Estudo da UNIASSELVI aponta que 76% do Sudeste estava sob seca e chama atenção para recursos hídricos e cafeicultura diante de fenômeno que pode atingir intensidade muito forte
Na agricultura, uma das atenções está voltada ao café, cultura de grande importância econômica para Minas Gerais
Minas Gerais deve acompanhar com atenção o avanço do El Niño nos próximos meses. Pesquisa desenvolvida por pesquisadores da UNIASSELVI aponta que 76% da Região Sudeste estava sob algum nível de seca em junho, sendo 2% em condição grave, cenário mais abrangente e intenso que o observado no mesmo período de 2023. Com o fortalecimento do fenômeno, a combinação entre temperaturas elevadas, evaporação e incerteza sobre o retorno das chuvas pode aumentar a pressão sobre recursos hídricos e atividades agrícolas na região.
O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores Fábio Henrique Moisés e Matheus Fernando Cunha, acadêmicos do curso de Engenharia de Software da UNIASSELVI, sob orientação do professor e coordenador dos cursos de Tecnologia da instituição, Pedro Zanchett. A pesquisa reúne e cruza informações de organismos nacionais e internacionais, como NOAA, NASA, INPE, INMET, CEMADEN e Instituto Internacional de Pesquisa sobre Clima e Sociedade (IRI), utilizando automação, inteligência artificial e análise de dados para consolidar evidências e produzir uma visão integrada sobre o cenário climático esperado.
A pesquisa indica mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade considerada “muito forte”, com possível pico em outubro de 2026. As projeções indicam ainda a continuidade do fortalecimento do fenômeno até o fim do ano. “O cenário exige atenção porque não basta observar apenas quanto vai chover. É preciso acompanhar a umidade do solo, a situação dos rios e reservatórios, as temperaturas e as condições de cada bacia. A tecnologia permite integrar essas informações e transformar dados dispersos em apoio mais qualificado à prevenção e à tomada de decisão”, explica Pedro Sidnei Zanchett, doutor em Engenharia de Automação e Sistemas e coordenador de cursos de graduação na área de Tecnologia da UNIASSELVI.
Atenção para água e cafeicultura
No Sudeste, a pesquisa identifica como um dos principais riscos para os próximos meses a combinação entre calor, aumento da evaporação e incerteza sobre a regularização das chuvas. Sistemas hídricos que já acumulam déficit podem apresentar deterioração mais rápida, embora os pesquisadores ressaltem que as condições variam significativamente entre as diferentes bacias hidrográficas.
Na agricultura, uma das atenções está voltada ao café, cultura de grande importância econômica para Minas Gerais. Segundo o estudo, o retorno adequado das chuvas após o período seco é importante para as floradas futuras. Temperaturas elevadas também podem acelerar ciclos e aumentar problemas sanitários nas lavouras, tornando ainda mais importante o acompanhamento das condições do solo, disponibilidade de água e previsões de curto prazo.
“O El Niño não produz os mesmos efeitos em todos os lugares. Por isso, um dos pontos centrais do nosso trabalho é justamente transformar uma previsão climática ampla em uma análise territorial dos riscos. Para a agricultura, por exemplo, o momento e a distribuição das chuvas podem ser tão importantes quanto o volume acumulado”, destaca Zanchett.
Os pesquisadores ressaltam que não existe uma relação automática entre El Niño e falta de chuva em todo o Sudeste. O fenômeno interage com diferentes condições atmosféricas e oceânicas, e uma previsão sazonal não permite determinar antecipadamente quando uma cidade enfrentará estiagem, temporal ou outro evento extremo.
Inteligência artificial como aliada da prevenção
A iniciativa está conectada à tese de doutorado do professor Pedro Zanchett, intitulada RADIAN, que propõe uma arquitetura de referência para sistemas de apoio à decisão voltados ao gerenciamento de desastres naturais. O projeto de iniciação científica amplia essa pesquisa ao investigar como inteligência artificial generativa, computação em nuvem e automação podem integrar informações produzidas por diferentes órgãos responsáveis pelo monitoramento climático e pela gestão de riscos.
“A inteligência artificial não deve ser tratada como um oráculo e nem substituir especialistas. O potencial está em fazer com que diferentes fontes de informação conversem entre si, permitindo decisões mais rápidas, rastreáveis e fundamentadas”, completa Zanchett.




