Fenômeno pode desequilibrar regime de chuvas e provocar problemas principalmente para o plantio da soja e do milho.
A possível formação do fenômeno climático El Niño (ou até de um “Super El Niño”) nos próximos meses pode trazer desafios relevantes para a safra brasileira de grãos 2026/27, especialmente no Centro-Oeste e no Matopiba (a região que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).
O risco reside principalmente no atraso do plantio da soja, no encurtamento da janela para o plantio do milho de segunda safra e na maior ocorrência de veranicos e temperaturas elevadas, o que pode interferir no desenvolvimento satisfatório das lavouras.
Embora a ocorrência do fenômeno ainda não esteja cravada, a possibilidade de ele se concretizar já faz com que grandes empresas produtoras de grãos avaliem alternativas para os cultivos mais sensíveis. O El Niño é um fenômeno causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Tropical, que provoca mudanças nos regimes de ventos e chuvas em todo o mundo. E é considerado um “Super El Niño” quando esse aquecimento ultrapassa 2°C em relação à média histórica.
Soja e milho são as duas principais culturas agrícolas brasileiras. A produção nacional de soja atingiu 166 milhões de toneladas em 2025, enquanto a de milho foi de 141,7 milhões de toneladas, segundo dados do IBGE. O Brasil é o maior produtor mundial de soja e o terceiro maior de milho (atrás dos Estados Unidos e da China), o que significa que qualquer redução de safra poderia ter impacto tanto no abastecimento e nos preços no mercado doméstico quanto no exterior.
Em teleconferências com investidores para comentar os resultados do primeiro trimestre, o El Niño foi tema recorrente entre as empresas do agronegócio. Na SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos e algodão do País, a resposta ao risco climático passa pelo custo. O CEO da empresa, Aurélio Pavinato, disse que a companhia deve avaliar fazenda por fazenda para ajustar o pacote de fertilizantes nas áreas com maior risco.
“A estratégia é trabalhar cada fazenda, analisar cada cultura e tentar mitigar riscos, ajustar o pacote de fertilizantes buscando economizar. E, se não chover, tem redução de custos”, afirmou. A estratégia busca preservar margem em um ano no qual o clima exige cautela e os insumos seguem pressionados, especialmente os nitrogenados, cujos preços subiram com o impacto do conflito no Irã sobre o mercado de gás natural.
Na BrasilAgro, o possível El Niño também entrou no planejamento da próxima temporada. O CEO da empresa, André Guillaumon, afirmou, em teleconferência, que a companhia deve fazer mudanças no plantio de grãos na safra 2026/27. Segundo ele, a empresa não espera chuvas no começo de outubro e terá de avaliar com mais cuidado áreas com menor cobertura de solo.
“Áreas onde a gente entende que não tem palhada ideal, ou essas áreas vão sair do sistema, ou vão ser plantadas a posteriori”, afirmou. A palhada é a cobertura vegetal que fica sobre o solo depois da colheita anterior. Na prática, ajuda a conservar umidade, reduzir a temperatura e melhorar a germinação quando a chuva é irregular.
Outra empresa do setor, a 3Tentos, que ampliou sua presença em Mato Grosso e está prestes a iniciar sua primeira operação de etanol de milho no Estado, vê possibilidade de aumento da demanda por sorgo se a janela de chuvas ficar mais curta para o milho segunda safra. O CEO da 3Tentos, João Marcelo Dumoncel, afirmou que o sorgo pode funcionar como alternativa para produtores que perderem o período ideal do milho. “Estamos vendo um crescimento importante no interesse e na demanda por sorgo”, disse.
Segundo Dumoncel, o sorgo tende a entrar quando o calendário deixa de ser confortável para o milho. “À medida que a janela for saindo da ótima, ele já migra para plantar sorgo, que demanda menos chuva, é mais rústico e tem investimento menor”, afirmou.
A mudança também interessa à indústria. A planta de etanol da 3Tentos em Porto Alegre do Norte (MT), com capacidade para processar 2,8 mil toneladas de milho por dia quando atingir plena operação, também pode usar sorgo como matéria-prima. “Para nós não é ruim, porque o sorgo também é uma matéria-prima viável para a produção de etanol”, disse.
