Dívida externa cresce; País volta a ser devedor internacional após 19 anos

Com o crescimento da dívida externa em ritmo superior ao das reservas internacionais, o Brasil perdeu a posição mantida por 19 anos de credor internacional. Dados do Banco Central (BC) indicam que as reservas, de US$ 402 bilhões (incluindo créditos brasileiros no exterior), já não cobrem todo o endividamento do País com o resto do mundo. Somando setor público, bancos e empresas, a dívida externa alcançou US$ 407,1 bilhões, maior nível em 40 anos de estatísticas.

Com isso, a dívida externa líquida, negativa de 2007 a 2025 — ou seja, deixando o Brasil em posição de credor —, voltou ao terreno positivo: US$ 5,1 bilhões, segundo o balanço mais recente, de junho. O quadro não preocupa, por ora, economistas e agências de classificação de risco, mas é acompanhado com atenção pelo potencial de virar vulnerabilidade caso o déficit em transações correntes siga elevado e haja saídas relevantes de dólares.

Um episódio desse tipo ocorreu no fim de 2024, quando o estresse do mercado com a política fiscal obrigou o BC a fazer a maior intervenção da história do regime de câmbio flutuante.

Analistas consultados pelo Estadão/Broadcast consideram improvável a dívida externa líquida voltar a ultrapassar a marca de US$ 70 bilhões, como acontecia duas décadas atrás, mas veem como plausível uma aproximação da marca de US$ 30 bilhões nos próximos dois anos.

Mesmo com exportações ampliando a entrada de dólares e com a desaceleração econômica limitando saídas via importações e remessas de lucros, o déficit em transações correntes ficou estruturalmente mais alto nos últimos anos. Pesam, entre outros fatores, o aumento de gastos com serviços como streaming, investimentos em criptoativos e o pagamento de dívidas a credores internacionais.

No ano passado, US$ 67,4 bilhões deixaram o País por transações correntes, considerando os saldos de comércio de bens e serviços e as transferências de renda ao exterior. O valor é mais que o dobro do déficit de 2023, de US$ 27 bilhões. A entrada de investimento estrangeiro direto ainda tem financiado esse déficit sem consumo de reservas e sem alta proporcional do endividamento, mas com folga menor.

Em 2025, o investimento direto superou o déficit em transações correntes em US$ 17,6 bilhões, bem abaixo do registrado dois anos antes, quando a diferença passava de US$ 38 bilhões. Em 2024, essa folga foi ainda menor, inferior a US$ 9 bilhões.

O economista-chefe da Monte Bravo, Felipe Tavares, avalia que o Brasil não está exposto a uma crise clássica de balanço de pagamentos, mas perdeu margem de manobra para absorver choques mais persistentes. “Acabou o argumento retórico e técnico de ‘país credor líquido’, usado há quase duas décadas junto a agências de rating e investidores estrangeiros”, afirma. “A perda dessa almofada líquida reduz a margem de manobra para absorver choques prolongados sem repasse cambial ou pressão sobre os prêmios de risco soberano”, acrescenta.

Impulsionada por investidores que buscaram diversificação fora dos Estados Unidos, a dívida externa subiu 27,4% no atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acima do aumento de 15,8% das reservas, cuja evolução foi contida por intervenções do BC e pela valorização cambial.

Para Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos, o descompasso reforça a avaliação de que o Brasil deveria aproveitar janelas de forte entrada de investimento direto e maior estabilidade cambial para recompor reservas. “Comprar na calma é mais barato.”

Como a dívida externa líquida representa menos de 0,3% do PIB e as reservas cobrem mais de três vezes os vencimentos de curto prazo, as métricas externas ainda apontam um País relativamente protegido do risco de fuga de capitais. Essa avaliação pode mudar se a desaceleração do investimento direto, por fatores como incertezas fiscais ou regulatórias, abrir uma lacuna no financiamento externo.

Para Felipe Kotinda, economista do Santander, o quadro atual não preocupa porque as reservas, embora não cubram integralmente a dívida externa, seguem elevadas e continuam entre os principais amortecedores da economia brasileira.

“A preocupação surgiria se observássemos uma tendência persistente de aumento da dívida externa líquida acompanhada de redução de reservas, ampliação do déficit em conta corrente ou maior dependência de financiamento externo”, comenta. “Em termos históricos, o País continua muito distante dos níveis de vulnerabilidade observados há duas décadas”, completa Kotinda.

Mesmo após o Brasil deixar de ter cobertura total para o endividamento externo, as agências de classificação de risco seguem vendo as contas externas como um ponto forte do crédito soberano. O País é descrito como uma economia com reservas elevadas, baixa exposição a dívidas em moeda estrangeira e fluxos recorrentes de investimento externo. Para as agências, o principal foco de risco permanece o fiscal: o desequilíbrio das contas públicas pressiona os juros e aumenta o custo da dívida do governo.

