A maior parte dos parceiros comerciais do Brasil deverão aplicar restrições à importação de produtos avícolas limitadas à área afetada do foco da doença de Newcastle, em uma granja de perus nos arredores de Nova Itaberaba (SC), de acordo com os protocolos sanitários bilaterais assinados com esses países.
Apenas os acordos com a China, principal comprador de carne de frango do Brasil e Malásia prevêem restrições ao país inteiro. Mesmo assim, os chineses decidiram limitar o embargo às plantas catarinenses, o que foi considerado uma vitória pelas autoridades brasileiras. Os malaios ainda não anunciaram qual será o entendimento. O México suspendeu as compras de todo o território nacional nessa segunda-feira (19/10).
Saiba Mais
As informações estão em um ofício circular emitido pelo Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, no fim da noite dessa segunda-feira.
O documento orienta os auditores fiscais agropecuários sobre o processo de certificação dos produtos avícolas para exportação de acordo com as regras acordadas com cada parceiro comercial. O ofício reitera que, para aplicação das restrições, deverão utilizar 21 de setembro como data de referência. Nesse dia, foram coletadas as primeiras amostras em aves assintomáticas em Nova Itaberaba, que resultaram na investigação e confirmação do foco.
“Para fins de aplicação das restrições relacionadas à certificação, deverá ser utilizada a data de referência de 21/09/2026, correspondente à coleta das amostras que resultaram na confirmação do foco, observados os critérios temporais previstos em cada CSI”, afirma o ofício, obtido pela reportagem.
O documento diz que, no caso de certificados internacionais “já emitidos contendo produtos sujeitos às restrições sanitárias decorrentes da ocorrência da doença de Newcastle, deverão ser avaliados os requisitos aplicáveis a cada país importador, especialmente quanto às datas de produção, abate, obtenção da matéria-prima e certificação”.
O departamento pede, no ofício, para que auditores reforcem a atenção na análise dos dados do boletim sanitário, principalmente em relação à mortalidade de aves a campo, e na verificação dos sinais clínicos nos procedimentos de inspeção ante mortem e post mortem.
Caso haja suspeitas, nessas análises, de sintomas de síndromes nervosas e respiratórias de aves (SRN) o serviço veterinário estadual deve ser chamado para atendimento. O Ministério da Agricultura pede ainda para que seja reforçada a atenção na inspeção post mortem (após o abate) para as lesões características de SRN.
“As aves encaminhadas ao abatedouro-frigorífico acompanhadas de Guia de Trânsito Animal (GTA) estão aptas para o abate, pois, havendo suspeita de SRN a campo, seu trânsito é interditado. Cabe à inspeção ante mortem a verificação in loco da condição sanitária das aves, conforme procedimentos padronizados de inspeção vigentes”, aponta o texto.
O ofício listou as restrições e condições de certificação aplicáveis aos protocolos bilaterais. O documento destaca que poderão haver restrições ou condições específicas oficialmente comunicadas pelos importadores para a certificação dos produtos avícolas, o que não havia ocorrido até a noite de segunda-feira (19/10).
O Ministério da Agricultura deverá publicar ainda nesta terça-feira (20/10) a relação oficial dos países que aplicaram medidas específicas e o cumprimento das restrições de acordo com o protocolo. As certificações já seguem essas regras desde segunda-feira (19/10).
O bloqueio de todo o país, segundo os acordos firmados, valem para China e Malásia, inclusive Sabah, o segundo maior estado malaio, localizado na porção norte da ilha de Bornéu.
As restrições para o Estado de Santa Catarina, segundo os protocolos, valem para Cazaquistão, Chile, Peru (para produtos processados), Tadjiquistão, Ucrânia, União Europeia, União Aduaneira Euroasiática e Uzbequistão.
O embargo para área restrita ou raio afetado (que muda de acordo com os protocolos) vale para África do Sul, Argentina, Argélia, Arábia Saudita, Azerbaijão, Bahamas, Bolívia, Burkina Faso, Bósnia e Herzegovina, Canadá, Chile (no caso de vísceras comestíveis), Coreia do Sul, Cuba, Egito, El Salvador, Emirados Árabes Unidos, Equador, Filipinas, Geórgia, Hong Kong, Índia, Israel, Japão, Jordânia, Kosovo, Lesoto, Marrocos, México, Mianmar, Namíbia, Nova Caledônia, Omã, Paquistão, Peru (carne e miúdos in natura, congelados ou resfriados), Polinésia Francesa, Reino Unido, República Dominicana, Sri Lanka, Tailândia, Tanzânia, Taiwan, Timor Leste, Turquia, União Aduaneira Euroasiática (no caso de ovoprodutos), União Europeia (para derivados de sangue, subprodutos para fabricação de ração), Uruguai, Vanuatu e Vietnã.
