Brasil, o celeiro do mundo? Não, mas é peça central do supermercado global

Mais de 190 países importam commodities brasileiras 

Por Marcos Jank

Nenhum país quer entregar sua segurança alimentar a terceiros; o Brasil é fornecedor grande, confiável e pontual de commodities em dez cadeias agroindustriais

“O Brasil é o maior celeiro do mundo” — e poderia ser também o maior supermercado do mundo! Ouço essas duas afirmações o tempo todo nas minhas andanças pelo País e resolvi examiná-las à luz dos dados disponíveis. As evidências revelam um quadro bem diferente das percepções usuais.

O Brasil responde por cerca de 6% da produção agropecuária mundial (em volume calórico), atrás da China (16%), dos Estados Unidos (11%) e da Índia (9%). Nas exportações, somos o segundo maior exportador mundial (US$ 170 bilhões em 2025) — o equivalente a 9% do valor total do comércio agrícola global —, e já consolidamos nossa posição de líderes na exportação de commodities agropecuárias.

No mundo de hoje, não acredito que exista qualquer país que possa ser chamado de “celeiro do mundo”, por uma razão muito simples: nenhuma nação quer depender de outra para se alimentar.

Os países fazem de tudo para serem seus próprios celeiros, sem depender de importações. Basta observar que apenas 22% da produção agropecuária mundial se destina ao comércio internacional — ou seja, 78% vai para autoconsumo nos próprios países produtores. No caso do Brasil, se convertermos toda a produção agrícola em equivalente calórico, 60% permanece no país e 40% é exportado.

Seria ingenuidade imaginar que qualquer país com mais de 50 milhões de habitantes entregaria sua segurança alimentar a terceiros. Se o fizer, é porque lhe faltam de fato agricultores, recursos naturais ou tecnologia.

Basta olhar para a China, hoje o maior produtor, consumidor e importador mundial de produtos agropecuários e alimentos: compra no exterior apenas 15% do que consome — sendo a soja o principal item, com 85% de dependência externa.

É exatamente nesta lacuna que o Brasil se encaixa: fornecedor grande, confiável e pontual de commodities em dez cadeias agroindustriais que complementam os desequilíbrios globais de oferta e demanda.

Mas, se não há celeiros do mundo, o Brasil está muito mais presente nos “supermercados do mundo” do que as pessoas imaginam — e não apenas em supermercados, mas também em mercearias, açougues, serviços de alimentação, lojas de conveniência, hotéis, restaurantes e cafeterias.

É verdade que raramente encontramos produtos ou marcas do agro brasileiro nesses canais de distribuição no exterior, mas isso não significa que o setor não esteja lá. Mais de 190 países importam commodities brasileiras, que em geral se destinam às indústrias de processamento de alimentos e bebidas nos países-destino, gerando milhares de produtos e marcas finais que “carregam” insumos brasileiros em sua formulação, sem que o varejista ou o consumidor final o saibam.

Se entendermos “celeiro” como produção agropecuária e “supermercado” como vendas finais ao consumidor, o Brasil se encaixa muito mais como um pilar central do supermercado global do que como celeiro do mundo — afinal, os celeiros estão nos próprios países (Estadão)

Related Posts

  • All Post
  • Agricultura
  • Clima
  • Cooperativismo
  • Economia
  • Energia
  • Evento
  • Fruta
  • Hortaliças
  • Meio Ambiente
  • Mercado
  • Notícias
  • Opinião
  • Pecuária
  • Piscicultura
  • Sem categoria
  • Tecnologia

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Edit Template

Quer receber notícias do nosso Diário do Agro?
INSCREVA-SE

You have been successfully Subscribed! Ops! Something went wrong, please try again.

Posts Recentes

  • All Post
  • Agricultura

© 2024 Tempo de Safra – Diário do Agro

Hospedado e Desenvolvido por R4 Data Center