O El Niño vai além das chuvas: fenômeno muda a dinâmica de pragas e doenças

Por Celso Moretti

Quando se fala nos efeitos do El Niño sobre a agricultura brasileira, a discussão quase sempre começa – e muitas vezes termina – nos extremos de chuva e temperatura. Excesso de chuva no Sul, irregularidade no Centro-Oeste e Sudeste, veranicos e estiagens em partes do Norte e Nordeste. É compreensível, mas insuficiente. O fenômeno também altera silenciosamente outro componente decisivo da produção: a dinâmica das pragas e doenças.

O El Niño muda o ambiente em que plantas, insetos, ácaros, fungos, bactérias e vírus interagem. Temperatura, umidade, distribuição das chuvas e duração do molhamento foliar determinam boa parte da velocidade de reprodução dos insetos e da capacidade de infecção dos patógenos que causam as principais doenças. Alterar essas variáveis significa, portanto, alterar o risco fitossanitário. Não existe um único “efeito El Niño” para o Brasil. Em um país continental, o mesmo fenômeno que aumenta a pressão de doenças fúngicas em uma região pode favorecer insetos e ácaros em outra.

No Sul, chuvas mais frequentes e temperaturas elevadas criam condições particularmente preocupantes para soja e cereais de inverno. Na soja, principal commodity do agro brasileiro, maior umidade e períodos prolongados de molhamento foliar podem favorecer doenças como a ferrugem-asiática. Bilhões de reais são gastos anualmente para combater o fungo causador da ferrugem. No trigo, chuva durante o florescimento aumenta o risco de giberela que, além de comprometer produtividade e qualidade dos grãos, pode resultar na contaminação do cereal por micotoxinas.

No Centro-Oeste, a equação tende a ser diferente. Temperaturas elevadas, veranicos e irregularidade das chuvas podem estressar as plantas e favorecer determinadas populações de insetos e ácaros. Mosca-branca, percevejos e ácaros em soja e algodão merecem atenção. No milho, preocupa a cigarrinha, Dalbulus maidis, vetor dos agentes associados aos enfezamentos, sobretudo quando há condições favoráveis à sobrevivência do inseto e disponibilidade contínua de plantas hospedeiras.

No Sudeste, períodos quentes e secos podem aumentar a pressão do bicho-mineiro no café. Nos citros, mudanças de temperatura, regime hídrico e fluxos de brotação interferem na dinâmica do psilídeo Diaphorina citri, vetor da bactéria associada ao greening (HLB), principal ameaça fitossanitária da citricultura brasileira. No Norte e Nordeste, estiagens e temperaturas elevadas tendem a aumentar a importância relativa de ácaros, mosca-branca e algumas lagartas em diferentes sistemas produtivos.

Há ainda um componente frequentemente negligenciado: a própria fisiologia da planta. Déficit hídrico e temperaturas elevadas alteram metabolismo, crescimento e mecanismos naturais de defesa. Uma lavoura sob estresse não responde da mesma maneira ao ataque de uma praga ou à infecção por um patógeno. Por isso, proteção de cultivos, manejo da água, nutrição, solo e fisiologia vegetal não deveriam ser tratados como compartimentos independentes.

É nesse ponto que o El Niño expõe uma fragilidade do modelo convencional de proteção de cultivos: em ambiente climático mais variável, manejar por calendário é cada vez menos defensável agronomicamente. Se o clima muda, o risco fitossanitário muda. E, se o risco muda, também precisam mudar o momento, o local e a intensidade da intervenção. Aplicações uniformes e preventivas, dissociadas do risco efetivamente observado, tendem a perder eficiência econômica e ambiental.

O caminho passa necessariamente pelo fortalecimento do Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP). Genética resistente, práticas culturais, controle biológico, defensivos seletivos e monitoramento precisam funcionar como partes de uma mesma estratégia. É a lógica da integração, e não da substituição. Na agricultura tropical, biológicos e químicos não são necessariamente concorrentes; quando tecnicamente indicados, são complementares.

A agricultura digital acrescenta uma nova dimensão a esse sistema. Estações meteorológicas, sensores, imagens de satélite, drones, internet das coisas (IoT) e inteligência artificial já permitem integrar temperatura, umidade, precipitação, molhamento foliar, desenvolvimento da cultura e histórico fitossanitário. O objetivo deixa de ser simplesmente identificar o problema e passa a ser estimar a probabilidade de sua ocorrência.

Essa talvez seja a mudança mais importante em curso na proteção de cultivos: a passagem de uma agricultura reativa para uma agricultura preditiva. Em anos de El Niño, essa transformação torna-se ainda mais necessária.

Saber que o Oceano Pacífico está aquecido tem pouco valor para o produtor se essa informação não puder ser convertida em decisão agronômica: qual praga tem maior probabilidade de ocorrer, em qual cultura, região e estágio de desenvolvimento? Qual o momento correto para intervir? E qual combinação de estratégias oferece maior eficiência com menor custo econômico e ambiental? Respostas a essas perguntas são vitais para uma agricultura mais competitiva e sustentável.

O Brasil tornou-se potência agrícola porque aprendeu a produzir nos trópicos. O próximo desafio é mais sofisticado: produzir com eficiência em um ambiente de crescente variabilidade climática e fitossanitária.

Não é possível controlar o El Niño. Porém, é imperativo transformar informação climática em inteligência agronômica. E essa capacidade de antecipar riscos, mais do que simplesmente reagir a eles, será uma das fronteiras que separarão a agricultura vulnerável da agricultura competitiva (Celso Moretti é engenheiro agrônomo e ex-presidente da Embrapa; Estadão)

Related Posts

  • All Post
  • Agricultura
  • Clima
  • Cooperativismo
  • Economia
  • Energia
  • Evento
  • Fruta
  • Hortaliças
  • Meio Ambiente
  • Mercado
  • Notícias
  • Opinião
  • Pecuária
  • Piscicultura
  • Sem categoria
  • Tecnologia

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Edit Template

Quer receber notícias do nosso Diário do Agro?
INSCREVA-SE

You have been successfully Subscribed! Ops! Something went wrong, please try again.

© 2024 Tempo de Safra – Diário do Agro

Hospedado e Desenvolvido por R4 Data Center