Por Marcos Jank
No 15º Plano Quinquenal, a agricultura deixa de ser, pela primeira vez, um problema econômico-social para se tornar uma questão de segurança nacional e existencial do Estado chinês
O crescimento extraordinário do agronegócio brasileiro nas últimas quatro décadas combina recursos naturais, tecnologia tropical e produtores arrojados. Mas deriva também da imensa demanda chinesa por commodities agropecuárias. A transferência de mais de 200 milhões de trabalhadores rurais para as cidades criou a indústria manufatureira mais competitiva e a maior classe média emergente do planeta.
Por conta disso, nossas exportações agro para a China cresceram 20% ao ano desde 2000 e hoje somam mais de US$ 50 bilhões anuais. A China é o maior importador mundial de commodities agropecuárias e o Brasil, o seu maior fornecedor.
Mas a China não brinca em serviço no tema segurança alimentar. Em março foi publicado o 15º Plano Quinquenal (2026-2030) com uma novidade conceitual: pela primeira vez a agricultura deixa de ser um problema econômico-social do país para se tornar uma questão de segurança nacional e existencial do Estado chinês.
É a inflexão mais significativa desde que Deng Xiaoping desmontou o coletivismo das comunas de Mao Zedong, que havia produzido a Grande Fome de 1958 a 1962. Agora, a agricultura será oficialmente tratada como prioridade de segurança e fronteira tecnológica de ambição global da China.
As metas do 15º Plano são concretas: produção de 725 milhões de toneladas de grãos por ano, mais do que o dobro da produção brasileira, expansão de terras de alto padrão com irrigação e mecanização, sementes soberanas com biotecnologia em larga escala, mais seguro e crédito e melhor infraestrutura no campo.
Outros temas centrais são o aumento da renda rural, a integração urbano-rural e programas de saúde e educação no campo, onde predominam milhões de pequenos produtores já idosos. Transformar essa agricultura envelhecida e fragmentada em potência tecnológica será um enorme desafio.
O plano aposta em biologia sintética e proteínas alternativas como fronteiras de inovação, temas por ora ainda sem metas numéricas. A consultoria global Systemiq publicou recentemente o relatório China’s Food Future (O Futuro Alimentar da China), afirmando que a China vai reduzir suas importações de soja em 25% até 2030 e que as proteínas alternativas vão atender entre 35% e 55% da demanda de proteína animal até 2050. Essas projeções precisam ser lidas com ceticismo.
Sistemas agroalimentares são governados por biologia, agronomia e cultura, e são muito mais resistentes à transformação rápida do que painéis solares, baterias e veículos elétricos, em que o sucesso chinês foi enorme.
Enquanto o potencial de crescimento da oferta agrícola brasileira é imenso, o da China é limitado pela escassez de terras férteis e restrições severas no uso de água. A China continuará sendo o maior produtor, consumidor e importador de produtos agropecuários do mundo por muito tempo, e o Brasil, seu fornecedor mais competitivo e confiável. Mas a prudência nos recomenda buscar outros mercados. (
Marcos Jank é professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia; Estadão)






