- Fendt, que chegou ao país em 2019, planeja aumentar de 33 para 70 o total de lojas
- JCB investirá R$ 500 mi para dobrar vendas, e New Holland nacionaliza linha para atender a América Latina
Por Marcelo Toledo
Apesar das dificuldades apontadas pelo setor de máquinas agrícolas que envolvem a concorrência chinesa e a desvalorização do dólar, e que resultam em queda nas vendas, fabricantes de origem estrangeira instaladas no país preveem até dobrar de tamanho nos próximos cinco anos e anunciaram investimentos na ampliação de suas unidades e em pontos de venda.
Dados da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) apontam que o setor fechou o primeiro quadrimestre do ano com redução de 17,9% nas vendas de máquinas e implementos agrícolas, que alcançaram R$ 17,07 bilhões, mas, independentemente de problemas econômicos, os planos das empresas se baseiam na perspectiva de crescimento contínuo da agricultura no país e também no continente.
Estimativa de maio do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgada na semana passada aponta para uma safra de grãos de 353 milhões de toneladas, 6,9 milhões a mais em relação ao ano anterior. Como comparação, há 15 anos a safra foi de cerca de 150 milhões de toneladas.
Entre as empresas que preveem crescimento nos próximos anos no Brasil estão a Fendt, de origem alemã, a JCB, multinacional britânica, e a New Holland, originária dos Estados Unidos.
A Fendt, integrante da Agco —que também tem as marcas Massey Ferguson e Valtra—, chegou ao Brasil em 2019, sua primeira incursão na América do Sul, com a abertura de uma loja, número que em 2024 chegou a 33 e que prevê alcançar 70 nos próximos anos.
“Nós já crescemos três vezes o nosso tamanho e nos próximos cinco anos nós vamos novamente dobrar de tamanho. Estamos aumentando o nosso número de lojas, mas também indo para novos mercados na América Latina”, afirmou Marcelo Traldi, vice-presidente da Fendt e da Valtra na América Latina.
O Paraguai foi o segundo destino sul-americano da marca, em 2023, seguido pela Argentina, cujo anúncio da chegada da fabricante ocorreu no ano passado. As operações inicialmente são feitas por meio de três concessionários que atuam em Buenos Aires, Balcarce, Tres Arroyos, Villa Mercedes e Armstrong.
Já a fabricante de retroescavadeiras e manipuladores telescópicos JCB, multinacional de origem britânica, está com uma estratégia em andamento de dobrar sua operação no Brasil até 2030.
Para isso, iniciou, ainda em 2024, um investimento de R$ 500 milhões, dos quais R$ 360 milhões na modernização da sua fábrica em Sorocaba.
A proposta é crescer com a inclusão de novas máquinas no portfólio e na expansão da capacidade produtiva da empresa. A nova linha de escavadeiras, lançadas neste ano, é um dos exemplos citados pela empresa para buscar o crescimento —no dia da apresentação do modelo, foram negociadas mais de 30 unidades.
Presidente da empresa na América Latina, Adriano Merigli afirmou que o plano é que a produção, das atuais 5.000 máquinas por ano, chegue a 11 mil até 2030.
O agronegócio, de acordo com ele, representa 15% dos negócios da empresa, que deve gerar mil empregos diretos e indiretos com o plano de expansão.
Já a New Holland anunciou que vai nacionalizar a produção de sua linha de plataformas de corte, com investimento de mais de R$ 100 milhões na ampliação e adaptação da fábrica de Curitiba, para atender toda a América Latina.
O movimento posiciona a operação brasileira como um polo estratégico para a CNH (que também tem a marca Case IH, entre outras).
Vice-presidente de marketing da CNH para a América Latina, Eduardo Kerbauy disse que a produção nacionalizada vai gerar ganhos ao produtor, como a maior disponibilidade dos equipamentos e a redução de prazos de entrega (Folha)
Fabricantes investem em inovação contra queda nas vendas
- Juros altos, guerra no Oriente Médio, desvalorização do dólar e concorrência chinesa pressionam setor
- Receita da indústria fechou quadrimestre com queda de 17,9% em relação ao ano anterior
Por Marcelo Toledo
Para enfrentar um ano de redução nas vendas, incertezas econômicas e políticas e a crescente concorrência chinesa, fabricantes de máquinas, equipamentos e soluções voltadas ao agronegócio apostam em tecnologias que proporcionem reduções de perdas no campo, queda de custos e substituição de mão de obra.