Alguns países aplicam restrições aos animais do foco. É o caso de Butão, Irã e Ilhas Maurício.
O ofício lista ainda países que aceitam a exportação de alguns produtos avícolas desde que sejam submetidos a tratamento térmico: África do Sul, Argentina, Reino Unido e Vietnã (Globo Rural)
Newcastle pressiona ações da MBRF e coloca exportações da JBS sob atenção
Por Fernanda Pressinott
JPMorgan avalia impacto limitado e temporário, como em 2024; MBRF caiu 4,11% na bolsa, enquanto JBS recuou 1% em Nova York.
A confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus em Santa Catarina atingiu as ações dos grandes frigoríficos brasileiros e elevou a preocupação com as exportações de aves. A MBRF, fornecedora de marcas como Sadia e Perdigão, caiu 4,11% em 19 de outubro, para R$ 18,29. Os papéis da JBS negociados em Nova York recuaram 1%, para US$ 12,90.
A reação foi mais intensa na MBRF porque o foco sanitário foi identificado em um fornecedor exclusivo da companhia, segundo informações obtidas pela Bloomberg News. O produtor de perus abastece a unidade da empresa em Chapecó (SC), voltada à produção de aves para exportação.
A ligação direta com o fornecedor aumenta a exposição da MBRF ao episódio, mas não significa que toda a produção da companhia esteja comprometida.
O impacto dependerá das medidas sanitárias aplicadas à operação e, principalmente, da abrangência das restrições impostas pelos compradores internacionais.
JPMorgan prevê impacto limitado para MBRF e JBS
Apesar da reação negativa das ações, o JPMorgan avalia que os efeitos financeiros sobre as duas companhias tendem a ser limitados e temporários, possivelmente menores que os observados no episódio de 2024.
Na ocasião anterior, as restrições comerciais provocaram uma queda de aproximadamente 100 mil toneladas nas exportações brasileiras de carne de frango durante o período de embargos, equivalente a cerca de 25% dos embarques mensais. Segundo o banco, os volumes se recuperaram após a retirada das restrições, sem impacto no Ebitda, indicador de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, de JBS e MBRF.
Para o JPMorgan, a experiência anterior indica que a duração dos embargos será determinante. O banco também considera que a identificação rápida do foco e a adoção de restrições regionais por parte de alguns importadores podem limitar os efeitos econômicos.
O JPMorgan estima que Santa Catarina represente entre 10% e 20% das exportações de frango da MBRF e da Seara, operação de aves da JBS. Se as restrições ficarem concentradas em áreas específicas, a exposição será menor do que em um embargo nacional.
China é o principal ponto de atenção
A principal incerteza para as empresas está na reação dos compradores internacionais, especialmente da China. De janeiro a setembro de 2026, o país importou cerca de 420 mil toneladas de carne de frango brasileira, aproximadamente 10% das exportações nacionais no período.
Segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), o protocolo comercial com os chineses prevê a suspensão das exportações brasileiras de carne de aves após a ocorrência de Newcastle. A partir desse procedimento, as autoridades chinesas definem se as restrições serão nacionais ou limitadas ao estado ou à região afetada.
A decisão chinesa pode determinar a dimensão do impacto financeiro. Uma restrição localizada tende a afetar menos embarques; um bloqueio nacional e prolongado aumentaria a necessidade de redirecionar volumes para outros destinos, com risco de pressão sobre preços e margens.
O que diferencia as duas empresas
Para a MBRF, o foco em um fornecedor ligado à unidade exportadora de Chapecó acrescenta um risco operacional específico. A companhia também está exposta a eventuais restrições mais amplas às exportações brasileiras de aves, independentemente da localização do foco.
Na JBS, o impacto direto se concentra na Seara. A diversificação geográfica e entre proteínas do grupo ajuda a diluir o efeito no resultado consolidado, mas não elimina a exposição da operação brasileira de frango a embargos comerciais.
Por enquanto, não há estimativa pública consolidada de perdas em reais ou de revisão do EBITDA das duas empresas provocada especificamente por Newcastle. A avaliação do JPMorgan é que o episódio pode gerar volatilidade de curto prazo nas ações, sem alterar de forma relevante a perspectiva estrutural para os grupos, desde que as restrições sejam localizadas e temporárias (CNN)
Decisão da China de suspender apenas compras de aves de SC é positivo para MBRF e Brasil, diz Citi
Mercado chinês foi o destino de cerca de 10% das exportações brasileiras de frango em nove meses do ano de 2026.
