Doenças respiratórias dos bovinos exigem prevenção, manejo e resposta rápida no campo

Identificação precoce dos sinais clínicos e tratamento assertivo são medidas essenciais para conter os impactos da enfermidade nos rebanhos

O complexo de doenças respiratórias dos bovinos (DRB) está entre os principais desafios sanitários da pecuária, especialmente nos sistemas intensivos. Mas, vale ressaltar que os sistemas extensivos não estão isentos dos riscos da DRB, especialmente em situações que levam ao estresse como mudanças bruscas na temperatura, transporte por longas distâncias, por exemplo. De origem multifatorial, a enfermidade compromete o desempenho zootécnico, afeta o
bem-estar dos animais e pode levar ao óbito, gerando perdas econômicas importantes quando não é prevenida ou tratada de forma adequada.

O desenvolvimento da DRB resulta da interação entre diferentes fatores: os agentes infecciosos, as condições ambientais, o manejo e a capacidade dos animais de responder imunologicamente aos desafios. Bactérias e vírus podem participar do processo e entre os agentes bacterianos de maior relevância estão Mannheimia haemolytica, Pasteurella multocida, Histophilus somni e Mycoplasma bovis, que estão frequentemente associados a manifestações respiratórias graves e a processos inflamatórios pulmonares que, quando não controlados adequadamente em conjunto com a infecção, podem causar lesões significativas e até comprometer a vida dos animais afetados.

“Esses agentes normalmente podem estar presentes nas vias respiratórias superiores dos animais sem necessariamente causar doença. O problema ocorre quando há um desequilíbrio, geralmente provocado por situações de estresse, queda de imunidade ou agressões à mucosa respiratória, permitindo que essas bactérias se multipliquem e alcancem o trato respiratório inferior”, explica Baity Leal, médica-veterinária e gerente da linha de produtos na Unidade de Pecuária da Ceva Saúde Animal.

Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que a DRB aparece com maior frequência em momentos críticos da produção. Transporte por longas distâncias, jejum prolongado, mistura de animais de diferentes origens, formação recente de lotes, disputas por hierarquia, alta densidade, excesso de poeira, lama, umidade e ventilação inadequada são fatores que favorecem a ocorrência da doença.

Nos confinamentos de gado de corte e nos sistemas intensivos de produção leiteira, a proximidade entre os animais e a exposição a fatores que agridem a mucosa respiratória, como poeira e acúmulo de gases, aumentam a pressão de infecção e favorecem a disseminação dos agentes. A enfermidade, no entanto, também pode acometer bovinos criados a pasto, especialmente quando submetidos a condições que comprometem seus mecanismos naturais de defesa.

“A DRB não deve ser vista apenas como um problema de confinamento. Sempre que o animal passa por situações que interferem na imunidade, no conforto e na integridade das vias respiratórias, o risco aumenta. Por isso, o olhar preventivo precisa fazer parte da rotina sanitária da propriedade”, reforça Baity.

Os sinais clínicos mais comuns incluem febre, secreção nasal, lacrimejamento, tosse, dificuldade respiratória, apatia, queda no consumo de alimento e redução do desempenho. Em bovinos jovens, como nas bezerras leiteiras, o impacto tende a ser expressivo, comprometendo o desenvolvimento corporal, a reprodução e produção de leite futuras. Nos sistemas de produção mais tecnificados, perdas associadas à pior conversão alimentar, atraso no ganho de peso, aumento de custos com tratamentos e mortalidade tornam a DRB um desafio também do ponto de vista econômico.

Estudos sobre o impacto da enfermidade reforçam essa dimensão produtiva. Além dos custos diretos com medicamentos e mão de obra, a DRB pode gerar perdas pela redução no desempenho dos animais afetados, maior tempo de recuperação e desuniformidade dos lotes. Por isso, a doença exige uma abordagem integrada, que combine prevenção, monitoramento e intervenção rápida.

A prevenção passa pela combinação de medidas de manejo, sanidade e ambiência. Reduzir poeira e umidade, garantir ventilação adequada, evitar manejo agressivo, organizar lotes com menor variação de origem e categoria, permitir um período mínimo de descanso e adaptação aos animais recém-chegados na fazenda, medidas que reduzem situações de estresse e são importantes práticas que ajudam a diminuir a predisposição à doença. No caso dos bezerros, a ingestão adequada de colostro nas primeiras horas de vida e a adequada cura e desinfecção do umbigo são fundamentais para a construção da imunidade inicial e prevenção de infecções.

A vacinação também tem papel importante dentro de programas sanitários bem estruturados, especialmente quando realizada de forma planejada e antes dos períodos de maior risco.

“Não existe uma única medida capaz de controlar a DRB de forma isolada. O resultado vem da integração entre prevenção, manejo adequado, vacinação, monitoramento dos animais e capacidade de identificar rapidamente aqueles que precisam de intervenção”, afirma Baity.

Quando a doença se instala, a rapidez na tomada de decisão é determinante. A evolução pode ser rápida, e atrasos no tratamento aumentam o risco de lesões pulmonares severas, queda persistente no desempenho e mortalidade. Além da ação contra os agentes bacterianos envolvidos, o controle da inflamação, da febre e do desconforto do animal também tem papel importante na recuperação.

“O tratamento precisa ser feito no momento certo e com a ferramenta adequada. Isso envolve a aplicação de medicamentos antibióticos adequados que proporcionem rápido e efetivo início de controle das infecções, sendo que este controle deverá ser realizado por tempo adequado (um mínimo de 3 dias). Um outro ponto muito importante, às vezes negligenciado, é o controle efetivo da inflamação pulmonar que também deve ocorrer por pelo menos 3 dias.  Isso favorece o bem-estar e ajuda o animal a retomar o consumo e a recuperação clínica”, orienta Baity.

Nesse contexto, soluções terapêuticas que associam ampla ação antimicrobiana e anti-inflamatória ganham relevância dentro da rotina sanitária das fazendas.

Mais do que tratar a infecção, a associação entre antibiótico e anti-inflamatório responde a uma necessidade prática do campo: controlar a doença de forma mais completa e pelo período adequado, considerando tanto o agente bacteriano quanto a resposta inflamatória que compromete o conforto, o consumo e a recuperação do animal. O uso, no entanto, deve sempre seguir a prescrição e a orientação do médico-veterinário, respeitando as recomendações de bula e os critérios de uso responsável de antimicrobianos.

Para Baity, o avanço no controle da DRB passa por uma visão mais estratégica da sanidade. “A pecuária está cada vez mais profissionalizada, e isso exige decisões mais rápidas, precisas e responsáveis. Reduzir o impacto das doenças respiratórias depende de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento bem conduzido”, conclui.

Em um cenário de maior intensificação produtiva, a DRB tende a permanecer entre os principais pontos de atenção da pecuária. A diferença estará na capacidade das propriedades de antecipar riscos, estruturar protocolos sanitários, agir com precisão diante dos primeiros sinais e adotar soluções alinhadas à saúde, ao desempenho e ao bem-estar dos animais.

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