Reportagem especial por Rodrigo Simões
Há documentos que registram acontecimentos. Outros preservam a memória de uma época. E há aqueles que conseguem cumprir as duas missões com rara excelência, tornando-se testemunhos permanentes da história. Foi exatamente essa a sensação ao abrir dois exemplares originais, cuidadosamente preservados na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, datilografados em 1937 e 1939.
As folhas amareladas pelo tempo, a encadernação simples, a escrita impecável e a riqueza de detalhes revelam mais do que antigos relatórios administrativos: revelam a construção silenciosa de um movimento que ajudaria a transformar a economia paulista e, décadas mais tarde, se consolidaria como um dos pilares do agronegócio brasileiro.
No mês em que comemoramos o Dia Internacional do Cooperativismo, celebrado no sábado 4 de julho, a leitura dessas duas obras históricas provoca uma reflexão inevitável. Em um tempo sem internet, computadores, plataformas digitais ou redes sociais, homens públicos já compreendiam que fortalecer o cooperativismo significava investir no desenvolvimento econômico, na organização da produção e, sobretudo nas pessoas.
Quase noventa anos depois, o tema escolhido pela Organizações das Nações Unidas para o Ano Internacional das Cooperativas – “Cooperativas constroem um mundo melhor” – parece dialogar diretamente com aquelas páginas produzidas muito antes de o mundo imaginar a velocidade das transformações tecnológicas que marcariam o século XXI.
Os dois livros, intitulados “Relatório do Diretor – Trabalhos realizados pelo Departamento de Assistência ao Cooperativismo”, foram elaborados por Otacílio Tomanik, engenheiro que dirigia o Departamento de Assistência ao Cooperativismo (DAC), órgão vinculado à então Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Indústria e Comércio. Mais do que relatórios oficiais, os documentos revelam o olhar de um gestor que compreendia o cooperativismo como instrumento de desenvolvimento regional, fortalecimento da agricultura e promoção da justiça econômica.
É impossível folhar essas páginas sem perceber o rigor técnico e o extraordinário compromisso de Otacílio Tomanik com a transparência. Cada ação realizada pelo Departamento foi registrada com impressionante riqueza de informações. As atividades desenvolvidas, os resultados alcançados, as dificuldades encontradas, as viagens técnicas, as exposições, as novas cooperativas organizadas e até as perspectivas para o futuro aparecem descritas de forma meticulosa, demonstrando um zelo administrativo que continua despertando admiração quase um século depois.
Em uma época em que relatórios eram produzidos integralmente em máquinas de datilografia, revisados manualmente e distribuídos fisicamente, a preocupação em documentar cada iniciativa revela uma característica que permanece indispensável à gestão pública contemporânea: a prestação de contas à sociedade. Hoje, a tecnologia permite que informações sejam publicadas em tempo real, compartilhadas instantaneamente e armazenadas em ambientes digitais.
Entretanto, ao percorrer aquelas páginas cuidadosamente datilografadas, percebe-se que a essência da transparência não nasceu com a transformação digital. Ela já estava presente no compromisso de homens públicos que compreendiam o valor histórico de registrar, com precisão, cada passo dado em favor do interesse coletivo.
É justamente esse cuidado que transforma os relatórios em muito mais do que documentos administrativos. Eles se tornam um retrato fiel de um período em que São Paulo começava a consolidar uma política estruturada de incentivo ao cooperativismo, reconhecendo naquele modelo uma alternativa capaz de fortalecer produtores rurais, organizar mercados, ampliar oportunidades e impulsionar o desenvolvimento do interior paulista.
Ao longo da leitura, chama atenção a clareza com que Otacílio Tomanik descreve a missão do departamento. Não havia espaço para improvisação. O trabalho desenvolvido era planejado, acompanhado e permanentemente avaliado. O cooperativismo deixava de ser apenas uma iniciativa isolada de produtores para assumir contornos de política pública voltada ao fortalecimento da economia agrícola, à organização da produção e à valorização do trabalho coletivo.
Talvez o aspecto mais surpreendente dessas obras seja justamente a atualidade de seus princípios. Em muitos momentos, o leitor tem a impressão de que determinadas reflexões poderiam ter sido escritas nos dias de hoje. A valorização da cooperação, a necessidade de organização dos produtores, a busca por maior eficiência econômica, o incentivo à educação cooperativista e o compromisso com o desenvolvimento regional aparecem como fundamentos permanentes de um modelo que atravessou gerações sem perder sua essência.
