Por Celso Ming
Operação do sistema passa por complicações, o que não tem a ver com a expansão das fontes, mas com falta de planejamento e lentidão da infraestrutura elétrica
Este choque do petróleo é outra advertência de que não se podem atrasar programas de substituição de energia fóssil por energia limpa. E, no entanto, seguem as pressões do setor para que o governo dificulte as instalações de energias renováveis, entre elas as de equipamentos de energia solar nos telhados de residências e estabelecimentos comerciais.
Esses lobbies se apegam a questões técnicas. As instalações, chamadas Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), permitem que a energia elétrica não usada seja automaticamente retransmitida para a distribuidora. Em troca, gera um crédito em energia, que pode ser usada à noite, quando chove ou quando a insolação é fraca. Com sua expansão, repete-se a situação em que é gerado excedente sem escoamento. Esse excedente soma-se ao proveniente de geração eólica e de fazendas solares.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) recorre a cortes de geração de energia, denominados curtailment, destinados a garantir equilíbrio entre carga e geração, para que o sistema não entre em colapso. Esses cortes desperdiçam energia. Pelos cálculos da consultoria Volt Robics, em 2025 foi cortada no Brasil 20% da energia gerada, prejuízo de R$ 6,5 bi.
Graças à forte redução dos preços dos painéis fotovoltaicos, a MMGD ultrapassou os 39 GW de potência e, ao ritmo de hoje, em 2029 deve chegar aos 58 GW, mais de 4 vezes a potência da usina de Itaipu, a maior hidrelétrica do Brasil.
A complicação extra com que se depara a operação do sistema não tem a ver com a expansão das fontes renováveis. Tem a ver com falta de planejamento e com a lentidão com que se expande a infraestrutura do setor.
Tudo ficaria mais fácil se fosse possível armazenar energia. Sistemas de baterias acoplados a fazendas de energia solar ou a campos de energia eólica, como o governo pretende exigir dos novos grandes projetos, tendem a ser muito caros. Outra ideia é usar energia excedente para produzir hidrogênio líquido, o que requer alto investimento.
E uma terceira hipótese são as hidrelétricas reversíveis. Consiste em construir um segundo reservatório para a água que já passou pelas turbinas e rebombeá-la para o reservatório principal, usando para isso a energia elétrica excedente. É um jeito de armazenar energia em períodos de baixa demanda para liberá-la nos picos de consumo.
São soluções que exigem planejamento e decisão política, que é o que mais falta. Desestimular investimentos em energia renovável e usá-los como bode expiatório deixa o País vulnerável num setor altamente promissor (Estadão)