Agências de rating veem contas externas confortáveis e apontam fiscal como problema

O diretor sênior da Fitch Ratings, Todd Martinez, afirma que a agência não identificou mudança relevante na liquidez externa do Brasil — variável central na avaliação de crédito — nem nas métricas de solvência. Ele ressalta, porém, que o estresse de mercado no fim de 2024, que levou o BC a uma intervenção cambial histórica, evidencia que há risco de deterioração desses indicadores.

“O episódio ressalta a necessidade de um plano fiscal crível no próximo governo, a fim de mitigar riscos à estabilidade macroeconômica”, diz Martinez.

Apesar do aumento da dívida externa nos últimos anos, 73% do total está no setor privado — bancos e empresas —, o que reduz o risco soberano direto. Em geral, essas companhias têm hedge natural, seja via exportações, seja por outras receitas em moeda estrangeira.

A fatia do setor público, próxima de um quarto do total, é formada majoritariamente por títulos emitidos em reais e negociados no mercado doméstico. Quando esses papéis estão nas mãos de não residentes, entram nas estatísticas do BC como dívida externa. Já a dívida pública emitida em moeda estrangeira — que implica exposição cambial — soma R$ 348 bilhões e representa hoje menos de 4% do estoque da dívida pública federal.

Na Fitch, a avaliação é que o governo ainda é credor externo líquido, porque as reservas internacionais superam com folga a dívida pública com o exterior. “O Brasil se destaca como um soberano com colchões externos muito robustos e também com dependência muito baixa dos mercados externos em moeda estrangeira”, afirma Martinez. Segundo ele, essa posição externa é o principal diferencial do País frente a outras economias com a mesma nota.

Martinez observa ainda que países com câmbio flutuante, como o Brasil, não precisam manter reservas tão elevadas quanto economias de câmbio fixo ou fortemente administrado. “O fato de o Brasil ter forte liquidez externa, apesar de contar com uma moeda flexível, torna seu arcabouço macroeconômico particularmente robusto”, diz.

O vice-presidente sênior da Moody’s, William Foster, reforça que a posição externa é, hoje, uma força, e não uma fragilidade. Ele cita a baixa dependência de dívida em moeda estrangeira, o câmbio flexível, o volume de ativos externos, a base exportadora diversificada e a persistência do investimento direto estrangeiro. “Esses fatores continuam sustentando a resiliência externa do País”, afirma.

Para as agências, o maior desafio do perfil de crédito soberano segue sendo fiscal. Juros altos por período prolongado e credibilidade limitada da política fiscal, diz Foster, têm reduzido a capacidade do governo de administrar o custo da dívida.

Na avaliação da Moody’s, a rigidez do Orçamento e a polarização política “profundamente enraizada” seguem como entraves à consolidação fiscal, limitando a flexibilidade de políticas públicas.

Hoje, a Moody’s coloca o Brasil a um degrau do grau de investimento. Já a Fitch, assim como a S&P Global, mantém o País a dois degraus desse grupo. As três agências atribuem perspectiva estável ao rating soberano, sem sinalização de mudança de nota, para cima ou para baixo, nos próximos meses.

Tesouro Nacional mira mais dívida em moeda estrangeira e prioriza captações em dólar

O Tesouro Nacional avalia como “bastante confortável” a cobertura da dívida externa e monitora o mercado para novas emissões no exterior. A captação fora do Brasil integra a estratégia de gestão da dívida, com foco em diversificar fontes de financiamento e melhorar a combinação entre custo e risco, mantendo limitada a exposição cambial.

A meta é elevar para 7% a participação da dívida em moeda estrangeira, hoje abaixo de 4% do estoque da dívida pública federal. Conforme o Plano Anual de Financiamento (PAF), o avanço deve ser gradual e condicionado às condições de mercado, desde que preservado o equilíbrio entre custo, risco e diversificação.

A diferença entre reservas internacionais e dívida do setor público equivale a 6% do Produto Interno Bruto (PIB). Por esse critério, o Tesouro ainda classifica o governo como credor externo e em posição confortável na comparação com países como o México — onde as reservas excedem a dívida soberana em 1% do PIB — e com Colômbia, Uruguai e Chile, que têm mais dívida do que reservas

A continuidade das emissões de títulos de referência em dólar é tratada como prioridade na gestão da dívida externa. Além disso, o Tesouro planeja novas operações no mercado europeu para construir e consolidar uma curva de referência em euro e acompanha as condições para a primeira emissão em yuan, moeda chinesa já autorizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) (Estadão)

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