É impossível ignorar o simbolismo dessa coincidência histórica. Quase noventa anos separam aqueles relatórios do momento em que o cooperativismo volta a ocupar o centro das discussões mundiais por iniciativa da ONU. A mensagem permanece praticamente a mesma: sociedades mais fortes são construídas quando o desenvolvimento econômico caminha ao lado da solidariedade, da participação democrática e da responsabilidade coletiva.
Antes mesmo que o cooperativismo conquistasse o reconhecimento internacional que possui atualmente, São Paulo já plantava sementes que produziriam resultados duradouros. E poucas pessoas compreenderam essa missão com tanta clareza quanto Otacílio Tomanik. Seu trabalho não se limitou à organização administrativa de um departamento estadual. Ao registrar cuidadosamente cada inciativa, cada projeto e cada avanço alcançado, ele acabou preservando para as futuras gerações um dos mais importantes capítulos da história do cooperativismo paulista.
Esses documentos históricos não narram apenas o passado. Eles ajudam a explicar o presente.
Nas próximas páginas dessa história, surgem os relatos das primeiras grandes exposições cooperativistas, da criação de novas cooperativas pelo interior paulista e da impressionante expansão de um movimento que, ainda em seus primeiros passos, já demonstrava possuir a força necessária para transformar realidades econômicas e sociais – exatamente como continua fazendo quase um século depois.
Ao avançar pela leitura do relatório de 1937, uma das primeiras constatações é a divulgação do cooperativismo já ocupava posição estratégica nas ações do então Departamento de Assistência ao Cooperativismo. Em um período em que a comunicação dependia essencialmente da palavra impressa, da presença física e do contato direto com produtores e lideranças, promover o modelo cooperativista exigia planejamento, criatividade e enorme capacidade de mobilização.
Entre os registros cuidadosamente preservados por Otacílio Tomanik, destaca-se a participação do Departamento na Exposição e na Feira de Amostras do Rio de Janeiro. O relatório informa que o Estado de São Paulo esteve representado por meio de quadros ilustrativos sobre o movimento cooperativista paulista e por um folheto especialmente preparado para distribuição aos visitantes. A descrição ocupa poucas linhas, mas seu significado histórico é imenso.
Hoje, grandes feiras do agronegócio reúnem tecnologias de última geração, inteligência artificial, plataformas digitais, transmissões ao vivo, experiências imersivas e uma comunicação que alcança milhões de pessoas em questão de segundos. Em 1937, entretanto, cada painel exposto, cada gráfico elaborado e cada folheto distribuído representavam um esforço estratégico para apresentar ao Brasil um modelo de organização econômica que ainda dava seus primeiros passos.
Mudaram os recursos. Mudou a velocidade da informação. Mudaram as ferramentas de comunicação. O que permanece exatamente igual é o propósito: mostrar que a cooperação multiplica oportunidades, fortalece produtores e impulsiona o desenvolvimento das regiões onde está presente. A tecnologia revolucionou a forma de comunicar; a essência da mensagem continua a mesma.
Mais do que incentivar a criação de cooperativas, o Departamento dedicava especial atenção à sua organização. As páginas do relatório revelam o acompanhamento de iniciativas em Cafelândia, Viradouro, Paraguaçu. Pilar do Sul, Penápolis, Capivari, Itatinga, Sorocaba, Brotas, Vargem Grande do Sul, Rancharia, Barretos, Araçatuba, Bofete, Assis, Itápolis, São João da Boa Vista e Ribeirão Preto, entre tantos outros municípios paulistas. A abrangência territorial impressiona e demonstra que, já naquele período, havia a compreensão de que o desenvolvimento do cooperativismo dependeria da interiorização de suas ações.
Quase nove décadas depois, percorrer essa lista de cidades provoca uma curiosa sensação de continuidade histórica. Muitas delas permanecem como importantes polos agrícolas do Estado, sustentando cadeias produtivas que se modernizaram, incorporaram tecnologia, ampliaram mercados e conquistaram competitividade internacional. O cenário mudou profundamente, mas a convicção que orientava aquelas primeiras iniciativas continua atual: fortalecer o produtor por meio da cooperação sempre representou um caminho mais sólido para promover desenvolvimento econômico e inclusão social.
