- Pressão vem após seguidos meses de queda nos valores recebidos pelos produtores
- Câmbio abaixo de R$ 5 e oferta externa maior devem acelerar importações no setor
O preço do leite vem com forte aceleração no campo nos primeiros meses deste ano. Apenas em março, o valor pago ao produtor teve alta de 10,5% por litro em relação a fevereiro, o que elevou o acumulado do trimestre para 18%, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).
A elevação dos preços continuou em abril, segundo o Centro de Inteligência do Leite da Embrapa Gado de Leite. De janeiro a abril, conforme dados da empresa, o aumento foi de 21%. Essa recomposição é necessária para um equilíbrio econômico maior das finanças dos produtores, segundo as duas instituições. Isso porque, mesmo com a alta acumulada no ano, os preços do primeiro trimestre ainda são 24% inferiores aos de igual período do ano passado, descontada a inflação.
O setor vive um momento difícil. A recuperação dos preços no campo pode não continuar, devido ao crescimento econômico menor, taxas de juros maiores e maior endividamento das famílias. De outro lado, a guerra no Oriente Médio eleva custos tanto para produtores quanto para as indústrias. No campo, fertilizantes, diesel e outros insumos necessários à produção sobem. Na indústria, fretes e embalagens plásticas também encarecem, devido ao aumento nos preços do petróleo.
Outro fator que inibe uma recuperação interna é o câmbio. O dólar abaixo de R$ 5 favorece as importações em um momento de expansão da produção externa. As importações de março atingiram 235 milhões de litros equivalentes, o maior patamar desde meados de 2024, segundo a Embrapa. Nos últimos 12 meses, a alta é de 31%. Produção externa maior e aumento dos estoques mundiais fizeram o preço internacional do leite em pó integral recuar de US$ 4.117 por tonelada, em abril de 2025, para US$ 3.687, no mês passado, uma queda de 10% no período.
Embrapa e Cepea afirmam que a captação interna de leite cai devido ao período de entressafra e a menores investimentos na produção, em vista do longo período de seguidas quedas nos preços recebidos pelos produtores. Nos três primeiros meses do ano, os produtores tiveram uma captação 11% inferior à de igual período do ano passado, segundo o Cepea.
Essa menor oferta provoca uma corrida das indústrias processadoras pelo leite, elevando os preços no campo. No final do ano passado, o produtor recebia R$ 1,98 por litro. Em abril, o valor médio nacional foi de R$ 2,40, aponta acompanhamento da Embrapa.
Ao contrário do que ocorre no Brasil, a oferta aumenta em grandes centros produtores. É recorde na Nova Zelândia —com alta de 9% em março em relação a igual mês do ano passado— e cresce na União Europeia, nos Estados Unidos, na Argentina e no Uruguai, segundo acompanhamento do Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
A alta dos preços no campo já chega ao bolso do consumidor. Em 2025, o preço do leite acumulou queda de 12% para os paulistanos, segundo a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Só em março passado, no entanto, o produto já teve alta de 11% nas prateleiras dos supermercados.
Os dados de abril, que devem ser divulgados nesta terça-feira (5/5), já indicavam alta de 21,6% nos últimos 30 dias terminados na terceira semana do mês. A recomposição de preços, porém, ainda é menor nos derivados de leite, que tiveram reajuste de 1,5% no mesmo período de abril, segundo a Fipe (Folha)