Para consultores e especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, a possível formação do fenômeno El Niño ao longo dos próximos meses exige atenção dos produtores, mas ainda não justifica previsões de quebra generalizada de safra. A avaliação é a de que o principal risco para a temporada 2026/27 está na irregularidade das chuvas e nas temperaturas elevadas no Centro-Oeste, Matopiba e parte do Centro-Norte do País, fatores que podem atrasar o plantio da soja e comprometer a janela do milho segunda safra.
Embora os modelos climáticos indiquem elevada probabilidade de consolidação do fenômeno, os analistas ressaltam que seus impactos dependem da intensidade do evento, da resposta da atmosfera e, principalmente, do momento em que as anomalias climáticas atingirem cada região produtora.
Para a analista de inteligência de mercado da consultoria StoneX, Carolina Giraldo, a ocorrência de El Niño aumenta a probabilidade de mudanças nos padrões de chuva e temperatura em regiões produtoras, mas não deve ser tratado como sinônimo automático de quebra. “A leitura correta não é El Niño igual à quebra de safra. O fenômeno deve ser avaliado de acordo com o local no qual atua com mais força, em que época do ano e qual cultura está em fase mais sensível naquele momento”, afirmou.
Segundo a analista, o Pacífico Equatorial já mostra sinais de aquecimento, o que favorece a formação do fenômeno. Mas os efeitos sobre o campo dependem também da resposta da atmosfera. Isso significa que ventos e áreas de chuva precisam se reorganizar de forma consistente antes que o impacto climático fique mais claro.
A atualização mais recente da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) ainda indicava condições neutras, mas apontava 82% de possibilidade de formação do El Niño entre maio e julho de 2026 e 96% de possibilidade de continuidade entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
No Brasil, o ponto central não é apenas quanto vai chover, mas quando e como essa chuva chegará. No Centro-Oeste, no Matopiba e em parte do Centro-Norte, uma precipitação mal distribuída pode atrasar a semeadura da soja, mesmo que o volume acumulado do mês não pareça baixo.
“A distribuição pode ser ruim, com períodos secos prolongados, atraso no início da estação chuvosa ou ondas de calor”, disse a analista da StoneX. Para o produtor, essa diferença é decisiva: chuva concentrada em poucos eventos não resolve o problema se vier intercalada por muitos dias secos no começo do ciclo.
O analista de cultura da EarthDaily, Felippe Reis, também vê o maior risco na faixa que vai do Matopiba até Goiás e Mato Grosso. Segundo ele, El Niño pode provocar atraso das chuvas, temperaturas elevadas e períodos de seca no início da safra, prejudicando o estabelecimento das lavouras. O cenário, porém, ainda é de monitoramento. “O correto é tratar o fenômeno como fator de risco relevante, não como uma quebra inevitável nas safras”, afirmou.
No Sul, o El Niño costuma aumentar a disponibilidade hídrica e tende a favorecer soja e milho de verão, segundo o analista da EarthDaily. O risco nessa região aparece mais tarde, na reta final do ciclo do trigo, entre outubro e dezembro, quando o excesso de chuvas reduz a radiação solar, dificulta a colheita e aumenta a pressão de doenças. “O principal problema no Sul do Brasil não costuma ocorrer no início do ciclo, mas sim na reta final da safra”, afirmou Reis.
A principal vulnerabilidade está no milho segunda safra. A lógica é direta. Se a chuva demora a se regularizar, a soja é plantada mais tarde. Se a soja entra depois no solo, a colheita também tende a atrasar. Com isso, o milho, que depende da liberação dessas áreas, pode ser semeado fora da janela ideal.
O cereal passa a enfrentar florescimento e enchimento de grãos em período de menor umidade, porque as chuvas normalmente perdem força a partir de abril em parte do Brasil Central. Além disso, a lavoura pega meses de menor radiação solar, o que limita o potencial produtivo.
O histórico de 2016 ajuda a explicar a atenção do mercado. Naquele ano, Mato Grosso registrou quebra de aproximadamente 29% na produtividade do milho segunda safra em relação ao esperado, uma das maiores perdas das últimas duas décadas. O problema foi causado pela combinação de seca intensa e temperaturas elevadas durante um El Niño ainda ativo, embora já em enfraquecimento.
Em 2024, por outro lado, também houve El Niño em dissipação ao longo do ciclo da safrinha, mas os impactos foram menores. A comparação reforça que o fenômeno aumenta o risco, mas não determina, sozinho, o tamanho da perda (Estadão)