Talvez um dos aspectos mais fascinantes desses registros seja perceber que o cooperativismo paulista nunca se limitou a enfrentar os desafios imediatos de sua época. Desde seus primeiros passos, havia uma visão de longo prazo. Organizar produtores, incentivar a criação de novas cooperativas, ampliar sua presença pelo território paulista e divulgar seus princípios significava preparar o Estado para um futuro em que a produção agrícola dependeria, cada vez mais, da capacidade de trabalhar coletivamente.
Ao observar o presente, é impossível não reconhecer a dimensão daquela visão. Hoje, o cooperativismo agropecuário paulista reúne centenas de cooperativas, milhares de cooperados e exerce papel decisivo na produção de alimentos, na agregação de valor à produção rural, na inovação tecnológica e na geração de emprego e renda. O que impressiona é perceber que muitos dos alicerces desse sistema já estavam claramente delineados nas páginas datilografadas por Otacílio Tomanik em 1937.
Cada novo capítulo do relatório reforça uma impressão difícil de ignorar: aqueles documentos não registravam apenas acontecimentos administrativos. Eles descreviam, quase sem perceber, o início de uma transformação que atravessaria gerações. Uma transformação construída pela força da cooperação, pelo planejamento e pela convicção de que o desenvolvimento se torna mais sólido quando é compartilhado.
E é justamente entre essas páginas que surge um tema surpreendentemente atual. Em meio às ações voltadas à organização das cooperativas agrícolas, Otacílio Tomanik dedica espaço a uma iniciativa que, à primeira vista, poderia parecer modesta, mas que revelava uma compreensão extraordinariamente avançada para sua época: o cooperativismo escolar. Um conceito que, ainda em 1937, buscava formar cidadãos antes mesmo de formar cooperados – e que continua oferecendo importantes lições par aos desafios educacionais do século XXI.
O relatório registra que, durante aquele ano, o movimento do cooperativismo escolar não se expandiu de forma significativa pelo Estado de São Paulo. Entretanto, a análise apresentada por Tomanik vai muito além da simples constatação numérica. Seu olhar dirige-se à qualidade desse crescimento. Segundo ele, as cooperativas já existentes demonstravam maior entusiasmo, participação espontânea dos associados e uma compreensão mais elevada dos verdadeiros objetivos que deveriam nortear uma sociedade cooperativa.
A observação, escrita há quase nove décadas, impressiona pela atualidade. Em um período no qual a educação brasileira ainda enfrentava enormes desafios estruturais, o cooperativismo já era compreendido como instrumento de formação humana, estimulando valores como responsabilidade, participação democrática, trabalho em equipe e compromisso com o bem coletivo.
Muito antes de conceitos como protagonismo estudantil, educação empreendedora ou aprendizagem colaborativa ganharem espaço nas políticas educacionais contemporâneas, o cooperativismo paulista já lançava as bases de uma cultura que colocava a cooperação no centro do processo educativo.
Essa talvez seja uma das maiores lições preservadas nas páginas dos relatórios. O cooperativismo nunca se resumiu à produção agrícola, ao armazenamento de mercadorias ou à comercialização de produtos. Sua essência sempre esteve ligada às pessoas. Cooperar significava aprender a compartilhar responsabilidades, construir soluções coletivas e compreender que o desenvolvimento individual somente alcança sua plenitude quando contribui para o desenvolvimento da comunidade.
Essa percepção ajuda a compreender por que os relatórios de Otacílio Tomanik permanecem tão atuais. Embora escritos em um contexto completamente diferente do atual, seus registros demonstram uma preocupação permanente com a formação de lideranças, com a organização institucional e com o fortalecimento das relações entre os cooperados. O desenvolvimento econômico aparecia como consequência natural de uma base sólida de confiança, participação e responsabilidade compartilhada.
Outro aspecto que impressiona ao longo da leitura é o extraordinário cuidado dedicado à documentação de cada atividade desenvolvida pelo Departamento de Assistência ao Cooperativismo. Não há registros superficiais ou meramente protocolares. Cada reunião, cada visita técnica, cada cooperativa organizada, cada exposição promovida e cada iniciativa de orientação aos produtores foram cuidadosamente descritas. A impressão é de que Tomanik compreendia que estava construindo um patrimônio documental para as gerações futuras.
