Redução da cota de açúcar vai gerar prejuízo de US$ 30 milhões ao Nordeste

Por Luciana Franco

Estados Unidos faz primeiro corte em 12 anos da parcela brasileira, redistribuindo 56 mil toneladas à 28 países concorrentes do Brasil.

A redistribuição de 56 mil toneladas da cota brasileira de exportação de açúcar aos Estados Unidos para outros países deve gerar um prejuízo estimado em US$ 30 milhões e impactar um setor que gera cerca de 250 mil empregos  na região Nordeste, que detém 100% das exportações nesta modalidade.

Segundo Renato Cunha, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco, a decisão frustra a expectativa dos usineiros, que, apesar do anúncio de julho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos que já indicava ao Brasil uma cota menor,  esperavam renegociar o volume a ser embarcado em 2027.

No entanto, o governo norte-americano confirmou nesta quarta-feira (23) que o País poderá exportar apenas 100 mil toneladas de açúcar bruto com tarifa reduzida no ano fiscal de 2027, que começa em 1º de outubro. O volume é cerca de 36% inferior às aproximadamente 156 mil toneladas autorizadas no ciclo anterior.

A cota total dos Estados Unidos para açúcar bruto de cana permanecerá no volume de 1.117.195 toneladas para 2027. Em julho foi alocada aos países exportadores uma parcela de 1.061.202 toneladas.

A redução brasileira é a principal mudança prevista para 2027, uma vez que as cotas dos demais fornecedores permanecem nos mesmos níveis de 2026.

Entre os maiores beneficiados estão República Dominicana, que ficou com uma cota de 189.343 toneladas, Filipinas, com 145.235, Austrália, que recebeu 89.293 toneladas e Guatemala, com 51.639 toneladas.

Das 55.993 toneladas retiradas da cota brasileira, a República Dominicana recebeu 11.931 toneladas adicionais e as Filipinas, outras 9.151 toneladas. O restante foi distribuído entre outros 26 países.

Cunha afirma que o impacto não ficará restrito às usinas. A menor participação no mercado americano também atinge produtores de cana e fornecedores ligados à cadeia. Segundo ele, o Nordeste deverá produzir cerca de 3 milhões de toneladas de açúcar nesta safra e contava com maior acesso ao mercado dos Estados Unidos.

O executivo avalia que a decisão também poderá afetar aproximadamente 250 mil empregos, entre postos diretos e indiretos ligados à cadeia sucroenergética regional. “No Nordeste, diferente do que ocorre na região Centro-Sul, o setor ainda depende muito de mão de obra”,diz

Para Cunha, a redução da cota ocorre justamente quando produtores e usinas se prepararam para ampliar a produção e buscavam maior previsibilidade para comercializar o açúcar.

A redução da cota americana ao Brasil acontece em um momento de oferta apertada no mercado global. A StoneX estima déficit mundial de 900 mil toneladas em 2026/27, embora a projeção tenha melhorado em relação ao déficit de 1,7 milhão de toneladas calculado anteriormente, a consultoria prevê queda na produção de importantes concorrentes do Brasil, como Índia, Tailândia ( que são exportadores para os Estados Unidos e tiveram as cotas mantidas para 2027 respectivamente em 8.606 toneladas e 15.061 toneladas) e também para e União Europeia, que terá a menor safra de beterraba desde os anos 1980.

Paralelo a esse movimento, a entrada da nova safra brasileira no segundo semestre de 2027 deve aumentar a disponibilidade mundial.

Esse movimento cria uma situação de contraste para o produtor brasileiro: há expectativa de maior demanda internacional, mas nem todos os mercados terão espaço adicional para o açúcar brasileiro.

“As relações internacionais privadas, com ingerência excessiva dos governos, afetam negativamente os consumidores dos países importadores e acarretam imprevisibilidades danosas aos empregos nas origens”, ponderou Cunha sobre a decisão norte-americana.

No caso dos Estados Unidos, o sistema de Tariff Rate Quota (TRQ) permite a entrada de uma quantidade determinada de açúcar com tarifa menor. Acima da cota, a importação fica sujeita a uma taxação mais elevada, reduzindo a competitividade do produto.

Para o Brasil, portanto, a redução representa não apenas uma perda de volume, mas também de acesso a um mercado de maior valor agregado, justamente em um momento em que o setor busca ampliar destinos e reduzir a concentração das exportações. “Desde 2014 o Brasil recebe 152.691 toneladas da cota, que sempre forneceu dentro dos padrões e condições exigidos. Essa é a primeira redução em doze anos e nos frusta sobremaneira”, afirma Cunha.

O produto que não será mais embarcado para os Estados Unidos já estava incluído na programação das usinas nordestinas, que terão que realocar este excesso no mercado interno. “Este ano conseguimos uma cota importante de exportação de 180 mil toneladas de açúcar para União Europeia por meio do acordo com Mercosul.

Seria um ano próspero onde o setor se programava para embarcar 320 mil toneladas de açúcar com tarifa especial”, diz Cunha, informando que a despeito da recente decisão dos Estados Unidos, caso o país venha a demandar mais açúcar, os usineiros estarão á disposição para fornecer o produto (CNN)

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