, juristas, cientistas políticos, empresários e representantes da sociedade civil para propor soluções concretas para os problemas nacionais e, mais importante, saídas para os entraves que impedem sua implementação. É seguro afirmar que o Brasil sofre menos por desconhecer suas vicissitudes do que por sua incapacidade de construir consensos mínimos para enfrentá-las.

Entre as reflexões suscitadas no primeiro encontro do Brasil Adiante, na quarta-feira passada, talvez a mais basilar tenha sido a de Pedro Parente: “Sabemos onde estamos, mas não para onde ir”. A frase resume nossa miséria. Se não faltam os meios, faltam ao Brasil lideranças políticas genuinamente comprometidas com o interesse público e capazes de mobilizar a sociedade civil em torno de uma visão de país orientada pelo bem comum.

O desenvolvimento não surge por geração espontânea. Exige formulação, diálogo honesto, coordenação política, estabilidade institucional e clareza para definir objetivos que transcendam governos e ciclos eleitorais. Exige, sobretudo, políticas de Estado e, consequentemente, estadistas – essa espécie em extinção no habitat político brasileiro, dominado pelo populismo e pela estreiteza dos olhares voltados sempre à próxima eleição.

Enquanto outros países de traços semelhantes aos do Brasil conseguiram avançar em produtividade, inovação tecnológica e fortalecimento institucional, aqui se desperdiçam energia e dinheiro com o patrimonialismo, disputas ideológicas estéreis e reformas tíbias, quase sempre aquém do necessário.

A consequência é um país de crescimento medíocre, investimento escasso e desilusão para seus cidadãos. Não surpreende que tantos brasileiros, ano após ano, percam a fé no Brasil e deixem de votar ou decidam recomeçar suas vidas no estrangeiro.

Mas o Brasil tem jeito. Romper os grilhões que o mantêm aferrado ao atraso é o maior desafio da Nação. Como bem lembrou no evento o economista Marcos Mendes, pesquisador associado ao Insper, não há uma “bala de prata” capaz de resolver os problemas do Brasil. Não basta aprovar uma ou duas reformas pontuais, ainda que urgentes.

É preciso, antes, restaurar uma ideia de projeto nacional, o que pressupõe espírito público, coesão social, responsabilidade política e compromisso genuíno com o bem-estar das atuais e das futuras gerações de brasileiros. Sem isso, o País continuará administrando frustrações.

O encontro inaugural do Brasil Adiante mostrou que ainda existe, na sociedade civil, vida inteligente e disposição para pensar o País para além da polarização que amesquinha o debate público. É um começo mais do que bem-vindo – necessário (Estadão)

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