Essa característica ganha ainda mais relevância quando comparada aos dias atuais. Vivemos a era da informação instantânea. Relatórios podem ser produzidos em poucos minutos, publicados em plataformas digitais e distribuídos simultaneamente para milhares de pessoas. Ferramentas tecnológicas permitem acompanhar indicadores em tempo real e compartilhar resultados com rapidez jamais imaginada nas décadas de 1930 e 1940.
Paradoxalmente, justamente em uma época marcada pela velocidade da informação, os relatórios de Otacílio Tomanik ensinam uma virtude que permanece indispensável: a profundidade. Seus documentos não buscavam apenas informar que determinada ação havia sido realizada. Procuravam explicar por que ela era necessária, quais objetivos pretendia alcançar e quais resultados produzia para o fortalecimento do cooperativismo paulista.
Essa dedicação transforma as duas obras em muito mais do que registros administrativos. Eles constituem um verdadeiro inventário da construção do cooperativismo no Estado de São Paulo. Ao longo de suas páginas, percebe-se um esforço permanente para registrar não apenas números, mas intenções, estratégias, desafios e conquistas.
Ao estabelecer esse diálogo entre passado e presente, torna-se impossível não perceber a impressionante evolução dos instrumentos de gestão e comunicação. Se, em 1937, cada informação dependia do rigor da máquina de escrever, da revisão manual e da impressão em papel, hoje a transformação digital tornou praticamente instantânea a circulação do conhecimento. Entretanto, nenhuma inovação tecnológica substitui o compromisso com a verdade, a transparência e a responsabilidade na prestação de contas – valores que atravessam toda a obra de Tomanik e permanecem como pilares do cooperativismo moderno.
Talvez seja exatamente por isso que o tema proposto pela ONU para o Ano Internacional das Cooperativas encontre tamanha sintonia com esses documentos históricos. Ao afirmar que “Cooperativas constroem um mundo melhor”, a organização internacional reconhece um modelo capaz de promover crescimento econômico sem perder de vista a dimensão humana o desenvolvimento. É a mesma convicção que, ainda na década de 1930, orientava o trabalho realizado pelo Departamento de Assistência ao Cooperativismo em São Paulo.
Quase noventa anos depois, o cenário é completamente diferente. O cooperativismo paulista tornou-se referência nacional, incorporou tecnologia, ampliou mercados, fortaleceu cadeias produtivas e consolidou sua importância para o agronegócio brasileiro. Mas sua essência permanece inalterada. Continuam sendo as pessoas – e não apenas os números – o verdadeiro patrimônio desse movimento.
É justamente essa percepção que prepara o leitor para um dos capítulos mais instigantes dos relatórios. Entre análises econômicas, diagnósticos setoriais e propostas para o fortalecimento das cooperativas, Otacílio Tomanik dedica especial atenção a um tema que atravessaria décadas sem perder sua relevância: a cadeia leiteira paulista. As reflexões registradas naquele período demonstram que alguns dos maiores desafios do cooperativismo agropecuário já ocupavam lugar central nas discussões de quase um século atrás.
Entre os diversos capítulos que compõem o relatório de 1937, poucos revelam de maneira tão clara a visão estratégica do cooperativismo paulista quanto aquele dedicado à chamada “Questão do Leite e o Cooperativismo”. O tema não surge por acaso. Já naquela época, a produção leiteira ocupava posição de destaque na economia agrícola do Estado de São Paulo e era tratada como atividade essencial tanto para o abastecimento da população quanto para a geração de renda no meio rural.
Ao percorrer essas páginas, percebe-se que os debates registrados por Otacílio Tomanik guardam surpreendentes semelhanças com questões que continuam presentes na atualidade. O relatório analisa as condições do comércio de leite em São Paulo, os desafios enfrentados pelos produtores, o papel das cooperativas na organização da cadeia produtiva e a necessidade de mecanismos capazes de garantir maior estabilidade econômica ao setor.
Mais do que identificar problemas, o documento buscava caminhos. A atuação da então Cooperativa Central de Laticínios aparece como elemento fundamental para a organização do mercado, contribuindo para fortalecer os produtores e ampliar a eficiência da comercialização.
É impossível não perceber a atualidade dessas discussões. Quase noventa anos depois, a cadeia leiteira continua ocupando posição estratégica no agronegócio brasileiro. Mudaram os métodos de produção, surgiram novas tecnologias, os processos de industrialização foram modernizados e os mercados tornaram-se mais complexos e competitivos. No entanto, permanecem os desafios relacionados à remuneração do produtor, à organização da produção, à agregação de valor e à busca permanente por eficiência e sustentabilidade.