A receita líquida das vendas de máquinas e implementos alcançou R$ 4,21 bilhões no país em abril, segundo a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), o que fez o setor fechar o quadrimestre com redução de 17,9% —R$ 17,07 bilhões no total—, acentuando a queda nas vendas, que nos três primeiros meses do ano estava em 16,4%.
O cenário poderia ser pior se não houvesse crescimento de 20,1% nas exportações entre janeiro e abril, com US$ 583 milhões (cerca de R$ 2,94 bilhões). Ou seja, a dificuldade nos negócios está no mercado interno, segundo o setor.
A previsão inicial indica que o ano terminará com queda de 8% nas vendas das indústrias de máquinas agrícolas.
Por isso, equipamentos que permitam melhorar a qualidade da produção agrícola, aumentar a produtividade e reduzir custos são o foco do produtor rural que precisa comprar —até porque nem todos estão comprando.
Desde o início das principais feiras agrícolas no país, em fevereiro, até a Bahia Farm Show, encerrada em 13 de junho em Luís Eduardo Magalhães (BA), o setor sofreu com revezes nos negócios, e alguns dos eventos nem divulgaram o volume financeiro gerado.
Entre as inovações apresentadas pelos fabricantes está um novo implemento agrícola para a colheita de pimenta-do-reino, atividade totalmente manual até então e cultura na qual o país é o segundo maior exportador do mundo, atrás somente do Vietnã.
Produzido pela Miac, empresa da Indústrias Colombo, o equipamento de 3,2 m de altura e 3,8 m de comprimento atua acoplado ao trator e opera com duas válvulas de controle remoto.
Dados do Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural) indicam que o Espírito Santo lidera a safra nacional da especiaria, com cerca de 60% da produção, a maior parte destinada à exportação. É o estado alvo do fabricante, que afirma ter detectado dificuldades de produtores em contratar mão de obra para atuar na colheita.
Ele foi apresentado na Agrishow (Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação), principal feira do agronegócio no país, que acontece em Ribeirão Preto e é o principal termômetro da situação do setor.
Na edição encerrada em maio houve redução nas vendas pela primeira vez em 11 anos. Foram gerados R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios —que podem ou não se concretizar posteriormente—, recuo de 25% em comparação aos R$ 15,2 bilhões, corrigidos pela inflação, do ano passado (R$ 14,6 bilhões em valor nominal).
Já a Tecnoshow, maior evento do Centro-Oeste e realizado pela cooperativa Comigo em Rio Verde (GO), viu os negócios recuarem 30% neste ano, após gerar R$ 10 bilhões em 2025.
Deixaram de ocorrer, portanto, R$ 6,8 bilhões em intenções de negócios só nas duas feiras agrícolas, as de maior lucratividade para o segmento no país.
Segundo Pedro Estêvão, que preside a câmara setorial de máquinas e implementos agrícolas da Abimaq, o produtor rural que enfrenta dificuldades usará os recursos disponíveis para custeio da atividade, e não para investir em compras.
A Solinftec, empresa com atuação global em inteligência artificial e soluções para o agro, ampliou sua família de robôs autônomos para operação no campo, com dois novos equipamentos. A proposta é não só gerar dados via inteligência artificial, mas também fazer com que ele execute as decisões.
Um, o Solix XT, visa atuar na operação contínua ao longo do ciclo, com foco em frequência, consistência e aplicação seletiva. Pode operar por até 50 horas em culturas como a cana e tem condições de cobrir 500 hectares. O segundo modelo, Solix XC, prioriza velocidade e intensidade, podendo atuar por 70 horas em 1.000 hectares em culturas como soja, milho e algodão.
