Por que o próspero agro vive uma escalada de recuperações judiciais?

Por Cristiane Barbieri

Fertilizantes e combustíveis em alta, por conta do conflito, colocam pressão extra em setores que começavam a se reorganizar após recorde de pedidos de recuperações judiciais.

“É tudo o que o agronegócio não precisava neste momento”, diz José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados. Na verdade, é difícil encontrar algum setor da economia que precise de mais uma guerra, como a deflagrada pelos EUA e Israel contra o Irã, há pouco mais de um mês. Mas especialistas no setor, como Mendonça de Barros, dizem que o conflito acontece num momento particularmente desafiador para a área.

Não se trata de uma crise no agronegócio brasileiro, setor que responde por cerca de 25% do PIB. No ano passado, a agropecuária registrou expansão de 11,7% em relação a 2024, segundo o IBGE. Para este ano, é esperada desaceleração nesse ritmo, mas ainda com produção elevada.

“Há segmentos dentro dessa cadeia que estão muito bem, como proteínas, café e açúcar”, diz Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA. “Mas é fato que o setor passa por um grande ajuste e a guerra do Irã é mais uma âncora que segura essa retomada.”

Isso porque alguns elos dessa cadeia, principalmente os ligados aos grãos, viveram sucessivos reveses nos últimos anos. Entre eles, altas nos custos de produção, supersafras que derrubaram lucros e a “estilingada” nos juros, com o consequente recorde de recuperações judiciais para o setor. Uma crise energética, como a causada pela guerra do Irã, com impacto tanto em combustíveis quanto em fertilizantes, agravará o cenário para quem já está com a corda no pescoço.

Época de vacas gordas

Responsável por salvar o PIB brasileiro na pandemia, o agronegócio parecia ter entrado, no início da década, numa temporada de fartura infinita. A alta na produção em 2020, em comparação com o ano anterior, foi de nada menos do que 24,3%, segundo estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, com a CNA.

Nos anos seguintes, a mistura de câmbio favorável às exportações, adoção de novas tecnologias, juros baixos e dinheiro abundante no mundo prometia uma expansão − e rentabilidade − ainda mais forte do celeiro do mundo.

Até mesmo um novato de peso, que jamais tinha calçado botas, chegou para irrigar o campo: o mercado financeiro. Com o objetivo de tirar a dependência do agro do Plano Safra, repassado principalmente pelo Banco do Brasil, o governo criou a Nova Lei do Agro, em 2020.

Entre outras novidades, o marco legal abriu a possibilidade da criação dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), uma modalidade de investimento isenta de Imposto de Renda. Outros incentivos também permitiram o avanço dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) em escala inédita.

Resultado: o patrimônio líquido dos fiagros foi de R$ 10 bilhões, em 2022, para R$ 38 bilhões, segundo os dados mais recentes de 2026, com 750 mil investidores ativos na B3. Já o estoque de CRAs foi de R$ 65 bilhões, em 2021, para uma estimativa de R$ 180 bilhões no ano passado.

Por outro lado, fundos de private equity (que compram participação em empresas) passaram a investir na consolidação de cadeias varejistas e atacadistas em todo o País. Gestoras fizeram com que o “balcão da esquina” que vendia adubo em qualquer cidade do interior se transformasse em redes gigantescas.

Lojas bonitas, padronizadas e com muitos vendedores no campo. O objetivo era ganhar escala nas negociações com os grandes produtores de insumos e fertilizantes, dar eficiência logística, bem como crédito ao produtor.

Mas veio a primeira e inesperada guerra, com o ataque da Rússia contra a Ucrânia, em 2022. De uma hora para outra, o preço do cloreto de potássio, usado em culturas como soja, milho, cana e café, foi de US$ 250 para US$ 1 mil a tonelada.