Talvez seja justamente por isso que a leitura desse capítulo desperte tamanho interesse. Ele demonstra que o cooperativismo não atuava apenas como instrumento de comercialização. Sua função era muito mais ampla. As cooperativas surgiam coo mecanismos capazes de organizar cadeias produtivas inteiras, promover equilíbrio econômico e oferecer soluções coletivas para problemas que dificilmente poderiam ser enfrentados de forma individual.
Essa visão permanece viva no cooperativismo contemporâneo. Atualmente, as cooperativas agropecuárias desempenham papel decisivo na assistência técnica aos produtores, na industrialização da produção, no acesso à inovação, na abertura de mercados e na geração de desenvolvimento regional. Em essência, continuam cumprindo a mesma missão que inspirava os pioneiros da década de 1930: transformar a cooperação e instrumento de prosperidade compartilhada.
Ao chegar às últimas páginas dos relatórios, uma constatação torna-se inevitável. A grandiosidade dessas obras não está apenas na quantidade de informações que preservam, mas no cuidado com que foram produzidas. Cada dado registrado, cada ação relatada e cada análise apresentada revelam um profundo compromisso com a memória institucional do cooperativismo paulista.
Em tempos de comunicação instantânea, talvez seja difícil imaginar o esforço necessário para reunir, organizar e registrar tantas informações com tamanha riqueza de detalhes. Ainda assim, Otacílio Tomanik compreendeu que aquele trabalho precisava ser documentado. Não apenas para prestar contas à administração pública de sua época, mas para que as futuras gerações pudessem compreender o caminho percorrido pelo cooperativismo em São Paulo.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Quase noventa anos depois, aqueles relatórios permanecem vivos. Não apenas como peças históricas cuidadosamente preservadas, mas como testemunhos de uma visão de futuro que ajudou a transformar realidades econômicas e sociais em dezenas de municípios paulistas.
Ao longo dessa jornada pelas páginas de 1937 e 1939, torna-se evidente que o cooperativismo paulista não nasceu por acaso. Foi construído com planejamento, dedicação, espírito público e, acima de tudo, confiança na capacidade das pessoas de trabalharem juntas em busca de objetivos comuns.
As cooperativas organizadas naquele período, os produtores mobilizados, as exposições promovidas, as iniciativas educacionais incentivadas e as soluções debatidas para setores estratégicos, como a cadeia leiteira, formam um mosaico histórico que ajuda a explicar a força que o cooperativismo possui atualmente no Estado de São Paulo e no Brasil.
Mais do que registrar fatos, Otacílo Tomanik acabou eternizando uma ideia.
A ideia de que o desenvolvimento econômico pode caminhar ao lado da solidariedade.
A ideia de que a organização coletiva fortalece indivíduos e comunidades.
A ideia de que a prosperidade se torna mais consistente quando seus benefícios são compartilhados.
São princípios que atravessaram gerações e permanecem plenamente atuais.
No início dessa reportagem, a imagem era a de dois livros antigos, cuidadosamente preservados, com suas páginas amareladas pelo tempo. À primeira vista, poderiam parecer apenas documentos históricos destinados às estantes da memória.
Ao final da leitura, porém, eles assumem outro significado.
Transformam-se em testemunhos de um ideal que atravessou gerações.
Em registros de homens e mulheres que acreditaram na força da cooperação para construir oportunidades.
Em provas de que algumas ideias resistem ao tempo porque continuam necessárias.
Talvez o maior legado de Otacílio Tomanik não tenha sido apenas organizar e documentar uma etapa fundamental do cooperativismo paulista. Seu maior legado foi garantir que essa história permanecesse acessível às gerações futuras, permitindo que quase noventa anos depois ainda fosse possível compreender os valores que ajudaram a moldar um dos movimentos mais importantes da economia e da vida social brasileira.
Ao fechar aquelas obras, permanece uma certeza.
Algumas páginas envelhecem.
Outras atravessam gerações.
E quando registram sonhos coletivos, trabalho compartilhado e a convicção de que o progresso se torna mais forte quando ninguém fica pra trás, deixam de contar apenas a história do passado par continuar inspirando o futuro.
Porque ontem, como hoje, as cooperativas constroem um mundo melhor (Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP)






