Lula repete erro de 2022 ao cobrar que agronegócio ‘se ajoelhe’ a ele

Por Isadora Duarte (Broadcast)

Análise do Executivo é de que nunca houve tanto apoio e investimento no agro como na gestão atual, mas os números não são suficientes para o alinhamento do setor ao governo.

O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva Lula (PT) estremeceu novamente as pontes com o agronegócio ao dizer que o setor deveria não apenas votar, mas se ajoelhar a ele. Com a fala, Lula repete o episódio da eleição de 2022, quando associou empresários do agronegócio ao

Em 2022, no primeiro turno, durante a tradicional sabatina ao Jornal Nacional, da TV Globo, Lula classificou parcela do setor como “fascista” e “direitista”.

“O agronegócio, sabe, que é fascista e direitista, porque os empresários sérios que trabalham no agronegócio, que têm um comércio com o exterior, que exportam para a Europa, para a China, esses não querem desmatar. Esses querem preservar nossos rios, nossas águas, nossa fauna, mas tem um monte que quer. O atual presidente tinha um ministro do Meio Ambiente que dizia que era para invadir com a boiada, desmatar a Amazônia. Não precisamos plantar soja, milho, cana ou gado na Amazônia”, disse Lula na ocasião.

Naquele mesmo pleito, buscando corrigir a fala e se redimir com o agro, o presidente afirmou que o setor “não é uma coisa só”, que há dezenas de pensamentos políticos, econômicos, ideológicos e dissociou empresários do agro responsáveis e irresponsáveis.

Se há quatro anos o presidente relacionou parcela do setor ao regime totalitário e autoritário, agora comete o erro de atrelar sua rejeição no agronegócio a suposto preconceito racial.

“Você devia perguntar para eles: porque eles não gostam de nós, porque eles não votam em nós? O problema contra nós, acho que é uma questão de pele, é porque eu sou nordestino, ou porque eu sou pobre. Porque se dependesse de dinheiro do governo, eles deveriam não só votar, mas se ajoelhar para mim, porque nunca houve tanto dinheiro para a agricultura como agora”, disse Lula em ato de campanha em Florianópolis no último sábado, 19.

Novamente, a reação do agronegócio se repetiu, rechaçando a declaração de Lula, a qual foi classificada como “descabida e prepotente”.

Lula não quer apenas o apoio do agronegócio. O presidente quer votos e deferência. Para o governo, as ações do presidente na área justificam o pedido de reconhecimento do setor. A análise do Executivo é de que nunca houve tanto apoio e investimento no agro como na gestão atual, sobretudo na comparação com o governo de Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022). Para Lula, a resistência do agronegócio a ele não é por “dinheiro”, mas por “problema ideológico”.

Pois, vamos aos números. Foram 691 mercados abertos a produtos agropecuários desde o início de 2023 contra 239 registrados entre 2019 e 2022 na gestão Bolsonaro. Bolsonaro elevou os recursos destinados à política de crédito rural oficial em 75,5%, encerrando seu mandato com um Plano Safra de R$ 340,88 bilhões.

Lula ampliou o financiamento para a safra em 79% no acumulado da gestão, tendo seu último Plano Safra com R$ 610,3 bilhões em recursos para pequenos, médios e grandes produtores. Três renegociações de dívidas rurais, duas delas com crédito extraordinário, também entram na conta do financiamento do governo Lula ao setor agropecuário.

Mas os números não são suficientes para o alinhamento do setor ao governo Lula. Recentemente, esta mesma repórter que escreve ouviu uma liderança do setor admitir que se o voto fosse definido na comparação do plano de governo, o setor escolheria Lula e não o senador Flávio Bolsonaro (PL), que tende a uma política econômica mais liberal e menos subsidiada.

O desgaste na relação entre Lula e o agronegócio não é de hoje e não dá sinais de que será superado em breve. O presidente assumiu o quarto mandato e prometeu a famosa “reconstrução de pontes” com o setor. Reconhece-se que houve avanços, com entidades e a própria bancada da agropecuária negociando com o governo em temas caros ao setor. Lula anunciou ainda em 2023 jantares para aproximação do agronegócio na Granja do Torto – apenas um churrasco saiu do papel com empresários de frutas e sucos.

A falada reconstrução de pontes foi restrita a alguns segmentos, sobretudo aos com viés exportador e aos mais pragmáticos. O campo continua distante. Há feridas ainda não cicatrizadas na relação de Lula com os produtores rurais.

Uma das feridas é a aproximação histórica do Partido dos Trabalhadores (PT) ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com o fantasma no setor de receio de invasões de áreas privadas. Decretos do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério do Desenvolvimento Agrário sobre embargos ambientais e destinação de terras são também frequentemente questionados pelo agronegócio, que acusa o governo de relativizar o direito à propriedade privada.

A segurança jurídica, portanto, é um dos principais gargalos. Se somam à equação, o enfraquecimento do Ministério da Agricultura, que teve a estrutura dividida em três pastas e fica de fora de algumas discussões intrínsecas ao setor a exemplo da renegociação das dívidas rurais, e a constante menção do governo de revisão de benefícios fiscais do agronegócio, caso da tentativa de taxação das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) no ano passado.

Lula tem razão de que há sim alinhamento ideológico de uma ala do agronegócio à direita e à centro-direita, marcado pela pauta de costumes e agenda econômica liberal. Também tem razão ao mencionar que parte do setor se engajou na candidatura de reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O presidente, entretanto, erra ao generalizar. Lula sabe que há “muitos agros” no Brasil. Ele mesmo já disse que “se o problema é ideológico, paciência”. Há também um terceiro fator, difícil de ser mensurado, a se considerar: a mágoa. O agronegócio não se sente reconhecido pelo papel de segurança alimentar por Lula e reivindica protagonismo no governo atual.

Os ataques diretos de Lula ao agronegócio, em especial atingindo a “soberania” de um setor econômico e o colocando um viés racial, não resolvem as celeumas. Lula erra novamente ao cobrar que o agro se curve a ele pelo financiamento ao setor. Políticas públicas de apoio a setores, independentemente de qual for, devem ser políticas de Estado, mirando o desenvolvimento do País e não visando barganhas eleitorais e muito menos empresários curvados aos pés do chefe de Estado (Estadão)

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