A decisão da China nesta terça-feira (20/10) de restringir a suspensão de compras de carnes de aves a Santa Catarina, após a confirmação de um caso de Doença de Newcastle em uma granja comercial de perus no Estado, é um “importante reconhecimento das capacidades de vigilância sanitária e contenção do Brasil”, avaliou o Citi em relatório a clientes. Eles também disseram que o anúncio é “particularmente positivo para a MBRF”, dada a exposição da companhia às exportações de aves.
“Embora a regionalização continue sendo um resultado negociado, e não uma disposição inequívoca do protocolo bilateral [entre Brasil e China], a decisão de hoje estabelece um precedente encorajador. A formalização dessa abordagem representaria mais um marco para o setor”, disseram os analistas Renata Cabral e Luis Felipe Terzariol no relatório.
Os analistas lembraram que o reconhecimento internacional da regionalização sanitária, buscado pelo Brasil há anos, vinha ocorrendo de forma gradual no caso da China. Em 2024, quando foi confirmado um caso da Doença de Newcastle em granja comercial no Rio Grande do Sul, o país asiático manteve suspensão a compras de carne de aves de todo o Brasil, limitando a restrição ao Estado somente 26 dias depois.
No ano passado, quando foi confirmado o primeiro e único foco de gripe aviária em granja comercial no Brasil, também no Rio Grande do Sul, os chineses aplicaram a suspensão às compras de produtos oriundos de todo o território nacional e mantiveram as restrições por aproximadamente seis meses.
Os analistas do Citi avaliaram o anúncio da China desta terça, de aplicar a restrição apenas a Santa Catarina, como “particularmente positivo para a MBRF”, dada a exposição da empresa às exportações de aves e as possíveis consequências das restrições comerciais em todo o país.
Eles pontuaram que, historicamente, as suspensões de exportação por questões sanitárias aumentaram o risco de excesso de oferta no mercado interno, pressionando os preços e as margens das operações de aves.
“O impacto financeiro imediato dependerá da duração das restrições e da capacidade de redirecionar os volumes afetados, mas a implicação mais ampla é claramente positiva: o setor avícola brasileiro deu um passo importante para reduzir sua vulnerabilidade a futuras interrupções sanitárias”, disseram os analistas.
Tendo em vista que Santa Catarina reúne 14 das 61 plantas produtoras de carnes de aves habilitadas a exportar para a China, a possibilidade de continuar abastecendo o mercado chinês a partir das outras 47 plantas “limita substancialmente o potencial de disrupção”, conforme os analistas do Citi.
A China foi o destino de cerca de 10% das exportações brasileiras de frango em nove meses do ano de 2026, lembrou o Citi. Já Santa Catarina participou com aproximadamente 23% do volume e 25% da receita das exportações de janeiro a maio deste ano (Globo Rural)
Experiência do setor avícola do Brasil irá permitir ‘resposta rápida’ ao foco de Newcastle, diz ABPA
Entidade destacou negociações feitas junto a países importadores para reduzir impactos de restrições
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) afirmou que a experiência acumulada pelas autoridades sanitárias do país e pelo setor produtivo, bem como a preparação prévia para eventos sanitários, permitiram uma “resposta rápida e coordenada” diante do foco da doença de Newcastle identificada em Santa Catarina. A entidade destacou as negociações feitas junto a países importadores para reduzir impactos de restrições comerciais.
“O trabalho prévio de negociação dos certificados sanitários e a rapidez na comunicação à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e às autoridades dos países importadores contribuíram para dar maior previsibilidade e eficiência às tratativas. O alcance limitado das suspensões registradas até o momento reflete a importância dessa preparação e a confiança no sistema sanitário brasileiro”, informou em nota.
Segundo o Ministério da Agricultura, China e Chile suspenderam as importações de carnes de aves de plantas de Santa Catarina e o México bloqueou a compra de produtos avícolas de todo o país.
A ABPA disse que mantém a expectativa de agilidade nas negociações para preservar e restabelecer os fluxos comerciais, conforme os requisitos de cada mercado.
O texto destaca o trabalho de preparação conduzido pelo Ministério da Agricultura em conjunto com produtores e os serviços estaduais de defesa sanitária. “As medidas sanitárias necessárias já foram adotadas ou estão em execução, acompanhadas da comunicação às autoridades competentes e aos parceiros comerciais”, acrescentou.
“A transparência e a organização da resposta fortalecem a confiança internacional na cadeia de proteína animal do Brasil e reforçam a posição do País como parceiro estratégico para a segurança alimentar de nações nos cinco continentes”, concluiu (Globo Rural)