“Tanto a pandemia quanto a guerra da Ucrânia revelaram a vulnerabilidade da dependência internacional na área de fertilizantes”, diz Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro. “Essa história de que ‘em se plantando, tudo dá’ não é verdade: o Brasil só é tão produtivo graças à correção do solo com muita importação e seremos sempre dependentes do mercado internacional, o que não é nenhum demérito por conta do tamanho da nossa produção.”

Porém, pouco depois da guerra tornar os insumos mais caros e antes das cadeias globais de suprimentos se readequarem, o Brasil colheu sua maior safra. Foram mais de 300 milhões de toneladas em 2023, principalmente de milho e soja. A boa notícia virou prejuízo: o produtor, que tinha contas mais salgadas para pagar, recebeu menos por sua colheita − e enfrentou um primeiro ano de restrições.

“Veja que interessante: eu, em 1964, comecei a tomar conta de uma fazenda de café do meu pai em Maringá, quando ainda era estudante, e vi a mesma coisa que hoje: quando o preço do café ia bem, o produtor comprava a fazenda do vizinho, caminhonete nova, trator e, com qualquer balançadinha, ele quebrava”, diz Mendonça de Barros. “Eu fico impressionado que, até hoje, o comportamento é exatamente o mesmo.”

Anos de vacas magras, com dívidas altas

No ano seguinte, em 2024, apesar de os custos com fertilizantes terem caído entre 25% e 30% em relação ao ano anterior, o preço da produção despencou ainda mais rápido em relação ao ano anterior. Isso porque foi a vez de EUA e Argentina brilharem com safras recordes. Por outro lado, as enchentes no Rio Grande do Sul fizeram com que os agricultores perdessem safras inteiras prontas para colheita, mas continuassem com dívidas com juros altos.

Entrou então na equação a variável com a qual o agricultor não estava acostumado a lidar: o pagamento dos empréstimos captados junto ao mercado financeiro. Se até então crises como essa eram dribladas com concessões conseguidas junto ao governo, via Banco do Brasil, agora o problema era outro.

“Houve uma superoferta de crédito no período em que o agro crescia e ninguém queria acreditar que aquele momento de entusiasmo do setor ia acabar”, afirma Rafael Pesce, sócio da consultoria Arm Gestão, especializada em reestruturação de empresas, sobretudo do agronegócio. “Isso resultou num cenário de produtores muito endividados, que colocaram as fazendas como garantias, e os bancos foram para cima querendo executá-las.”

Enquanto no Plano Safra o governo subsidia parte dos juros cobrados nos financiamentos ao agronegócio, nos empréstimos conseguidos junto ao mercado financeiro, a taxa de retorno tem como base algum indicador, como CDI, mais uma porcentagem pré-determinada.

Assim, enquanto um crédito via Pronampe (que é o Plano Safra para os médios produtores) cobra em média 10% de juros ao ano, a taxa dos CRAs para médias e grandes empresas fica em CDI (atualmente em 14,65%) mais um porcentual que varia entre 5% e 10%.

“Imagine o quanto de retorno uma empresa agrícola tem de alcançar para pagar um empréstimo de CDI mais 8%”, afirma Serigati, da FGV Agro. “Com o atual patamar dos juros, o produtor rural não consegue nem honrar a rolagem da dívida com sua margem.”

Para ele, houve um aprendizado dos dois lados − tanto do produtor quanto de parte do mercado financeiro, que passou a operar na área mais recentemente. Mendonça de Barros concorda. “Muita gente que entrou para fornecer crédito não tinha experiência adequada, usava algoritmos para conceder empréstimos nem sempre ajustados ao negócio”, afirma. “Isso resultou numa certa trava e hoje, para quem está endividado, a vida ficou difícil.”

Recorde de recuperações judiciais

Essa explosão nos juros foi um dos motivos que fez com que o agro fechasse o ano de 2025 com quase 2 mil solicitações de recuperação judicial, segundo a Serasa Experian. O crescimento no número de pedidos foi de 56,4% em relação a 2024, quando foram contabilizados 1.272 requerimentos. Em 2023, as solicitações totalizavam 534, o que evidencia a escalada.