Além do setor de máquinas, outras áreas ligadas ao agro estão lançando produtos, como a Ihara, especializada em pesquisa e desenvolvimento de defensivos agrícolas, que levou para feiras agrícolas como a Showtec, em Maracaju (MS), e a Agrishow tecnologias de manejo fitossanitário de culturas como soja, milho e cana.
Na feira em Ribeirão, apresentou um herbicida, Yamato, que atua antes da chegada de plantas daninhas às lavouras. “É um produto muito versátil. O grande ponto desse produto é um longo residual, muito seguro. Ele não traz fitotoxicidade para o cultivo nos diferentes períodos”, disse Michel Tomazela, engenheiro agrônomo e gerente de marketing regional de cana da Ihara.
A Toledo, fabricante de balanças para o agro, lançou tecnologias que unem automação e rastreabilidade, como um medidor de umidade de grãos. Controlar a umidade significa evitar, por exemplo, a proliferação de fungos ou a perda por deterioração no armazenamento.
O objetivo da empresa é mostrar que tudo que envolve o agro é pesado —rastreio de cria e engorda de rebanho ou fluxo nas lavouras— e significa lucro ou prejuízo.
TEMPESTADE PERFEITA
Os lançamentos no setor ocorrem num período de incertezas econômicas e políticas, que incluem juros altos, guerra no Oriente Médio, a desvalorização do dólar e a China, cenário apontado como “tempestade perfeita” no segmento.
As principais queixas são com a taxa de juros, que apesar das recentes quedas segue elevada (14% ao ano) e alvo de críticas de produtores, que também reclamam da pressão dos custos no campo.
Preços do óleo diesel e de insumos como fertilizantes subiram devido à guerra no Irã, e já tinham sofrido pressão com a guerra na Ucrânia.
Mas, além disso, a concorrência chinesa está cada dia mais forte. Um exemplo da ampliação da presença chinesa no agro brasileiro ocorreu na Agrishow. Um pavilhão só com empresas originárias do país asiático passou de 18 expositores, no ano passado, para 50, em 2026.
Isso sem contar fabricantes com espaços próprios, como a Liu Gong, que já está em seu quarto ano seguido nas feiras do setor e foca seus lançamentos em produtos robustos e com aposta de baixo custo na operação.
Quatro máquinas foram lançadas em Ribeirão, e a empresa afirma já ter uma rede com 12 distribuidores e 48 pontos de atendimento no país. A principal delas é um trator de esteiras, mas também foram apresentadas carregadeira elétrica, manipulador telescópico e empilhadeira com tração 4×4, com foco em conectividade por meio de um sistema de telemetria, para acompanhamento em tempo real das operações.
PEQUENAS MÁQUINAS GERAM ALENTO
A preocupação dos fabricantes em relação ao mercado tem, porém, um alento: a produção brasileira de grãos segue em alta e, portanto, demanda mais máquinas, e há setores que não sofreram queda na comercialização.
O mercado de tratores recuou nos últimos anos, passando de 52.941 unidades vendidas, em 2021, para os atuais 46.700. Porém, tratores mais baratos, com até 100 cv de potência, não sentiram esse efeito, ao contrário: no mesmo período, o setor passou de 30.108 tratores para 31.403 vendidos. Crescimento modesto, de 4,3%, mas que mostra que o consumo segue aquecido para esses modelos.
“O mercado cíclico faz parte da agricultura, altos e baixos. A nossa estimativa para o ano de 2026 é de ter vendas em torno de -5% a -10% […] Tem coisas que andam bem, como tratores até 100 cv. Você tem cobertura familiar, tem corporações que já são pequenas, médias, grandes propriedades, depende muito da missão que esse trator tem para poder executar”, afirmou Eduardo Kerbauy, vice-presidente de Marketing da CNH (que também tem a Case IH) para a América Latina.
De olho nesse nicho de mercado de tratores, a Yanmar, especializada em pequenos tratores e com potência menor, apresentou neste ano versões cabinadas de dois modelos. A fabricante de origem japonesa buscou investir no sistema devido às mudanças climáticas, com o foco em melhorar o conforto técnico dos operadores (Folha)