Do campo, surgiu o efeito cascata, que afetou também as distribuidoras que estavam se consolidando por meio dos fundos de private equity. “A situação das revendas é mais grave do que a dos produtores rurais”, diz Pesce. “Eles, pelo menos, têm bens a negociar.”

Para ficar num exemplo, a Agro Galaxy pediu recuperação judicial em 2024, com dívidas de R$ 4,6 bilhões. Outras tiveram de cortar custos e readequar planos de expansão.

“A economia está cansada do período longo de juros muito altos e o agro, sendo muito sensível a crédito e razoavelmente alavancado em alguns casos, sofre muito”, afirma Castro Alves, do Itaú BBA. “O cenário macroeconômico certamente agravou o quadro de dificuldade para o setor.”

Os especialistas dizem, porém, que uma indústria de recuperação judicial, que existe no setor há pelo menos uma década, ajudou a detonar essa explosão no recorde de pedidos. “Tem muito assessor que orienta o produtor a pedir a recuperação judicial para não pagar as dívidas e continuar com a safra, o que parece uma solução maravilhosa, mas no final, ele também fica sem crédito”, diz Mendonça de Barros. “Além disso, a gente viu algumas aberrações como casas com ‘quintais’, que não entram nos bens a serem usados na recuperação judicial, de 5 mil hectares.”

A expectativa era que esses tropeços do setor fossem se ajustando com o passar do tempo, com a venda de ativos por parte das empresas muito endividadas. Porém, a guerra do Irã já começa a trazer custos maiores, o que piora a situação de quem estava machucado. “Não será um aumento pequeno e já está se dando em fertilizantes e no diesel”, afirma Mendonça de Barros.

Nesse cenário, pesa ainda o fato de que refinarias, terminais petrolíferos e campos de gás de diferentes países do Oriente Médio terem sido atingidos, o que impede que as projeções de preços da energia voltem a patamares anteriores ao início da guerra.

“A região do Oriente Médio produz 30% dos fertilizantes do mundo e de 15% a 18% do usado no País, que dependem do fornecimento de gás”, afirma Castro Alves. “Há mitigantes em outros lugares do mundo, mas a tendência é que tudo se inflacione.” Para ele, não há a perspectiva de normalização rápida nos preços, como aconteceu na guerra da Ucrânia, exatamente pela questão da importância energética da região.

Por enquanto, os especialistas não começaram a fazer mudanças em suas projeções para o setor. Um dos motivos é que os produtores brasileiros podem postergar até o meio do ano a compra de insumos agrícolas − que subiram muito nas últimas semanas. Ao contrário dos fazendeiros do hemisfério norte, que estão pagando caro porque começam a plantar em breve.

“O conflito é um ingrediente a mais, muito preocupante, porque contamina o agro de duas formas: primeiro, os produtores já estão com as margens apertadas, sem sinal sugerindo que os preços de suas colheitas devam subir”, afirma Castro Alves. “Ao mesmo tempo, há um indicativo muito forte de que o custo para a próxima safra, para a soja que vai ser plantada no fim do ano, está muito mais elevado, principalmente por conta dos fertilizantes.”

Todos têm preocupação parecida na radar, bem como na hipótese de criação de uma política de combustíveis que segure o preço por um lado, mas garanta o abastecimento por outro. “O desabastecimento é muito pior do que a inflação dos combustíveis”, diz Serigati.

Porém, certamente o impacto inflacionário tende a pesar. “Se a guerra não aliviar, o preço do adubo não vai cair e, obviamente, esse custo vai pesar muito o ano que vem”, diz Castro Alves. “Estamos preocupados e bem cautelosos, porque não há muita visibilidade do fim do conflito até aqui.” (Estadão)

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